Angola: Desafios de uma sociedade sobrecarregada – Garcia Bige
Angola: Desafios de uma sociedade sobrecarregada – Garcia Bige
Garcia Bige

As chamadas sociedades sobrecarregadas, como Angola, por condições desfavoráveis, enquadram-se nas “condições das sociedades cujas circunstâncias históricas, sociais e económicas tornam a concretização de um regime bem ordenado, seja liberal ou decente, difícil, mas não impossível.” (RAWLS, 2014; 2019, p. 118).

Angola é considerada, ainda, uma sociedade com condições desfavoráveis, embora possua grande riqueza em recursos naturais, pois a maior parte da população vive em condições precárias, sem acesso a recursos básicos como água potável, educação, saúde, saneamento, energia e boas estradas.

Assim como existem exemplos de sociedades sobrecarregadas que superaram este paradigma, Angola também pode vencê-lo. Este é um desafio de todos os angolanos: juntos conseguimos pôr fim à guerra civil e, do mesmo modo, podemos enfrentar e superar os problemas socioeconómicos que nos afligem, contribuindo para a construção de um país mais justo e próspero.

Um exemplo prático de um país africano que conseguiu superar condições desfavoráveis é Botswana. Quando se tornou independente em 1966, era um dos países mais pobres do mundo, com pouca infraestrutura, alta taxa de analfabetismo e dependência da agricultura de subsistência.

No entanto, diferente de muitos países africanos, onde a abundância de recursos se transformou em fonte de corrupção, conflitos e instabilidade, Botswana investiu em educação, saúde, instituições democráticas e gestão transparente dos seus diamantes (ACEMOGLU; ROBINSON, 2012).

Hoje, é uma das democracias mais estáveis do continente, com crescimento económico sustentado e baixos níveis de corrupção, embora ainda enfrente limitações: cerca de 73% da população tem acesso a água potável segura, e, apesar das taxas de alfabetização superiores a 85%, persistem desafios de qualidade no ensino, sobretudo em áreas rurais (WORLD BANK. The World Bank in Botswana. 2023. Disponível em: https://www.worldbank.org/en/country/botswana/overview. Acesso em: 12 set. 2025).

A experiência de Botswana mostra que, mesmo em contextos de grande adversidade, é possível construir instituições sólidas e melhorar os indicadores sociais.

No entanto, em países como Angola, as limitações estruturais e históricas continuam a representar barreiras significativas para a implementação de políticas eficazes e justas.

A falta generalizada de infraestrutura básica, como estradas asfaltadas – onde existem, estão muitas vezes deterioradas – compromete a qualidade de vida e dificulta o desenvolvimento económico.

Louvamos o que o governo tem feito até aqui, mas o desafio é não direccionar os recursos de forma desigual, privilegiando os governantes com luxo excessivo em detrimento da população.

Viaturas de última geração usadas por governantes seriam melhor aproveitadas se as infra-estruturas de apoio, como estradas, saneamento, energia e água potável, fossem resolvidas primeiro. É imperativo vencer este desafio! Precisamos priorizar o prioritário!

Sem estradas adequadas, a população não pode circular livremente, impedindo a evacuação de produtos agrícolas para as cidades e a aquisição de bens essenciais.

Mesmo os governantes, com viaturas de última geração, não conseguem utilizá-las plenamente devido ao estado precário das estradas – certas zonas, reduzindo a durabilidade destes veículos.

Isso contribui para a escassez de recursos, constantemente redireccionados para a compra de novas viaturas para governantes, deputados e juízes, prejudicando o bem-estar da população.

Portanto, o mais sensato seria melhorar as infra-estruturas antes de investir no luxo das viaturas. O contrário, como se observa, é um verdadeiro “luxo na miséria”.

É importante sublinhar que a pobreza das sociedades não está na falta de recursos, mas na falta de uma utilização razoável destes recursos. A razoabilidade dos políticos manifesta-se na consecução do bem-estar da população, a razão final da governação.

Para promover o desenvolvimento sustentável e a justiça social, é crucial priorizar a melhoria das infra-estruturas básicas e assegurar uma gestão equitativa e responsável dos recursos. Sem isso, o progresso permanece inatingível, perpetuando ciclos de desigualdade e subdesenvolvimento.

A superação dos desafios enfrentados por Estados ou sociedades sobrecarregadas requer não apenas investimentos em infraestrutura e desenvolvimento económico, mas também uma abordagem holística que considere as necessidades básicas da população.

Caso contrário, a falta de atenção a estes aspectos essenciais perpetua ciclos de pobreza e desigualdade, minando os esforços para construir uma sociedade justa e equitativa.

Neste sentido, o estadista, como ideal de liderança, é alguém que está em posição única para representar os interesses e obrigações do povo: “Os estadistas são grandes líderes do povo, porque estão em posição mais eficaz para representar os objetivos e obrigações do seu povo” (RAWLS, 2014, p. 122).

