
O investigador em segurança e defesa Lando Simão Miguel alertou para o agravamento da ingerência das grandes potências nos assuntos internos de países considerados vulneráveis, defendendo que a modernização das forças armadas se tornou uma prioridade estratégica para a preservação da soberania nacional, num contexto internacional cada vez mais marcado pela “geopolítica da força”.
Lando Miguel, que falava ao Imparcial Press sobre a actual situação na Venezuela, considerou que o país sul-americano ilustra de forma clara uma dinâmica que não é inédita, mas recorrente nas relações internacionais contemporâneas.
Segundo o analista, não é a primeira vez que um Estado soberano vê a sua integridade territorial e política violada sem fundamentos legítimos, nem o seu líder, reconhecido pela ordem constitucional interna, ser alvo de tentativas de deposição a partir do exterior.
De acordo com o investigador, ao longo de 2025, agências de inteligência norte-americanas, como a CIA e o FBI, terão intensificado operações com o objectivo de recolher informações sensíveis sobre a segurança e a defesa da Venezuela.
Essa actuação, segundo referiu, estendeu-se a vários países considerados estratégicos na região, nomeadamente a Colômbia, a Guiana e o Panamá, bem como a diversas ilhas do Caribe, entre as quais Trinidad e Tobago, República Dominicana, Porto Rico, Granada e São Vicente e Granadinas.
Lando Miguel afirmou que, a partir desses pontos, teria sido montada uma ampla rede de vigilância destinada a monitorizar os movimentos políticos e militares venezuelanos, incluindo a intercepção reiterada de comunicações internas.
Na sua análise, esse ambiente de vigilância e ingerência criou as condições que permitiram a operação que resultou na captura do Presidente venezuelano e da sua esposa, Cilia Flores, num episódio que, no seu entender, levanta sérias questões sobre soberania, legalidade internacional e o papel das grandes potências na desestabilização de governos considerados adversários.
O especialista recordou ainda exemplos recentes de intervenções militares lideradas pelos Estados Unidos, com destaque para o Iraque e a Líbia, cujas justificações, afirmou, se revelaram frágeis ou infundadas.
Para Lando Miguel, as consequências dessas intervenções foram devastadoras, resultando em instabilidade prolongada, colapso institucional e graves impactos sociais e humanitários.
Perante este quadro, o investigador defendeu que países com menor peso geopolítico devem investir no reforço das suas capacidades de defesa e dissuasão, não como instrumentos de agressão, mas como garantias mínimas de soberania e protecção contra ingerências externas.
Alertou, por fim, que a Venezuela corre o risco de seguir o mesmo trajecto do Iraque e da Líbia, com destruição interna, exploração sistemática dos recursos naturais e um ciclo prolongado de instabilidade política e social.