
Mesmo que na maior parte da história da família o Estado tenha chamado para si a custódia das relações conjugais e parentais, a autoridade estatal nunca esteve imune à influência vital da família, tendo em conta que é esta quem sempre proveu a força de trabalho que alimenta as instituições ao longo de toda a história da máquina estatal.
No entanto, ao implementar todo um pacote de medidas macroeconómicas que afetam positiva ou negativamente os preços, a tributação, os empregos, os juros e a renda, o estado dita o curso das famílias, impõe o tipo de alimento que chega às suas mesas e determina a qualidade do lugar que estas chamam de lar.
Ainda com base nos seus fins políticos, económicos, militares e sociais, o estado expande a sua presença nos territórios da família através de leis que regulamentam o casamento, o divórcio, a filiação, o aborto, a contracepção, a herança e o género.
Para além desta participação directa nos assuntos familiares, que afecta de forma significativa a autoridade parental e a solidez dos laços matrimoniais, o estado também imprime a sua força através de leis que regulam o comportamento de forma mais ampla, bem como por meio de uma gama de serviços essenciais que presta às famílias, tais como educação, saúde, segurança e assistência social.
Historicamente, a intrusão do estado nos domínios da família sempre foi poderosa e incontornável, sobretudo em certos contextos, quando se sentiu forçado disputar com o núcleo familiar a lealdade dos cidadãos, ou quando viu a necessidade de fazer um controlo demográfico mais cerrado.
Alguns dos exemplos críticos da regulamentação estatal da vida familiar incluem a proibição do casamento inter-racial, a obstrução do divórcio e a política do filho único.
Nos dias actuais, marcados por uma politica familiar ‘‘progressista,’’ os exemplos mais marcantes incluem a liberalização do aborto e a validação do casamento entre pessoas do mesmo sexo – um modelo que contrasta com o sistema familiar tradicional, o único que garante a manutenção da espécie que, no entanto, vem sendo ameaçado pela força dos valores liberais da sociedade contemporânea.
Em sentido contrário, as famílias oferecem ao Estado a força de trabalho vital para a administração pública e para as empresas, além de enquanto consumidores, atuarem como atores primários do sistema económico.
A família ainda oferece à sociedade o marginal que perturba a paz e a segurança pública. Este fora-da-lei é geralmente resultado de alguma disfunção familiar, associada a determinadas variáveis sociais, que surgem como consequência, em maior ou em menor grau, do fracasso das políticas públicas ou da ausência da intervenção estatal.
Aqui, o Estado traduz-se especificamente no amplo leque de estruturas político-administrativas que têm como vocação tutelar a paz, o progresso e a harmonia social.
Quanto ao político que dissemos por trás, a questão que deve ser feita é sobre quem o forja: a família ou a sociedade?
Digamos que a família, através da autoridade parental, forma a pessoa – com certos anseios elementares e um código moral básico. E a sociedade, que é uma outra faceta do Estado, com todo o seu arsenal de instituições, nomeadamente escolas, universidades, sindicatos, partidos políticos, parlamento, tribunais, presidência da república e a mídia (o porta-bandeira do debate político), é que fazem de facto o presidente, os deputados, os ministros e todos os outros burocratas estatais de alto, médio e baixo escalão, que asseguram a manutenção da ordem social.
E mesmo no que diz respeito ao desenvolvimento da personalidade do indivíduo, a família não faz todo o trabalho. Ela desenvolve os padrões fundamentais de pensamento e de comportamento, e o resto acontece na sociedade, com o aprendizado social.
Assim, o indivíduo desenvolve na família a parte mais primária da personalidade – os moldes básicos do seu pensar e agir, que o torna uma pessoa boa ou má – padrões que, no entanto, podem ser subvertidos ou reforçados na sociedade ao longo do tempo. E, políticos, as pessoas se tornam na sociedade, fruto da experiência social.
Portanto, extrema direita, direita, esquerda e todos os outros conceitos da política que fazem o político, não se aprendem na família, mas na sociedade e mais uma vez, com a sociedade. E, dadas as agendas que perseguem, as instituições da sociedade, carregam toda uma cultura institucional, diante da qual, muitos dos traços de personalidade que o indivíduo herda da família não sobrevivem.
Tomemos, por exemplo, as instituições militares que, historicamente, têm toda uma tradição de disciplina, severidade e rigidez, que, independentemente da força dos valores que o indivíduo traz de casa, ele é forçado a adaptar-se.
O mesmo se pode dizer das instituições académicas, que têm toda uma identidade muito própria, distinta do modus operandi da família, o que nos permite afirmar em viva voz que o meio familiar constrói a pessoa (o músculo), mas o cientista, o pesquisador e o professor – os cérebros – por assim dizer, são forjados pela sociedade, que como dissemos, é uma outra versão do Estado.
Contudo, esta influência de longo alcance que o aparelho estatal joga sobre o indivíduo, não diminui a força e a importância da estrutura familiar, até porque a existência da família precede o estado, e ela pode existir sem ele, o que não pode ser dito inversamente.
Assim, em retrospectiva, se considerarmos que a sociedade são todas as pessoas e instituições que estão depois dos muros que cercam a família, pode-se dizer então que esta estrutura cognitiva complexa a que chamamos personalidade é resultado (paralelamente a influência genética), da cooperação entre família e ambiente, já que, de um lado, a máquina familiar constrói a parte essencial do ser; e de outro, o mundo ao redor se encarrega de acrescentar, mudar e reforçar certos traços a este ser, além de construir as suas dimensões cívica e profissional, bem como atribuir as devidas recompensas as escolhas que o indivíduo faz ao longo desta construção.