Disparidade salarial no Girabola: Treinadores nacionais recebem menos de 5 milhões, enquanto estrangeiros ganham 21 milhões de kwanzas
Disparidade salarial no Girabola: Treinadores nacionais recebem menos de 5 milhões, enquanto estrangeiros ganham 21 milhões de kwanzas
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A disparidade salarial entre treinadores nacionais e estrangeiros no Girabola, Campeonato Nacional de futebol, cuja primeira edição arrancou em 1979, é uma realidade. Mas, este assunto não é abertamente debatido por treinadores, dirigentes e outras organizações profissionais encarregadas de defender, por actividade de ramo, os técnicos.

O jornal O País contactou dirigentes, treinadores e agentes desportivos, mesmo assim recusaram-se a falar sobre o assunto, porque não eram as pessoas indicadas.

Perante o assunto, sem desprimor aos treinadores estrangeiros, muitos profissionais angolanos alegam que tem havido uma ou muita desvalorização por parte de quem contrata.

Antes, alegava-se falta de formação e de nível, porém, nos dias que correm, há técnicos angolanos com créditos firmados e em equipas do topo ou do meio da tabela a ganharem salários irrisórios.

Por conta disto, antigos praticantes e estudantes de Educação Física e Desporto escusam se em abraçar a carreira de treinador, seja em que modalidade for, por causa das condições em que são submetidos muitas vezes.

Esses estudantes ou antigos praticantes preferem, muitas vezes, sair do mundo do treinamento e encontrarem outras formas de ganhar o pão no país, porque a valorização tem sido mediana.

É ponto assente que a saúde financeira nacional não tem sido das melhores, mas os entrevistados deste jornal, que solicitaram anonimato, disseram que, num passado recente, também não se pagava muito, as condições financeiras em relação ao dólar eram melhores e davam para fazer alguma coisa.

Actualmente, o que se paga em muitos treinadores fica longe da realidade anterior e o que os profissionais pedem aos dirigentes, pela qualificação e outras valências, eles alegam que há, logo quem contrata reconhece o perfil do técnico em questão.

Salário de técnicos nacionais abaixo de cinco milhões de kwanzas

Nos dias que correm, o salário de técnicos nacionais, numa equipa do topo ou do meio da tabela no Girabola, está abaixo dos cinco milhões de kwanzas, segundo fontes deste jornal.

Treinadores de futebol, que pediram anonimato, disseram que não tem sido fácil negociar com os clubes, porque os dirigentes alegam falta de condições financeiras para o efeito.

Na discussão contratual, normalmente os técnicos angolanos são colocados entre a espada e a parede e como não têm espaço de manobra acabam aceitando as propostas.

Em muitos casos, alegam os profissionais que pediram anonimato, surgem atrasos e não dá para chocar com o dirigente ou falar em público sob pena de se perder o emprego.

Assim, alegam que muitas vezes tem havido liquidez, mas o dirigente prefere fechar-se em copas e dizer que não condições para se pagar mais ou acima de cinco milhões de kwanzas.

Para se inverter o quadro, alguns treinadores, em razão da situação financeira que assola o país, disseram que o órgão que os liga, a Associação de Treinadores de Futebol de Angola (ATEFA), deve ser mais unida.

O grupo, que solicitou anonimato, frisou que os próximos desafios da ATEFA deve ancorar-se nas condições salariais dos treinadores, tendo como escopo um ponto de partida geral.

Nos últimos tempos, a qualidade que se exige vai surgindo com formações CAF e FIFA e logo não há razões para se dizer que os técnicos angolanos continuem abaixo de salários tidos como míseros para o esforço que se faz.

Tecto máximo do ordenado de um estrangeiro ronda os 21 milhões de kwanzas

O tecto máximo salarial de um treinador estrangeiro, incluindo o seu adjunto, ronda os 21 milhões de kwanzas mensalmente. Isto não só desmoraliza os angolanos, assim como os deixa numa posição de instabilidade psicológica, porque muitas vezes não trazem coisas novas à modalidade.

As fontes deste jornal alegam que muitas vezes são contratos para justificar saídas volumosas de valores para fins inconfessos em detrimento de técnicos nacionais.

