Carlos Kandanda revela acordos ocultos entre dirigentes da UNITA e o MPLA
Carlos Kandanda revela acordos ocultos entre dirigentes da UNITA e o MPLA
Sama e JES

O político e nacionalista Carlos Tiago Kandanda lançou fortes revelações sobre o passado recente da UNITA, ao afirmar que vários dirigentes do partido assinaram, sob pressão, documentos secretos com o MPLA no rescaldo do fim da guerra civil em 2002, compromissos esses que, segundo o autor, “podem colocar em risco a integridade e a soberania da UNITA se não houver cautela e vigilância política”.

As declarações constam do seu mais recente artigo de opinião, intitulado “A virtude da flexibilidade política” onde Carlos Kandanda faz uma leitura crítica do período pós-guerra e da trajectória política da UNITA sob a liderança de Isaías Samakuva, antigo presidente.

O antigo dirigente do maior partido na oposição recorda que, após a morte de Jonas Malheiro Savimbi e do então vice-presidente António Sebastião Dembo, em 2002, a UNITA atravessou “16 anos de submissão e vulnerabilidade política”, marcados por uma estratégia de sobrevivência imposta pelas circunstâncias e pela pressão do regime.

“Foi o próprio presidente Isaías Samakuva quem caracterizou esse período como o de ‘engolir sapos vivos’. A UNITA vivia, então, sob uma condição subalterna e tutelada, tal como havia acontecido após os Acordos de Lusaka, quando surgiu em Luanda a chamada UNITA Renovada, colocada sob a influência directa do regime”, escreve o político.

O texto de Calos Kandanda sugere que, no imediato pós-guerra, vários quadros da UNITA foram forçados a assinar documentos de compromisso com o MPLA, num contexto de fragilidade institucional e medo generalizado. Esses acordos, classificados como “secretos”, teriam garantido a pacificação política formal, mas ao custo da independência ideológica e estratégica da oposição.

“É preciso estudar este período com profundidade, para compreender os seus meandros. Ele revela tanto a vulnerabilidade quanto a flexibilidade dos ideais da UNITA. A Filosofia Política de Jonas Savimbi manteve-se viva, mesmo quando a instituição orgânica do partido estava cativa e subordinada”, defende.

O nacionalista lembra ainda que o regime acreditou ter conquistado o controlo total da UNITA, citando declarações do general Higino Carneiro, que chegou a afirmar publicamente que a direcção da UNITA “era comandada” pelo MPLA e que “foram eles quem colocaram no poder o líder que surgiu após 2002”.

Contudo, o político sustenta que tal percepção foi ilusória. “A liderança do MPLA não percebeu que a alma da UNITA não reside na sua superestrutura, mas na sua doutrina, nos seus ideais e na sua base social militante. A domesticação foi superficial; a essência da UNITA permaneceu intacta.”

Para o autor, a verdadeira força da UNITA permanece nos princípios do Manifesto do Muangai, que define a sua matriz doutrinária e continua a orientar a militância e o projecto de sociedade do partido.

“A UNITA não é uma aristocracia nem uma dinastia étnica. É um partido de massas, baseado na meritocracia, que congrega todas as etnias e estratos sociais. A sua flexibilidade política deve ser entendida como capacidade de adaptação, e não de rendição”, conclui Kandanda.

Até ao momento, a direcção da UNITA não reagiu oficialmente às revelações de Carlos Tiago Kandanda. Contactos feitos pelo Imparcial Press junto de fontes partidárias indicam que o tema “gera desconforto interno”, sobretudo por tocar em acordos históricos ainda envoltos em confidencialidade e suspeitas de cooptação política.

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