Edgar Lungu e a rara dignidade de saber sair – Sousa Jamba
Edgar Lungu e a rara dignidade de saber sair - Sousa Jamba
Edgar Lungu

Edgar Chagwa Lungu (11 de Novembro de 1956 – 5 de Junho de 2025) foi muito mais do que o sexto Presidente da Zâmbia. Foi advogado, político, homem de fé e, no fim da sua vida, símbolo de uma virtude cada vez mais escassa na política africana: a capacidade de aceitar a derrota e sair com dignidade.

Lungu faleceu aos 68 anos, na África do Sul, após complicações resultantes de uma cirurgia. Natural de Ndola, licenciou-se em Direito pela Universidade da Zâmbia em 1981.

Começou a carreira num escritório de advogados em Lusaka, mas viu a sua licença suspensa em 2010, após um processo disciplinar. Isso não o impediu de se reinventar na política.

Ingressou primeiro no Partido Unido para o Desenvolvimento Nacional (UPND), sob a liderança de Anderson Mazoka, mas acabou por se filiar no Partido da Frente Patriótica (PF), liderado por Michael Sata.

Após a vitória do PF em 2011, ocupou várias pastas ministeriais: Justiça, Defesa e Administração Interna. Assumiu interinamente a presidência durante a doença terminal de Sata.

Em 2015, foi eleito Presidente após vencer por pequena margem o seu rival de sempre, Hakainde Hichilema. Em 2016, seria reeleito, em eleições novamente muito disputadas.

Durante o seu mandato, Lungu foi elogiado por reforçar a presença diplomática da Zâmbia e nomear Inonge Wina como a primeira mulher no país ao cargo de Vice-Presidente.

Promoveu programas de unidade nacional e diversificação económica, mas enfrentou também críticas pelo endurecimento da repressão política e limitações à liberdade de expressão.

Contudo, foi fora do cargo que realizou o seu gesto mais notável. Em 2021, após perder de forma expressiva para Hichilema, Lungu reconheceu a derrota e telefonou ao vencedor para o felicitar.

Num continente onde a alternância no poder ainda é frequentemente contestada por meios judiciais ou militares, este simples acto foi profundamente simbólico. Não houve negação, nem impugnações. Apenas uma chamada, uma despedida.

Lungu inscreveu-se assim numa tradição zambiana pouco notada, mas exemplar. Kenneth Kaunda aceitou a derrota em 1991. Em 2011, quando Michael Sata venceu as eleições, a então presidente da Comissão Eleitoral, juíza Irene Mambilima, terá ameaçado demitir-se caso o presidente cessante, Rupiah Banda, não reconhecesse os resultados. Banda cedeu. E Lungu, apesar das tensões iniciais, também soube sair.

É verdade que a Zâmbia não está imune às tentações do poder. Tentativas de alargar mandatos e manipular a Constituição não são estranhas ao seu percurso recente. Mas a diferença está na força das instituições: tribunais independentes, uma sociedade civil vigilante e, sobretudo, uma cultura política em que o Direito tem peso real.

Parte dessa resiliência institucional assenta numa elite jurídica rigorosamente formada. Lungu era advogado, e tornar-se advogado na Zâmbia é uma prova de fogo.

O exame nacional (Legal Practitioners’ Qualifying Examination), administrado pelo Instituto Zambiano de Educação Jurídica Avançada (ZIALE), tem uma das taxas de aprovação mais baixas do continente.

Em 2020/2021, apenas 1 em 395 candidatos passou à primeira tentativa. A maioria dos advogados é admitido após vários exames de repetição, com taxas de aprovação em torno de 30 por cento.

Esta exigência académica molda um ethos nacional na qual a legalidade não é apenas retórica. É cultura. E essa cultura ajudou a Zâmbia a consolidar um padrão de transições pacíficas que merece ser celebrado.

Lungu tentou regressar à política, num movimento controverso, impedido pelos tribunais. Mas esse episódio não apagará a imagem do homem que, em 2021, escolheu a paz e o recuo quando podia ter optado pela confrontação.

Deixa seis filhos, a esposa Esther Lungu, e um legado que transcende a política: o de alguém que subiu com esforço e desceu com honra. Num continente onde os Chefes de Estado, muitas vezes, confundem poder com destino, Edgar Lungu demonstrou que a grandeza pode, por vezes, residir no gesto mais simples: o de saber sair.

*Jornalista e escritor

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