
O antigo padre Católico, Jorge Casimiro Congo, faleceu, aos 71 anos, na madrugada desta quinta-feira, 6, no Hospital Geral Provincial de Cabinda, vítima de doença.
Antigo secretário da Educação, Ciência e Tecnologia de Cabinda, Casimiro Congo era até à data da sua morte Bispo da Igreja Católica Americana em Angola.
Padre Congo, como era conhecido, tornou-se figura central por ter sido o primeiro elemento civil em Cabinda (parte das cidades) a levantar abertamente e em público a discussão sobre a autodeterminação daquela região ao norte do país. Fê-lo num período em que acabava de regressar de Portugal, onde frequentou seminário em Braga.
No consulado do governador José Amaro Tati que durou entre 1995 a 2002, Padre Congo tornou-se voz activa sendo a entidade que criticou abertamente o assassinato de um empresário que fora morto por dois bandidos de aluguer (Tótó e Nascimento), mas que na versão popular atribuía-se aquela morte como sendo do interesse da ala do então responsável máximo da província.
Participou também em 2003, na constituição da Associação Cívica de Cabinda (Mpalabanda) que viria a ser extinta pelo Tribunal em 2005, por alegada subversão à ordem constitucional e atentatória ao estado unitário.
Desde então, o Jorge Padre Congo passou a ser visto como uma ameaça para as autoridades angolanas, sendo diversas vezes perseguido e emboscado pelas forças de segurança por pregar direitos dos leigos. Foi excomungado pelo Vaticano e encabeçou a uma outra congregação, neste caso a Igreja Católica das américas tornando-se seu representante em Cabinda.
Em 2014, denunciou que a polícia havia cercado a sua residência na região de Lândana – município de Cacongo, a pretexto de que teria planeado manifestações.
Seria na governação do general Eugénio César Laborinho que a perseguição contra o padre atenuou. O então governador convidou-o, em 2017, para ocupar a pasta de Secretário Provincial da Educação, Ciência e Inovaçã.
Jorge Casimiro Congo era formado em germânica pela Universidade Urbaniana de Roma – Teologia e Línguas Antigas. Quando regressou do exterior chegou a ser professor do núcleo da Universidade Lusíada no enclave. Tem colaboração em vários projectos educacionais em Portugal tais como a elaboração de uma gramatica em língua portuguesa.
Enquanto responsável da educação no governo de Cesar Laborinho, revolucionou o ensino no enclave. Avançou com reformas no sector e as crianças em algumas escolas passaram pela primeira a vez a usar uniformes com os tecidos africanos a semelhança de países como Quênia e Gana.
Jorge Congo, não ocultava o seu desejo de ver Cabinda como uma região autonomia em pleno. Durante um entrevista a VOA em 2015, revelou que tinha muitos desejos para Cabinda. O último é que os cabindenses deixassem de ter nacionalidade angolana virtual, porque para o padre o povo de Cabinda não tem direitos nem é visto como angolano por quem não é do enclave.
“já tive muitos. Primeiro, fui sempre defensor da independência, depois aceitei sempre uma solução intermédia que fosse boa para ambas as partes e concedesse ao povo de Cabinda uma vida melhor, direitos. Mas agora estou preocupado também que Angola nos dê a nacionalidade. Temos uma nacionalidade virtual. Isto aqui é horrível. Não temos direitos nenhuns. Por exemplo, eu vivo em Lándana, perto de uma campo de futebol e criámos uma equipa chamada Real Lándana, fomos obrigados a acabar com a equipa, fomos perseguidos só porque criámos uma equipa com o nome Real Lándana! Não temos liberdade”, disse.
Questionado onde estava 11 de Novembro de 1975, Jorge Casimiro explicou que “era refugiado na actual República Democrática do Congo – porque senão seria morto. Os meus colegas que estiveram connosco no seminário e foram para as matas pelo MPLA queriam matar-nos porque sabiam que pensávamos diferente. Naquela altura não compreendíamos porque devíamos ser angolanos. Defendíamos a independência de Cabinda.”
Com/Club-K