
Os ataques que vemos suceder nos últimos tempos – em Gaza e no Líbano – são resultados da combinação entre a acção e omissão dos diversos actores no concerto das nações.
Por um lado, o Irão busca afirmar-se como uma potência regional no Médio Oriente, usando uma combinação de alianças estratégicas, apoio a grupos paramilitares e diplomacia, em países como a Síria, Iraque e Líbano, no apoio ao Hezzbollah.
O Irão usa essas alianças para criar uma rede de influência que vai desde o Golfo Pérsico até o Mediterrâneo, o que muitos chamam de “arco xiita”.
O conflito sectário entre xiitas e sunitas também define o papel do Irão. A rivalidade entre Irão e Arábia Saudita é um dos conflitos centrais que moldam a política no Médio Oriente. Ambos os países competem por influência política, religiosa e militar. Essa competição se reflecte em conflitos indirectos, ou “guerras por procuração”, como na Síria e no Iémen, onde os dois países apoiam lados opostos.
Aliás, o Irão tem uma postura fortemente anti-Israel e apoia grupos militantes como o Hamas e a Jihad Islâmica, na Palestina. Isso reflecte o seu desejo de se apresentar como o principal defensor da causa palestiniana, em oposição aos países árabes que têm laços com Israel.
O Irão usa uma estratégia de “guerra por procuração”, fornecendo apoio financeiro, armas e treinamento a diversos grupos militantes em toda a região. Isso inclui o Hezzbollah no Líbano, milícias xiitas no Iraque, os houthis no Iémen, e grupos palestinianos em Gaza.
Por seu turno, Israel e os EUA têm, nos ataques ao Hamas e ao Hezzbollah, a fórmula para garantir a segurança nacional e enfraquecer a capacidade militar desses grupos, que são considerados organizações terroristas por ambos os países.
Para Israel, o objectivo principal é a neutralização da ameaça directa que o Hamas (em Gaza) e o Hezzbollah (no Líbano) representam e busca desmantelar a infra-estrutura militar do Hamas e do Hezbollah, como túneis, depósitos de armas e instalações de comando, para reduzir a capacidade operativa desses grupos e, por via disso, estabelecer uma política de dissuasão, enviando a mensagem de que qualquer ataque contra o seu território será respondido com força.
Por outro lado, para os EUA, o Hamas e o Hezzbollah (vistos como proxies iranianos) são designados como organizações terroristas.
Apoiar Israel em operações contra esses grupos se alinha com sua política de combater o terrorismo global e conter o apoio do Irão a grupos militantes na região, visto que o Irão fornece financiamento e armamento ao Hezzbollah e, em menor escala, ao Hamas.
Ao minar a capacidade desses grupos de realizar ataques e manter a pressão militar, Israel e os EUA procuram reduzir o impacto dessas organizações e limitar o seu poder operacional e estratégico.
Entretanto, se por um lado Israel não declare abertamente o desejo de uma mudança de regime no Irão, há evidências de que as suas operações clandestinas, como ataques cibernéticos e assassinatos de cientistas nucleares, visam enfraquecer o regime, por outro, a política dos EUA em relação à mudança de regime no Irão oscilou ao longo dos anos.
Embora a mudança de regime no Irão não seja uma meta declarada de ambos os países, uma mudança política em Teerão, especialmente uma que resulte em um Governo menos hostil seria vista como uma vantagem estratégica e significativa para ambos.
Finalmente, neste conflito, a Rússia e China têm adoptado uma posição mais neutra em comparação com os Estados Unidos e outras potências ocidentais, embora cada uma siga sua própria estratégia.
Historicamente, a Rússia tem desempenhado um papel activo no Oriente Médio, mas de forma pragmática e flexível, buscando equilíbrio entre várias potências regionais, mantendo, actualmente, boas relações tanto com Israel quanto com os palestinos, além de ter alianças com o Irão e envolvimento na guerra civil síria.
A China, por sua vez, tem interesse em garantir estabilidade no Oriente Médio para proteger as suas rotas energéticas e projectos comerciais, como a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), mantendo relações cordiais com Israel, mas também apoia a causa palestiniana.
Portanto, enquanto o Hezzbollah e o Hamas desesperam pelo tigre de papel em que se tornou o Irão, este vê a Rússia e a China a assobiarem ao lado, quando o mundo testemunha tamanha destruição no Médio Oriente.
E para piorar, se Trump ganhar as eleições em Novembro, bye bye regime iraniano e aí será o “viva Bibi Netanyahu”!
*Jurista