Autoridades da Namíbia negam justiça a angolanos detidos nas regiões de Oshikango e Ohangwena
Autoridades da Namíbia negam justiça a angolanos detidos nas regiões de Oshikango e Ohangwena
presos namibia

Um grupo de cidadãos angolanos, detidos há vários anos em cadeias nas regiões de Oshikango e Ohangwena, no norte da Namíbia, denuncia prisões arbitrárias, ausência de julgamento e alegadas práticas abusivas por parte das autoridades policiais locais.

Numa exposição enviada à redação do Imparcial Press, os detidos descrevem um cenário que classificam como “perseguição sistemática” contra angolanos que atravessam ou residem na região fronteiriça.

Segundo os relatos, alguns afirmam estar presos desde 2022 e 2024, sem que os seus processos tenham conhecido avanços significativos nos tribunais locais, mantendo-os, alegadamente, como reféns da morosidade da justiça daquele país vizinho.

O Imparcial Press apurou que um dos detidos, desde 2024, terá sido acusado de ser proprietário de uma mala que continha produtos ilícitos, encontrada num autocarro em que seguia da fronteira de Oshikango para Windhoek, onde residia.

“Apontaram-no como dono da pasta. Foi ameaçado pela polícia namibiana e disseram-lhe que, se não assumisse a culpa, nunca seria julgado”, relata uma fonte que acompanha o caso.

A mesma fonte sustenta que a vítima tem sido levada repetidamente ao tribunal local apenas para lhe ser perguntado se já admite a posse dos bens apreendidos, sem que o processo avance para julgamento com base em provas formais.

“Ele estudava em Windhoek e apenas implora para que seja julgado com base nas evidências, mas nunca teve êxito”, afirma, acrescentando que a representação diplomática angolana não tem feito nada para ajudá-lo, nem aos demais que se encontram detidos por vários motivos.

Os denunciantes alegam ainda a existência de uma suposta prática de aliciamento de angolanos para o tráfico de produtos proibidos internacionalmente, tais como chifres de elefante, cornos de rinoceronte e peles de animais protegidos, com o objetivo de efetuar detenções em território namibiano e reforçar estatísticas de apreensões.

Por outro lado, conforme fontes do Imparcial Press, há casos de alegados conflitos laborais que terminaram em processos-crime. Alguns jovens angolanos que atravessam a fronteira de Santa Clara em busca de trabalho, sobretudo na agricultura e na pastorícia, relatam que, após meses de serviço, ao exigirem pagamento, acabam acusados de crimes graves, como violação ou roubo, permanecendo detidos por longos períodos sem julgamento.

Segundo a informação remetida ao Imparcial Press, estes são alguns dos cidadãos angolanos que se encontram detidos naquelas regiões:

  1. Acácio C. A. Avelino – acusado de posse de liamba (desde 2024)
  2. Correia Ngayeta – encontrado com chifre de elefante (desde 2022)
  3. Tchiwavano Tomás Kandongo – encontrado com chifre de elefante (desde 2022)
  4. Armando Kondjeni – encontrado com chifre de elefante (desde 2022)
  5. João Hango Mwesipwsa – encontrado com pangolim (desde 2023)
  6. Fernando Tchisua – acusado de violação (desde 2023)
  7. Arsénio T. Huimengwelai – acusado de violação (desde 2023)
  8. Hélio David Nghilikubu – acusado de violação (desde 2024)
  9. Jery Mónico – acusado de roubo (desde 2022)
  10. Simon Kamati – acusado de violação (desde 2024)
  11. Nilifa Angula – acusado de violação (desde 2022)
  12. Salvador Augusto – acusado de violação (desde 2025)
  13. Venâncio D. Fabiano – acusado de violação (desde 2023)
  14. Razado Clemente – acusado de violação (desde 2025)
  15. Lázaro Vema – acusado de violação (desde 2024)
  16. Malaquias Augusto Dimba – acusado de roubo de gado (desde 2024)
  17. Luís Manuel Lucaba (60 anos) – encontrado com liamba
  18. Matias Tuafeni Ndove – acusado de violação (desde 2024)
  19. Francisco J. Paulo
  20. Sérgio Mulenga
  21. Miguel João Vieira – detido há 8 meses
  22. Pedro Filipe – detido há 13 meses
  23. Frutuoso A. A. Vipanda – detido há 5 meses
  24. Paulo Alberto – detido há 5 meses
  25. Sofremo Sapalo – detido há 9 meses
  26. António Matias – detido há 29 meses
  27. Pedro Sapato – detido há 12 meses
  28. Tangeni Jerónimo – detido há 21 meses
  29. Daniel Tchipa – detido há 6 meses
  30. Narciso Pedro – detido há 6 meses
  31. Paulo Tchatombe – detido há 4 anos
  32. Daniel Victorino – detido há 4 meses

Fontes do Imparcial Press afirmam que vários destes cidadãos permanecem encarcerados há anos sem julgamento, alegando que só são levados a tribunal para confirmar eventual admissão de culpa.

Os familiares dos detidos apelam às autoridades angolanas, nomeadamente ao Ministério das Relações Exteriores e aos serviços consulares, para que intervenham junto do Estado namibiano, no sentido de garantir assistência jurídica, acompanhamento processual e o respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos angolanos detidos.

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