Dignidade do angolano em causa – Arlindo Sicato
Dignidade do angolano em causa – Arlindo Sicato
Arlindo Sicato

É necessário que se veja a dignidade do homem, sobretudo daqueles que contribuíram para que o país esteja onde está hoje. As pensões de reforma não permitem suprir as necessidades básicas. Ou aquelas que permitem uma poupança para que o pensionista consiga ter uma actividade económica que lhe permita ficar autónomo e poder exercitar as suas capacidades que ainda possui, produzindo bens e serviços e, assim, sem tanta dependência.

Temos generais, comissários de polícia e até mesmo governantes que andam a pé, e sem nenhuma contrapartida do Estado que reconheça o seu esforço por terem-se batido duramente pela pátria.

Por outro lado, os nossos bancos têm que exercer uma política creditícia que vai permitir que não haja a ideia do imediatismo. O banco empresta o dinheiro para financiar um determinado projecto e logo a seguir quer o dinheiro de volta. Isso não é correcto, sobretudo, para um pensionista. Querer recupera go de seguida o seu dinheiro sem folga para quem pretende investir em determinada área não é boa ciência.

É preciso olhar para as variáveis que vão dar uma folga do investimento e do retorno do capital ao banco. Aliás, muitos projectos ficam ultrapassados por conta da inflação.

Num pais como o nosso onde temos a inflação muito elevada, muitos projectos acabam por estagnar. Por exemplo, um crédito de um milhão de kwanzas, quando se chega na fase de implementação, do projecto, por causa da inflação, já necessitará de um capital de dois milhões de kwanzas. Assim, o investidor fica endividado porque depois não conseguem ressarcir o banco.

É necessário que os políticos e o Governo prestem atenção, porque o povo não deve ficar desanimado e manifestar-se no contexto eleitoral. Ou seja, isso contribui para a frustração do povo por altura da votação eleitoral, preferindo muitos ficar em casa a escolher os seus dirigentes. Ou ir votar em branco.

No país temos falado de muitas coisas. Por exemplo, do fomento ao turismo. Está bem, o turismo pode ser implementado, mas as vias são deficientes e os preços estão muito elevados. O salário todo fica ‘engolido’ sem capacidade de compra. Fica na acomodação de duas noites e não sobra mais nada.

Desta forma teremos sempre os pontos turísticos às moscas. O estrangeiro consegue desfrutar, porque traz dólares. O nacional com os seus 200 mil kwanzas, que é o salário de médica classe, nada consegue fazer.

Uma dormida a 20 mil kwanzas, mais os encargos de alimentação e transporte, não sobra nada, ou paga a dormida e fica à fome. Os encargos de saúde também são elevados. Os serviços de justiça melhoraram bastante.

As leis são boas para defender o cidadão angolano, mas muitas vezes ficamos surpreendidos, em que o cidadão comete, viola a lei é detido, mas no dia seguinte está fora e ainda é capaz de gabar-se. Então, para aqueles que não têm recursos, contactar um advogado é uma perda de tempo.

É preciso rever estas acções de indivíduos que cometem e no dia seguinte estão fora da prisão. Como é que são soltos não sabemos. Isso é complicado porque a vida em si é complicada.

Refiro-me ao roubo por parte dos amigos do alheio, ou mesmo do erário que depois afecta milhões de angolanos. E a reposição é complicada. Muitas vezes o Estado fica tão lesado, que os números não aparecem por ficarem no bolso de algum ‘chico esperto’.

Há orçamento e não há disponibilidade. Deste modo, os orçamentos e a recuperação económica, ficam apenas em papel. Se o orçamento é uma lei as iniciativas não devem ficar ofuscadas. Tem de haver disponibilização de recursos para que os projectos sejam iniciados e depois, materializados.

Há muita produção por aí, o Estado investe-se, mas depois os projectos ficam a meio por falta de fiscalização e controlo. Falta complementaridade. Há produção e depois não há transporte.

Tem transporte, não há acesso. E aqueles que estão no sector industrial lutam com o dólar e o euro para importarem as matérias-primas porque não há divisas e depois temos os monopólios que vêm dificultando ainda mais as coisas. Se não tivermos sentido patriótico vamos penalizar mais as pessoas.

Temos visto que os estrangeiros chegam aqui prosperam, chegam dos seus países onde o dinheiro é barato (2% a 5 % de juros) e aplicam aqui e prosperam, nós andamos às voltas com juros muito elevados, na ordem de 30 por cento, o que é mesmo impraticável.

*Economista e ex-vice ministro das Finanças

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