Em tempo de paz, falemos do “menino Mateus” à perigosa e silenciosa desmatação – Adebayo Vunge
Em tempo de paz, falemos do “menino Mateus” à perigosa e silenciosa desmatação - Adebayo Vunge
Adebayo Vunge

Há entre nós uma tendência de apropriação cultural dos valores ocidentais que ocorre com assustadora facilidade mediante uma desvalorização dos nossos próprios valores e os elementos da nossa identidade cultural, que nos deveriam vangloriar na medida em que são estes que nos tornam distintos, por exemplo, dos zambianos, chineses, peruanos ou italianos.

E um dos valores da nossa identidade cultural está relacionado ao respeito que devemos ter para com os mais velhos na medida em que estes são necessariamente uma extensão dos nossos pais. E isso é tanto assim quanto maior é também a consanguinidade.

Por isso, não estranha que entre nós haja o conceito de mãe grande, para nos referirmos, por exemplo, a uma irmã mais velha da nossa própria mãe, do vizinho que se torna tio, entre outros.

Deste modo, ficamos todos boquiabertos com a atitude do “menino Mateus”, cujo vídeo viralizou nas redes sociais, levantando um coro de contestação e estupefação por tamanha malcriadez. E à nossa bela maneira, surgiram memes para todos os gostos, mas deixa acima de tudo evidente o quanto as crianças precisam de acompanhamento, de exemplos e da presença permanente dos seus educadores (mesmo que não os pais) para as orientar sobre a forma como devem lidar com as situações do quotidiano.

Não aceito, assim, o argumento segundo o qual é assim que as crianças portuguesas (ou lá em Portugal) se comportam, deixando claro o quanto o “nosso” menino Mateus, provavelmente luso-angolano, perdeu a noção, ou nunca teve porque não o transmitiram, dos limites.

Se essa questão nem sequer tem nacionalidade, encaro com preocupação o facto de, na nossa sociedade, os Pais estarem num processo de perda de autoridade, de referência e orgulho para os filhos, notando-se hoje em muitos lares uma ausência (não apenas física) mas no sentido de participarem de forma plena na educação dos meninos e meninas.

Todavia, o país sensacionalista que ficou chocado com a forma como o “menino Mateus” se dirigiu à tia, ficou indiferente às últimas notícias sobre o abate de árvores em várias regiões do país, apesar da suspensão da exploração de madeira legalmente decretada pelo Governo.

Era, talvez previsível que a medida de suspensão fosse agravar o crime de desmatamento e com ele a corrupção envolvendo os agentes do Estado ligados ao licenciamento e controle bem como o envolvimento directo dos próprios empresários, na maioria dos casos estrangeiros, aqui ou como beneficiários últimos.

A pegada ecológica não deve continuar a ser encarada como um discurso deles. O impacto da degradação ambiental é sentida todos os dias e em todo o lado. Como se diz, a natureza não avisa e os seus estragos para além de imprevisíveis são sempre catastróficos.

Assusta-me por isso o silêncio cúmplice de quem se escuda na interdição no lugar de afinar os mecanismos de controlo, monitoramento e educação das populações para que tenham maior sensibilidade. O recomendável é não danificar ou, como quem diz mais directamente, não estarmos a assistir o abate indiscriminado de matas virgens e nem sequer há um arbusto replantado em seu lugar.

O mau exemplo do Malawi deveria forçar-nos a pensar de forma séria sobre os riscos do desmatamento. Para além do impacto da vaga dos refugiados moçambicanos nos anos 80, também as populações locais e a industria do tabaco têm tido um impacto pernicioso tornando o país desmatado e um case study para muitas organizações internacionais.

Esse desflorestamento, no nosso caso fundamentalmente por razões económicas, é pernicioso para o ecossistema local intensificando as vagas de calor, o que acelera a desertificação, perda da biodiversidade, o que traz consigo ainda mais pobreza uma vez que são espaços onde as comunidades locais vivem fundamentalmente da agricultura.

Obviamente, se a desflorestação pode mais bem controlada e combatida com uma política de gestão das florestas e dos espaços tendo em vista a preservação da biodiversidade; o que se assiste com o desmatamento e exploração irracional da madeira, ocorre também com a caça furtiva que tem vindo a ceifar muitos animais da nossa rica (será ainda?) fauna.

A notícia do contentor de marfim é só uma ponta do icebergue. E não é portanto apenas a caça pela sobrevivência. É, sobretudo a caça por razões económicas, fundamentalmente pelo marfim e peles dos animais para alimentar uma industria do luxo ávida dessas matérias-primas.

A exploração das florestas deve obedecer por isso uma política racional que contemple largos espaços de repovoamento florestal, como o ACNUR e outras organizações internacionais tentam agora fazer no Malawi e Nepal que foram “maus alunos” nessa matéria.

Na mesma senda, embora já não pelas razões que aqui evocamos, o município do Tômbwa vive há largos anos processo de desertificação, o que tem sido uma preocupação para as autoridades locais.

Assim, a notícia recente da visita do governador do Namibe, Archer Mangueira, ao município de WalvisBay na Namíbia é não só sintomático da preocupação, mas fundamentalmente da partilha de outras experiências na resolução da questão devolvendo qualidade de vida aos locais. E mais, até uma nova cidade, Swakpomund foi erguida na zona.

Numa situação mais extrema, teríamos os exemplos dos emirados árabes cuja paisagem de deserto até aos anos 70 deu lugar a uma radical transformação e é hoje um dos pontos mais atractivos do mundo.

Uma nota final para os nossos 21 anos do alcance da paz e do fim de um longo e injustificado conflito que só ocorreu por causa da ganância e obstinação de um único, estando nós a viver um perigoso processo de adulteração da História, com um branqueamento das razões que nos levaram a destruição do País, em toda a sua dimensão e com fases marcantes entre 1975 e 2022.

De qualquer modo, bem-haja a todos os angolanos que se bateram pela paz, e que ainda hoje persistem no desiderato da unidade e da reconciliação nacional. Viva a paz, viva Angola e vivam os angolanos que, mesmo com dificuldades labutam diariamente para a construção de uma Angola melhor para nós e para os nossos filhos.

*Jornalista
in JA

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