É urgente democratizar o espaço público – Ismael Mateus
É urgente democratizar o espaço público - Ismael Mateus
Ismael

Foi lançado esta semana o disco “Sementes” de MCK. De nome próprio Katrogi Lwamba, o músico, activista e advogado MCK, nascido em Luanda há 42 anos, é um rapper conhecido pelas suas letras de áspera critica contra o poder político, corrupção e situação social dos angolanos.

A nova obra de MCK não foge ao seu estilo incisivo, algo corrosivo, mas inteligente, erguendo a sua voz contra a corrupção, a concentração de poderes e má distribuição de oportunidades num país que se diz rico.

MCK, como tantos outros jovens com essa sensibilidade, é uma voz que deveria ser mais ouvida. Tão ouvida como qualquer outra que defenda outras ideias e outros argumentos.

O nosso espaço público deveria pode proporcionar aos angolanos a oportunidade de ouvir, dialogar e buscar pontos de convergência entre todas as sensibilidades, incluindo as mais radicais, que se apresentem. É a ausência destas sensibilidades no espaço publico que faz com que muitos jovens se sintam marginados ou eles próprios se marginalizem.

O facto indesmentível é que apesar o aumento do número de rádios, televisões e jornais não trouxe consigo mais presença de outras vozes referidas comummente como representativas dos “sem voz” e dos inconformados com a situação económico-social.

Existe uma comunidade de críticos e contestatários que não é chamada a intervir no espaço público central do prime time das rádios e televisões e é atirada para “guetos comunicacionais” à margem da chamada mídia tradicional.

Não se trata obviamente de concordar ou não com elas. Alias muitas das ideias que defendem ou que criticam decorre exactamente dessa falta de diálogo e da sua condição de “marginais”, a que se remeteram ou foram empurrados.

Aos 49 anos de idade, o nosso país já deveria ter maturidade para não ter gente “proibida” de falar em certos meios, sobretudo no serviço público de comunicação. Este é um patamar da reconciliação nacional que precisamos de atingir rapidamente.

Da mesma forma que os políticos e os militares que se combatiam nas trincheiras hoje partilham o Parlamento, o espaço público tem de reflectir a diversidade de pensamento da sociedade, quando por todo o lado encontramos jovens que se queixam da falta de oportunidades, da situação social e da governação do país.

Precisamos de iniciar urgentemente a implementação de uma democratização do espaço público, através da aceitação, incorporação e inclusão das “vozes marginais”, sobretudo as mais representativas. São essas vozes que promovem o diálogo público sobre as decisões que afectam a vida da população local e responsabilizam publicamente os governos e formuladores de políticas. Não há como não as ouvir de forma sistematizada como parte de um diálogo necessário entre governados e governantes.

É do debate, da troca de ideias entre as diferentes sensibilidades da sociedade que teremos um crescimento mais saudável e sem que jovens sedimentem a sua personalidade como “párias” na sua própria terra, ou impedidos de exprimir livremente as suas ideias, como os restantes cidadãos.

Hoje é amplamente reconhecido que a opinião crítica leva a uma exposição de pontos fracos e dos erros da governação e isso acelera não só a resposta dos governantes, mas também a consciência crítica dos cidadãos votantes.

Uma sociedade civil apartidária ajuda as instituições públicas a se tornarem mais transparentes, responsáveis e inclusivas nos seus processos de tomada de decisão, serviços e projectos. A boa governação não é possível sem esse envolvimento com consciência crítica, com activismo cívico e visão suprapartidária.

Com o uso das novas tecnologias, com os telefones celulares, Mídias sociais e plataformas mediadas pela internet, tornou-se muito mais fácil identificar essas lideranças dos “sem voz”, mas também ter a percepção e dimensão do impacto das suas iniciativas.

No outro extremo, usa-se o argumento de que essas vozes estão ao serviço de uma agenda político partidária. Infelizmente o facto de alguns membros da sociedade civil se terem convertido em militantes e até deputados da oposição, não ajuda a afirmação da independência da sociedade civil.

Nos dias de hoje, os discursos de figuras da sociedade civil, mesmo aquelas que eram referencia de uma certa independência de pensamento, facilmente se confunde com as ideias da oposição.

O namoro entre a sociedade civil e a oposição acentuou-se muito com a liderança de Adalberto Costa Júnior cuja estratégia é exactamente a de criação de uma grande frente unida contra o MPLA, incluindo a sociedade civil.

Ora, é exactamente esse namoro e alguns casamentos conhecidos e não conhecidos, que alimentam a narrativa de que não se trata de uma abordagem genuína da sociedade civil, mas, antes, nuances da agenda político-partidária de fins eleitoralistas.

A partidarização das acções dos organismos e das vozes representativas da sociedade faz com que os apelos à moderação, as críticas e ate o diálogo com a governação perca eco e capacidade de influência.

Mesmo que seja apenas um pretexto, os exemplos do “casamento” existem e isso fragiliza a sociedade civil e a actuação de certas figuras tidas como representativas das comunidades, facilmente são vistas como um artificio usando a capa da sociedade civil como mero trampolim para o Parlamento e/ou lugar nas lideranças partidárias.

Seja como for, para aprofundamento da nossa democracia precisamos de um espaço público (sobretudo o serviço publico) mais democrático, sem vozes “malditas”, sem filhos bastardos da sociedade, sem marginalizados. Infelizmente vivemos uma situação de ausência total de contraditório e debate.

Mesmo nos casos em que pretensamente se faz debate, a escolha dos intervenientes evidencia uma acção manipuladora que instrumentaliza uma vantagem discursiva sobre outra, de acordo com os interesses editoriais do órgão.

É a aparência de debate, mas é na verdade manipulação. Falta ao nosso espaço público um contraditório verdadeiramente divergente e equilibrado que se faça salutar para a democracia e para a boa governação.

*Jornalista e escritor

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