Capapinha e a crise de representatividade na JMPLA – Rui Kandove
Capapinha e a crise de representatividade na JMPLA – Rui Kandove
JMPLA 12

A política é também e sobretudo feita de símbolos, e poucos são tão reveladores quanto uma “foto de família”. Quando o Presidente João Lourenço posou ao lado de Justino Capapinha antes mesmo do encerramento oficial do congresso da JMPLA, não apenas antecipou o resultado — sinalizou a preferência institucional e, com ela, a fragilização do processo democrático interno. A foto valeu mais do que mil votos.

A imagem, aparentemente banal, tornou-se um marco de exclusão: Adilson Hach, que obteve mais de 38% dos votos, foi invisibilizado. E com ele, uma parte significativa da juventude partidária.

Legalidade ignorada, legitimidade ferida

As contestações jurídicas que se seguiram ao congresso não foram meras reclamações. Eram fundamentadas, articuladas e sustentadas por princípios legais que mereciam consideração. No entanto, o “bureau político” — esse núcleo duro que decide mais nos bastidores do que nos plenários — reuniu-se e calcionou o resultado.

A decisão foi política, não jurídica. Ao ignorar os fundamentos legais, o partido sacrificou a legitimidade em nome da conveniência.

Da promessa ao silêncio

Desde a sua ascensão, Capapinha prometeu renovação, mobilização e protagonismo juvenil. No entanto, o que se vê é um silêncio ensurdecedor.

A JMPLA, que deveria ser voz ativa da juventude angolana, desapareceu do espaço público de opinião. Não há propostas, não há debates, não há presença.

É verdade que Capapinha trouxe, no início, alguma esperança de abertura. Mas a expectativa rapidamente se diluiu diante da ausência de iniciativas. A juventude está órfã de representação, e o partido parece confortável com essa ausência.

Fraude ou fracasso?

Capapinha não é apenas um líder ineficaz — tornou-se o símbolo de uma escolha política que ignorou sinais claros de imaturidade institucional. Chamá-lo de “fraude” é duro, mas compreensível.

Afinal, quando alguém é legitimado por um processo viciado e falha em cumprir suas promessas, o engano não é apenas pessoal — é coletivo.

A JMPLA não está a falhar por acaso. Falha porque está a ser conduzida por alguém que não estava preparado, e porque o partido preferiu a conveniência à competência.

Aliás, salvo raras exceções, a organização tem sido mais incubadora de carreirismo juvenil do que de liderança política e cidadã.

O papel de João Lourenço

Ao legitimar Capapinha, João Lourenço assumiu a responsabilidade política por sua atuação. E essa responsabilidade não pode ser ignorada.

Num momento em que o país clama por renovação, ética e protagonismo juvenil, a escolha de um líder apagado foi um erro estratégico, se olharmos para o rendimento da instituição.

Por outro lado, manter Capapinha pode ainda servir aos interesses do congresso de 2026, onde os equilíbrios internos pesam mais do que a vitalidade juvenil.

Ou seja, nunca esteve em causa a organização como tal, mas os objetivos de determinados grupos. A juventude, porém, não pode continuar a ser tratada como massa de manobra — ela é força crítica, criativa e transformadora.

Caminhos para a reconstrução

A JMPLA precisa urgentemente de:

  • Reabrir os canais de escuta e participação juvenil
  • Reposicionar-se como espaço de formação política e cidadã
  • Promover debates públicos com transparência e pluralidade
  • Rever seus processos internos para garantir legitimidade e representatividade
  • A juventude angolana merece mais do que líderes legitimados por conveniências. Merece vozes que a representem com coragem, competência e visão.
  • E, sobretudo, merece acreditar que a política pode ser feita com seriedade, não apenas com fotografias posadas.

*Jornalista

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