
Um cidadão angolano de 44 anos, identificado por Maurício K., morreu a 27 de Outubro, numa esquadra em Saint-Ouen, nos arredores de Paris, França, onde se encontrava sob custódia policial, num caso que levanta dúvidas sobre a actuação dos agentes e as circunstâncias da morte.
O homem, pintor de profissão e residente em França desde os oito anos, foi detido na tarde de segunda-feira, 26 de Outubro, e morreu no dia seguinte, depois de ter sido encontrado inconsciente na cela, por volta das 15:00, segundo informações divulgadas pelas autoridades francesas.
O caso ganhou maior gravidade depois de o Ministério Público de Bobigny ter confirmado que os polícias recorreram à força durante a detenção, incluindo golpes com um bastão telescópico, enquanto a família acusa os agentes de violência e exige o apuramento de responsabilidades.
Segundo a descrição dos factos apresentada pelo Ministério Público, Mauricio K. foi inicialmente interpelado após uma denúncia de insultos de natureza sexista num estabelecimento de restauração rápida.
Durante o transporte para a esquadra, terá voltado a proferir insultos contra uma agente da polícia municipal, tendo sido posteriormente acusado de insultos e ameaças contra agentes de autoridade.
Submetido a um teste de alcoolemia, apresentou uma taxa de 1,37 miligramas de álcool por litro de ar expirado. Durante as operações de revista e segurança na esquadra, os agentes relataram que o homem se mostrou agressivo e tentou atingi-los.
Na versão transmitida pelas autoridades, os polícias começaram por afastá-lo com golpes de mão fechada, nomeadamente na região do ombro, tendo recorrido depois a um bastão telescópico, com golpes na perna esquerda e na região lateral do abdómen, antes de o imobilizarem no chão para concluir a revista.
O homem foi levado ao hospital após a detenção, onde um médico considerou o seu estado compatível com a custódia policial. Na mesma noite, foi observado por um médico das Unidades Médico-Judiciais, que manteve essa avaliação.
Na manhã de terça-feira, foi novamente ouvido e regressou à cela. Horas depois, às 14:58, foi encontrado inconsciente, ainda com pulso perceptível, tendo os agentes iniciado manobras de reanimação. Os bombeiros chegaram às 15:10, mas não conseguiram salvá-lo.
A autópsia, realizada a 28 de Outubro, identificou zonas de infiltração hemorrágica sob a pele do couro cabeludo, nos membros inferiores, incluindo a coxa esquerda, e nos membros superiores, além de lesões associadas às manobras de reanimação.
Apesar dos sinais encontrados, o exame médico-legal não identificou lesões traumáticas que, por si só, expliquem a morte. Foram solicitadas perícias complementares, nomeadamente toxicológicas e anatomopatológicas, para determinar a causa do óbito. As autoridades indicaram ainda que a vítima apresentava antecedentes cardíacos.
O pai de Mauricio K. apresentou uma queixa por violência voluntária que tenha provocado a morte sem intenção de a causar, imputada a agentes depositários de autoridade pública.
A família é representada pelo advogado Yassine Bouzrou, que considera que os elementos médicos e as informações sobre o recurso à força reforçam a necessidade de investigar a actuação policial.
O advogado contestou a divulgação inicial do caso, considerando que a referência a uma possível causa cardíaca não esclarecia suficientemente as circunstâncias da morte, e pediu que os agentes envolvidos sejam responsabilizados e prestem esclarecimentos perante a Justiça.
Na quinta-feira, 29 de Outubro, o Ministério Público anunciou que a investigação, inicialmente confiada à Inspecção-Geral da Polícia Nacional (IGPN), foi entregue a um juiz de instrução, para apurar as causas da morte.
A abertura da investigação judicial representa um passo no esclarecimento do caso, mas não constitui, por si só, uma conclusão sobre a existência de crime ou a responsabilidade individual dos agentes.
A morte de Mauricio K. volta a colocar sob escrutínio a actuação policial em França, particularmente a utilização da força sobre pessoas detidas e a responsabilidade das autoridades pela integridade física de quem se encontra sob sua custódia.
O caso suscita igualmente questões sobre os mecanismos de transparência e controlo quando uma pessoa morre numa esquadra, sobretudo perante versões que exigem apuramento independente e conclusões médico-legais definitivas.