Benguela debaixo de água após colapso do dique do Cavaco
Benguela debaixo de água após colapso do dique do Cavaco
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A província de Benguela vive desde hoje, domingo, um dos mais graves cenários de inundação dos últimos anos, após o rompimento do dique de protecção da margem esquerda do rio Cavaco, que provocou cheias extensas em vários bairros da cidade, destruição de infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias e ameaça deixar a capital provincial sem abastecimento regular de água.

Sem dados oficiais sobre vítimas mortais ou número de desalojados, centenas de famílias foram forçadas a abandonar as suas residências, enquanto outras permaneciam refugiadas em telhados e zonas elevadas à espera de assistência.

Até ao momento, foram reportadas duas mortes de crianças, embora as autoridades ainda não tenham divulgado um balanço oficial actualizado sobre vítimas e desalojados.

Segundo um informe do Governo Provincial de Benguela, enviado à redacção do Imparcial Press, o colapso do dique, localizado no bairro das Bimbas, foi provocado pelas fortes correntes resultantes das chuvas intensas que se registam nos últimos dias.

A ruptura originou um fluxo descontrolado de água que inundou severamente as zonas da Calomanga, Tchipiandalo, Massangarala, Cotel e Santa Teresa, além de extensas áreas agrícolas e fazendas adjacentes.

Moradores descreveram momentos de pânico, com ruas completamente submersas, habitações parcialmente cobertas pelas águas e fuga em massa de famílias em busca de zonas seguras.

Pela primeira vez em muitos anos, segundo testemunhos locais, as águas invadiram igualmente áreas urbanas centrais da cidade de Benguela, fenómeno considerado inédito por residentes antigos.

A gravidade das chuvas estendeu-se para além das zonas residenciais, afectando importantes infra-estruturas públicas e de mobilidade.

A circulação rodoviária entre Benguela e Lobito foi suspensa preventivamente, enquanto decorrem avaliações técnicas à ponte sobre o rio Cavaco, situada na Estrada Nacional 100.

Circulação de comboios suspenda

A ligação ferroviária entre as duas cidades também foi interrompida devido aos danos causados pela água na linha férrea.

O Caminho de Ferro de Benguela (CFB) suspendeu a circulação de comboios nos troços Lobito-Benguela e Lobito-Cubal, em ambos os sentidos, devido aos danos causados pelas fortes chuvas que atingem a região centro do país.

Em nota de imprensa enviada à comunicação social, o CFB explica que a decisão resulta dos estragos provocados pela intempérie na infra-estrutura ferroviária, nomeadamente o arrombamento da plataforma da linha férrea junto à ponte sobre o rio Caimbambo e o desabamento do tabuleiro da ponte sobre o rio Cavaco, na província de Benguela.

Segundo a empresa, equipas técnicas especializadas do consórcio Lobito Atlantic Railway (LAR), responsável pela gestão das infra-estruturas ferroviárias, encontram-se no terreno a avaliar a extensão dos danos e a definir as medidas correctivas necessárias para a reposição da circulação.

Pontes afectadas

Duas pontes localizadas na Estrada Nacional 260 (EN260), na província de Benguela, colapsaram na noite de sábado na sequência das fortes chuvas que se têm registado na região.

Como consequência do desabamento destas infra-estruturas, está interrompida a circulação rodoviária entre as províncias de Benguela e do Huambo, bem como entre vários municípios do interior, como Caimbambo, Cubal, Iambala, Capupa, Ganda e Babaera.

‎A ponte sobre o rio Hâlo, uma das principais estruturas da EN260 e eixo de ligação entre as províncias de Benguela e Huambo, desabou por completo, ficando a circulação automóvel totalmente interrompida.

‎De igual foma, a ponte sobre o rio Hôndio também cedeu, devido ao aumento do caudal, cortando a ligação entre os municípios de Catengue e Caimbambo. Este, por sua vez, encontra-se isolado do resto da província.

‎Sobre o assunto, o governador provincial de Benguela, Manuel Nunes Júnior, referiu que a ponte sobre o rio Hâlo encontrava-se já fragilizada, devido à intensidade de chuvas anteriores.

‎O governante adiantou que está prevista a instalação de uma ponte metálica provisória sobre o rio Hâlo, assim que estejam reunidas as condições técnicas e meteorológicas para o início dos trabalhos, por parte do Instituto Nacional de Estradas de Angola (INEA).

Caimbambo isolado

O município do Caimbambo, a 120 quilómetros da cidade de Benguela, encontra-se isolado das demais localidades da província, após a destruição das pontes sobre os rios Hâlo e Hôndio pelas fortes chuvas que assolam a região. A administradora municipal do Caimbambo, Miraldina Torres Morgado, afirmou que a situação é catastrófica.

Segundo a responsável, os pilares da ponte sobre o rio Hâlo já apresentavam fissuras graves, pelo que a circulação rodoviária entre Benguela e a província do Huambo, via Estrada Nacional EN260, já se encontrava interrompida.

Contudo, com a sua destruição total, neste fim-de-semana, e também da ponte sobre o rio Hôndio, o Caimbambo encontra-se actualmente isolado do Catengue, Cubal, Ganda, Huambo, comunas do Wyangombe e do Cayave, disse.