Esta posição deriva não apenas do poder formal que ocupam, mas também da confiança e expectativas que o povo deposita neles.

O estadista é um símbolo de responsabilidade e capacidade de guiar a nação em tempos desafiadores e de prosperidade, sempre com o bem-estar colectivo como prioridade máxima.

Mas quem é realmente o estadista? Rawls (2014, p. 123) argumenta que o estadista não é um cargo, mas um ideal, comparável ao indivíduo honesto ou virtuoso:

“Os estadistas são presidentes ou primeiros-ministros ou outros altos funcionários que, pelo seu procedimento e liderança exemplares no desempenho de suas funções, manifestam força, sabedoria e coragem. Portanto, guiam o seu povo em tempos turbulentos e perigosos”.

O ideal é a tarefa do estadista. Podem ser resumidos na máxima: “o político olha para a próxima eleição, o estadista para a próxima geração“. É também sua função discernir as condições e interesses reais da sociedade: “É tarefa do estadista discernir estas condições e interesses na prática.” (RAWLS, 2014, p. 123).

O estadista possui visão ampla e profunda, capaz de compreender o que precisa ser feito. Deve efetuar uma análise correcta, ou quase correcta, da situação, mantendo-se fiel à sua posição.

Os estadistas (são homens, têm sentimentos) podem ter os seus próprios interesses quando desempenham funções, mas devem ser desinteressados no seu juízo e avaliação dos interesses fundamentais da sua sociedade e não devem ser comandados por paixões.” (RAWLS, 2014, p. 123).

No entanto, o estadista é humano, falível, e depende também da contribuição de todos os cidadãos para construir e manter a sua boa imagem e eficácia.

Qualquer ser humano, desde que se abra ao diálogo, se ajude nesta nobre missão e pratique acções que inspirem confiança e cooperação, é capaz de superar obstáculos.

As suas atitudes devem atrair os cidadãos para a causa colectiva, reforçando o compromisso mútuo entre governantes e governados. Agir de forma impactante por si só não torna alguém um estadista.

Como nota Rawls (2014, p. 124): “agir de um modo que figurará na história mundial e/ou nacional não torna, por si só, alguém num estadista. Napoleão e Hitler, por exemplo, alteraram incalculavelmente a história e a vida humanas, mas certamente que não eram estadistas“.

Nem todo presidente ou primeiro-ministro atinge o patamar de estadista; este exige compromisso profundo com o bem-estar e interesses de longo prazo da sociedade.

Portanto, os estadistas precisam de mais humanismo e patriotismo. “É realmente importante não só o que os homens fazem, mas também que tipo de homens eles são”.

Nada supera este valor. Quem deve provar isso são as acções do governo e a conduta dos governantes no seu dia a dia. “Entre as obras do homem, que a vida humana é usada adequadamente para aperfeiçoar e embelezar, a primeira em importância é, sem dúvida, o próprio homem.” (MILL, 2019, p. 83).

Se o homem não for valorizado, a sociedade declina até fracassar. Como diria Kant, o tipo de educação que damos molda o tipo de homens que queremos na sociedade. A experiência mostra que as acções educam mais do que as palavras. Bons políticos e exemplares constroem sociedades boas e respeitáveis.

O futebol nos prende ao sofá por longos 90 minutos, ou 120 se for uma final ou fase eliminatória. Por que as grandes equipas de futebol possuem tantos adeptos? Porque o que fazem nos convence a todos!

Não precisam ir atrás de nenhum adepto para conquistá-lo, seja para apoiar o Real Madrid, Manchester City, D’gosto ou Petro de Luanda. Os adeptos sabem que o que essas equipas fazem é gratificante.

Assim como os adeptos escolhem suas equipas pela qualidade do desempenho e dedicação, os cidadãos devem poder confiar e apoiar seus líderes políticos pela competência e compromisso com o bem-estar colectivo.

A verdadeira liderança não precisa ser imposta; evidencia-se através de acções e resultados positivos. Que os políticos, em Angola e no mundo, aprendam com o futebol a inspirar e merecer a confiança do povo pelo trabalho realizado, e não por promessas vazias ou manipulação.

Os líderes deveriam seguir esse grande exemplo: fazer o que devem para serem seguidos, sem precisar recorrer a mecanismos pouco saudáveis para conquistar apoio.

Portanto, o maior património de uma sociedade é o bom exemplo. Nada supera o seu valor. O exemplo inspira e transforma, sendo a base do desenvolvimento ético e moral do povo.

Se o excesso faz mal, também a falta, sendo defeito, faz mal. Por isso, “a medida é melhor limite”!

*Docente universitário, especialista em Comunicação Política, Diplomacia, Políticas Públicas e Cooperação Internacional

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido