
Um alerta sobre alegados riscos à segurança nacional e possível infiltração estrangeira no sector diamantífero de Angola foi divulgado pelo perito judicial e especialista forense Sabalo Salazar, que afirma ter identificado indícios de uma operação estruturada de influência associada a um cidadão da Rússia com presença frequente no país desde 2025.
Segundo o relatório, o indivíduo identificado por Alexander Reznik, oficial sénior do Serviço de Inteligência Estrangeira da Federação Russa (SVR), terá entrado em território angolano com visto de investidor, mas apresentaria um padrão de deslocações e actividades considerado atípico para um investidor convencional, o que pode estar ligado a uma fase exploratória de actividade de inteligência externa e tentativa de influência sobre sectores estratégicos da economia nacional.
De acordo com o documento divulgado pelo perito judicial e especialista forense Sabalo Salazar, Alexander Reznik nasceu a 12 de Abril de 1981, em Leningrado, antiga União Soviética, e possui passaporte emitido pela Federação Russa em 2019, com validade até 2029.
Conforme a análise apresentada, a sua primeira entrada registada em Angola ocorreu em 2025, seguindo-se várias deslocações de curta duração ao território nacional.
O perito sustenta que esse padrão de mobilidade internacional, associado a permanências breves e recorrentes, levanta dúvidas quanto à natureza das suas actividades.
Outro elemento considerado relevante no relatório refere-se à fluência do cidadão russo em língua portuguesa, apesar de não existir registo oficial de residência ou permanência prolongada em países lusófonos.
Para o investigador do Laboratório Sakatindi, este factor, aliado ao histórico de viagens e ao enquadramento profissional do indivíduo, constitui um indicador que merece verificação por parte das autoridades.
O documento menciona igualmente informações recolhidas em bases de dados internacionais segundo as quais o pai do cidadão russo, identificado por Aleksandr Vladislavovich, nasceu em 1956, e teve uma carreira científica ligada ao Joint Institute for Nuclear Research, em Dubna, na Rússia.
A instituição inclui o Frank Laboratory of Neutron Physics, onde o cientista terá desempenhado funções de direcção.
O relatório refere que estruturas científicas deste tipo são frequentemente classificadas como de potencial “dual-use”, isto é, com aplicações civis e militares.
Segundo o especialista, Alexander Reznik estaria também associado à empresa internacional EBSSA International, fundada em 2014 e sediada na Sérvia, organização descrita como um grupo que opera no sector da inteligência privada internacional, com presença em vários países, incluindo na África do Sul.
Para além da análise sobre a presença do cidadão russo em Angola, o relatório sustenta que a sua missão poderá estar ligada a uma estratégia de influência no sector diamantífero nacional.
O perito afirma ter recebido comunicações privadas de vários cidadãos que alegam ter sido abordados por Reznik com promessas de apoio financeiro, oportunidades de negócios ou facilitação de saída do país para projectos empresariais no exterior.
Alguns empresários angolanos teriam igualmente recebido promessas de acesso a contratos ou oportunidades de negócio ligadas às empresas Sociedade Mineira de Catoca e Sociedade Mineira do Luele, duas das principais estruturas do sector diamantífero em Angola.
Tais abordagens, segundo a análise divulgada, poderiam enquadrar-se numa estratégia de recrutamento de actores nacionais com o objectivo de criar uma rede de influência económica.
O relatório recorda que a Sociedade Mineira de Catoca possui uma estrutura societária composta pela empresa estatal angolana Endiama e por parceiros internacionais. Historicamente, uma das principais empresas estrangeiras ligadas ao projecto foi a russa Alrosa, considerada uma das maiores produtoras de diamantes do mundo.
Após a tomada de posse do Presidente João Lourenço em 2017, o sector diamantífero passou por um processo de reestruturação que resultou na saída de alguns parceiros estrangeiros e na redefinição da participação internacional nas principais empresas do sector.
As nova configuração societária incluiu a participação da empresa Taadeen, ligada ao fundo soberano do Sultanato de Omã. Mas, o relatório alerta que este modelo poderia estar a ser utilizado como mecanismo indirecto de influência estrangeira no sector diamantífero angolano.
O documento afirma ainda que Reznik poderá desempenhar funções executivas ligadas ao sector mineiro, levantando dúvidas sobre o enquadramento legal da sua presença no país, uma vez que terá entrado em Angola com visto de investidor e não com visto de trabalho.
Para o autor do relatório, esta situação deveria ser verificada pelas entidades competentes responsáveis pela regulação migratória e laboral.
Entre as instituições chamadas a analisar o caso estão o Serviço de Inteligência e Segurança de Estado, o Serviço de Inteligência Externa, o Serviço de Investigação Criminal e a Polícia Nacional de Angola, organismos responsáveis pela defesa da segurança do Estado e pela investigação de eventuais ameaças estratégicas.