
As relações diplomáticas entre Angola e o Japão completam, este ano, cinquenta anos de existência, um marco histórico que simboliza não apenas a aproximação entre os dois Estados soberanos, mas também a consolidação de uma cooperação baseada em interesses estratégicos, solidariedade internacional e desenvolvimento económico.
A história regista que as relações bilaterais entre os dois países foram oficialmente estabelecidas em 1976, apenas um ano após a Independência de Angola.
Naquele contexto, Angola emergia como um novo actor do sistema internacional, após uma longa Luta de Libertação Nacional, procurando afirmar a sua soberania num cenário internacional marcado pela bipolaridade da Guerra Fria.
O reconhecimento internacional e o estabelecimento de relações diplomáticas constituíam, por isso, prioridades centrais da política externa angolana.
Por outro lado, o Japão já se afirmava, no final da década de 1970, como a segunda maior economia mundial, resultado do seu impressionante processo de industrialização e modernização tecnológica no pós-Segunda Guerra Mundial.
Assim, o início das relações entre Angola e o Japão representava uma oportunidade estratégica para Angola, sobretudo num período em que o país necessitava de apoio externo para reconstrução, desenvolvimento económico e inserção internacional.
Embora a relação diplomática tenha sido estabelecida em 1976, a assistência concreta do Japão a Angola começou a ganhar maior expressão em 1988, através de acções humanitárias desenvolvidas em parceria com o UNICEF.
Esta cooperação viria posteriormente a expandir-se para diferentes áreas sociais e humanitárias em conjunto com diversas organizações, demonstrando o compromisso japonês com a estabilidade e o desenvolvimento do Estado angolano.
Entre as iniciativas mais relevantes destaca-se o apoio do Japão ao processo de desminagem em Angola, iniciado em 1998, num período em que o país ainda enfrentava os efeitos devastadores da guerra civil.
Estima-se que o Governo japonês tenha financiado mais de 40 projectos de desminagem, num montante aproximado de 28 milhões de dólares.
Esta contribuição foi determinante para a segurança das populações, recuperação de terras agrícolas e reconstrução de infra-estruturas essenciais ao desenvolvimento nacional.
O ano de 2005 representou outro momento decisivo nas relações bilaterais, com a abertura da representação diplomática do Japão em Angola. Este passo permitiu dinamizar a cooperação política, económica e técnica entre os dois países, criar melhores condições para o investimento privado e o fortalecimento das parcerias institucionais.
A cooperação público-privada no sector das infra-estruturas, como o recente desenvolvimento de infra-estrutura no Porto do Namibe, constitui uma das mais importantes alcançadas que simbolizam as boas relações entre Angola e o Japão.
Actualmente, a cooperação entre Angola e o Japão abrange áreas estratégicas como Agricultura, Pescas, Agropecuária, Formação Técnica, Saúde, Segurança Humana e Desenvolvimento Comunitário.
Os dados da cooperação acumulada até 2023 demonstram a profundidade destas relações: os empréstimos japoneses a Angola rondavam aproximadamente 157,6 milhões de dólares, enquanto as doações ultrapassavam 290,6 milhões de dólares. Já no domínio da cooperação técnica, os apoios situavam-se em cerca de 60 milhões de dólares.
Todavia, ao completar cinquenta anos de relações diplomáticas, importa questionar até que ponto o potencial desta parceria foi plenamente explorado.
O Japão possui uma das mais avançadas capacidades tecnológicas e industriais do mundo, enquanto Angola dispõe de vastos recursos naturais, minerais estratégicos, terras aráveis e uma posição geoeconómica relevante no continente africano. Existe, portanto, uma complementaridade evidente entre as economias dos dois países.
Neste sentido, a diplomacia económica angolana deve aproveitar esta efeméride para aprofundar as relações de cooperação em sectores estruturantes como Indústria Transformadora, energias renováveis, inovação tecnológica, mineração, infra-estruturas, economia azul e formação de capital humano.
Seria igualmente estratégico que Angola procurasse atrair maior investimento directo japonês, particularmente na indústria automóvel, criando condições para a instalação de linhas de montagem de empresas japonesas como a Toyota, o que contribuiria significativamente para a diversificação da economia nacional, geração de empregos e transferência de tecnologia.
Mais do que celebrar cinquenta anos de relações diplomáticas, Angola e o Japão devem transformar esta data num ponto de partida para uma parceria mais moderna, estratégica e orientada para o desenvolvimento sustentável e a prosperidade mútua.
*Professor de Relações Internacionais e mestre em Gestão e Governação Pública, na especialidade de Políticas Públicas