Miraldina Morgado afirmou ser impossível fazer-se também a travessia pelo rio, devido às fortes correntezas das águas.

“Neste momento, nenhum carro entra ou sai do Caimbambo e vamos começar a ter problemas em termos de abastecimento de bens alimentares, bem como de evacuação de doentes mais graves para o Hospital Geral de Benguela”, referiu.

Apelou à calma dos munícipes, uma vez que, ao nível do Governo Provincial de Benguela e do Executivo central, medidas já estão a ser tomadas para se mitigar a situação no mais curto espaço de tempo.

Sem água potável

Em novo revés para a população, a ponte que suporta a principal conduta de 800 milímetros da Empresa Provincial de Água e Saneamento de Benguela (EPASB) desabou igualmente, comprometendo o sistema de abastecimento que serve grande parte do município.

Com isso, Benguela poderá enfrentar nos próximos dias uma crise de abastecimento de água potável, caso os danos não sejam rapidamente reparados.

O governador provincial de Benguela, Manuel Nunes Júnior, e o comandante provincial de Benguela da Polícia Nacional, comissário Aristófanes dos Santos, foram vistos durante o dia a percorrer zonas afectadas e a avaliar os estragos.

O Governo local apela à população das áreas atingidas para manter “alerta máximo”, evitar zonas inundadas, proteger crianças, idosos e pessoas vulneráveis, e seguir as orientações da Protecção Civil e Bombeiros.

Equipas de emergência encontram-se mobilizadas para operações de evacuação, monitorização de riscos e apoio às famílias afectadas.

Falhas estruturais

A tragédia reacendeu críticas sobre alegada falta de implementação de medidas estruturais recomendadas após as cheias de 2015.

O ex-vice-governador de Benguela para a área técnica, Victor Sardinha Moita, afirmou que relatórios técnicos elaborados após as inundações daquela altura já defendiam intervenções urgentes nas zonas interiores da província para contenção de cheias.

Segundo explicou, essas recomendações incluíam a reabilitação de barragens, represas e bacias de retenção em municípios como Cubal, Chongoroi, Bocoio, Balombo e Ganda, além da regularização dos rios Cavaco, Coporolo e Catumbela.

“O diagnóstico técnico apontava claramente para actuação a montante, mas essas medidas nunca foram devidamente executadas”, afirmou.

Outros técnicos criticaram ainda decisões administrativas relacionadas com a abertura de diques e ocupação urbana de zonas de risco, defendendo uma revisão urgente do ordenamento territorial e do sistema de drenagem da província.

Perante a dimensão da tragédia, o deputado Avelino Canjamba José apelou à intervenção urgente do Presidente da República, defendendo uma resposta nacional imediata para mitigar os efeitos da catástrofe.

Analistas locais alertam que o episódio representa um novo teste à capacidade de resposta das autoridades perante fenómenos extremos, numa altura em que as alterações climáticas e a degradação de infra-estruturas tornam mais frequentes episódios de destruição em várias regiões do país.

O Governo Provincial assegurou que continuará a actualizar a população sobre a evolução da situação e prometeu reforçar as operações de emergência nas próximas horas.

Especialistas defendem inclusão de engenheiros de recursos hídricos

Outrossim, os profissionais do sector apelaram às direcções provinciais e departamentos de recursos humanos da administração pública para a inclusão de licenciados em Engenharia de Recursos Hídricos nos concursos públicos, defendendo que as inundações em Benguela e Luanda expuseram a necessidade de maior especialização técnica na prevenção e gestão de desastres naturais.

O engenheiro Henriques Sambambi defende a valorização destes quadros face ao aumento de episódios de cheias, enchentes e problemas estruturais ligados à drenagem urbana e ordenamento hidráulico no país.

Segundo o especialista, os acontecimentos recentes nas províncias de Benguela e Luanda, onde fortes chuvas provocaram inundações, destruição de infra-estruturas e perturbações no abastecimento de serviços essenciais, demonstram que a gestão dos recursos hídricos “não pode continuar a ser tratada de forma secundária”.

Henriques Sambambi reforça ainda que a Engenharia de Recursos Hídricos é uma área estratégica para responder aos desafios actuais, por abranger competências como planeamento e gestão de bacias hidrográficas, controlo e mitigação de cheias, sistemas de drenagem urbana, aproveitamento sustentável da água, estudos hidrológicos e implementação de infra-estruturas hidráulicas resilientes.

Apesar disso, alerta que o curso continua ausente da maioria dos perfis exigidos nos concursos públicos promovidos por instituições estatais, situação que consideram prejudicial tanto para os profissionais formados como para o próprio Estado.

“Trata-se de uma perda significativa para o país, que deixa de aproveitar especialistas preparados para enfrentar problemas que já são uma realidade crescente em Angola”, refere.

O engenheiro defende, por isso, que os órgãos públicos passem a incluir formalmente esta formação entre os requisitos elegíveis para recrutamento técnico, reconhecendo a sua importância na prevenção de catástrofes e na formulação de políticas de gestão ambiental e territorial.

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