Equilíbrio entre a liquidez e a desvalorização cambial – Daniel Tendo
Equilíbrio entre a liquidez e a desvalorização cambial - Daniel Tendo
Daniel Tendo

Indicadores actuais revelam um cenário económico em Angola que deverá influenciar significativamente as decisões do Comité de Política Monetária (CPM) do Banco Nacional de Angola (BNA) na sua próxima reunião.

Dado o contexto de inflação crescente, desvalorização cambial e escassez de liquidez no mercado interbancário, o BNA precisará avaliar cuidadosamente as suas estratégias para equilibrar os objectivos de controlo da inflação, estabilidade da moeda e crescimento económico.

O aumento da inflação homóloga para 31,09%, bem como a variação mensal de 1,68%, indicam pressões inflacionistas intensificadas. Estes números sugerem que o BNA terá de abordar de forma incisiva a gestão da inflação, já que esta ultrapassa consideravelmente o limite desejável para garantir o poder de compra dos cidadãos e a estabilidade económica.

O aumento da inflação pode estar ligado, em parte, à desvalorização da moeda, como observado na queda do valor do Kwanza face ao dólar (USD 925,900) e ao euro (EUR 1.022,471), o que encarece as importações, um factor relevante numa economia fortemente dependente de produtos externos.

Para o BNA, o desafio será controlar a inflação sem comprometer ainda mais o crescimento económico, que já poderá estar a ser sufocado pela falta de liquidez.

A manutenção da Taxa BNA em 19,5% na última reunião do CPM visou conter as pressões inflacionistas. No entanto, dado o cenário actual de inflação crescente, o BNA pode ser pressionado a aumentar a taxa de referência numa tentativa de contrair a oferta monetária e, assim, desacelerar o ritmo de crescimento dos preços.

As taxas Luibor apresentadas 19,14% para overnight, 19,94% para um mês, e 21,37% para três meses reflectem a escassez de liquidez no mercado interbancário.

Estas taxas de juro interbancárias são um claro sinal de que os bancos comerciais estão a enfrentar dificuldades para obter financiamento a curto prazo, o que também tem afectado negativamente o acesso ao crédito por parte das empresas e consumidores.

Adicionalmente, a Taxa de Cedência de Liquidez de 20,5% e a Taxa de Absorção de Liquidez de 18,5% indicam que o BNA tem realizado operações no mercado para regular a liquidez. No entanto, os resultados parecem não ser suficientes para conter a pressão sobre o sistema financeiro.

Uma possível solução na próxima reunião do CPM seria aumentar as intervenções de cedência de liquidez para garantir que o sistema bancário tenha os fundos necessários para operar de forma eficiente, sem, contudo, gerar mais inflação.

Esta é, no entanto, uma linha ténue, pois um aumento significativo na liquidez poderia pressionar ainda mais a taxa de câmbio, levando a uma espiral inflacionista.

A desvalorização do Kwanza em relação ao dólar e ao euro reflecte desequilíbrios na balança de pagamentos, provavelmente agravados pela queda dos preços do petróleo nas últimas semanas. A variação cambial pode estar a ser exacerbada pela procura de divisas para importação, o que pressiona a moeda nacional.

Para mitigar os impactos desta desvalorização, o BNA poderá adoptar medidas mais restritivas, como intervenções no mercado cambial para suportar o Kwanza, ou poderá optar por permitir uma flutuação controlada da moeda, com a esperança de ajustar o mercado ao equilíbrio natural.

A manutenção de uma taxa de câmbio competitiva é importante para fomentar as exportações e proteger as reservas internacionais. Contudo, a contínua desvalorização pode minar a confiança na moeda local, incentivando a dolarização informal da economia, algo que o BNA deseja evitar.

Uma possível abordagem seria a implementação de medidas fiscais e monetárias mais integradas para lidar com o défice da balança de pagamentos e estimular a produção interna, o que, a longo prazo, poderia reduzir a necessidade de importações e aliviar a pressão sobre a moeda.

Com base no quadro actual da economia, espera-se que o BNA continue a equilibrar os seus esforços entre controlar a inflação e estabilizar o Kwanza. Algumas possíveis acções que o CPM poderá considerar incluem:

Ajuste na Taxa de Referência: Dada a inflação persistente e a desvalorização do Kwanza, é provável que o BNA considere um aumento na taxa de referência, actualmente em 19,5%, para conter a subida dos preços. Um aumento moderado pode ajudar a conter a inflação.

Intervenções Cambiais: O BNA poderá intensificar as suas intervenções no mercado cambial para mitigar a desvalorização do Kwanza. No entanto, tais intervenções deverão ser cautelosas, pois uma abordagem demasiado agressiva poderia resultar no esgotamento das reservas internacionais.

Medidas de Apoio à Liquidez: Para aliviar as pressões sobre o mercado interbancário e o sistema financeiro, o BNA poderá aumentar as operações de cedência de liquidez a taxas mais favoráveis, incentivando o fluxo de crédito para a economia real, sem prejudicar o controlo da inflação.

*Economista

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