Depois do contrato, para um treinador estrangeiro, as regalias surgem e tudo corre de vento em popa, mas para o estrangeiro nada acontece e pede sacrifícios piores que dar a volta à terra.

Miller Gomes diz que os treinadores estrangeiros ganham mais por terem mais qualificação profissional

O antigo treinador do Petro de Luanda, Miller Gomes, considerou normal haver disparidade salarial entre técnicos nacionais e estrangeiros devido à vantagem e domínio da qualificação profissional.

Instado a justificar o seu ponto de vista, o antigo internacional pelos Palancas Negras fez questão de destacar a este jornal que os expatriados levam a melhor por disporem de mais experiência e outros níveis exigidos.

Além disso, Miller Gomes referiu que os estrangeiros ganham mais e melhor por uma questão de reconhecimento. O então craque da extinta Rangol de Luanda salientou mesmo que tal situação não deve constituir motivo de preocupação tendo explicado que acontece em toda a parte do mundo.

“Penso que é normal que haja essa disparidade. Os estrangeiros ganham mais em relação aos nacionais, porque têm mais qualificação. Isso acontece em qualquer parte do mundo. O salário que o treinador do FC Porto aufere não é o mesmo que o do Desportivo de Chaves recebe. Também é uma questão contextual”, disse Miller Gomes.

Mais nacionais do que estrangeiros com ordenados baixos

Apesar da crise financeira que assola o país, o Campeonato Nacional de futebol conta com mais treinadores nacionais do que estrangeiros, mas alegam que são mal pagos e não valorizados. Dos 15 técnicos que escreveram o seu nome no Girabola ora terminado, 12 são nacionais e três são estrangeiros.

Alexandre Santos, do Petro de Luanda, (Portugal), Maurílio Silva, do Desportivo da Lunda-Sul (Brasil), e Paulo Torres, do Desportivo da Huíla (Portugal), são os que trabalham para o Campeonato Nacional.

Ainda assim, Filipe Nzanza, do 1.º de Agosto, Roque Sapiri, do Sagrada Esperança da LundaNorte, Zeca Amaral, do Kabuscorp, Paulino Júnior, do Wiliete, Mateus Bodunha, do Interclube, Mário Soares, do Bravos do Maquis, Finda Mozer, do São Salvador do Zaire, João Pintar, da Académica do Lobito, Nzuzi Ngemba, do Santa Rita de Cássia do Uíge, Luís Quintas, do Libolo do Cuanza-Sul, Manuel Maradona, do Sporting de Cabinda, e Manuel Bula, do União de Malanje, são os profissionais que, com muitas ou poucas dificuldades, asseguraram o Girabola 2024.

Finda Mozer adianta que não se valoriza a prata da casa

O timoneiro do São Salvador de Mbanza Congo mostrou-se insatisfeito com a disparidade salarial que há entre nacionais e estrangeiros no Campeonato Nacional de futebol da primeira divisão, Girabola. Finda Mozer apontou que os angolanos ganham menos em relação aos expatriados devido à falta de valorização.

O treinador salientou mesmo que, na prova nacional de futebol, há treinadores a auferirem abaixo de um milhão de kwanzas.

Finda Mozer entende que deveria haver uma legislação que determinasse os níveis salariais para treinadores nacionais e estrangeiros.

“Há essa diferença abismal em termos salariais porque não valorizamos a prata da casa. Os nossos clubes priorizam os estrangeiros. É necessário reverter o quadro. Deveria haver regras claras e justas em relação aos salários desses profissionais para garantir a verdade desportiva”, revelou Finda Mozer.

Há treinadores angolanos que não ganham mal

O membro do Comité Olímpico Angolano (COA), Mário Rosa de Almeida, afirmou a este jornal que boa parte dos treinadores estrangeiros ganham mais em relação aos nacionais porque detêm vantagem no domínio da qualificação profissional.

O dirigente considerou que factores como experiência em ligas mais competitivas e histórico de sucesso em grandes competições servem de justificativa para salários mais elevados aos expatriados. Explicou que a disparidade de competências é um dos factores que contribuem para as discrepâncias salariais.

No entanto, Mário Rosa De Almeida admitiu que a maioria dos treinadores angolanos aufere salários dignos de registo. “Penso que se trata de disparidades de competências, mas há treinadores angolanos que não ganham mal”, revelou Mário Rosa.

in O País

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