
Uma cidadã nacional identificada como Leonice Neto, conhecida por “Nice” ou “Paula”, de 40 anos, foi detida esta terça-feira, em Luanda, pela Direcção de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP), por suspeitas de envolvimento num caso em que uma mulher de 37 anos ficou em estado crítico depois de ser submetida a um procedimento de hidrolipo na clínica de estética Nice da Luz, em Luanda.
Segundo o porta-voz do DIIP, intendente Quintino Ferreira, a investigação foi desencadeada após uma participação criminal apresentada pelos familiares da vítima, que denunciaram que a paciente sofreu uma paragem cardiorrespiratória durante o procedimento estético, realizado no passado dia 1 de Julho.
De acordo com o responsável, após receber a denúncia, a Polícia Nacional remeteu o processo ao Ministério Público, que emitiu mandados de detenção, busca, revista e apreensão.
“Ocorreu uma participação sobre uma cidadã de 37 anos que se dirigiu a uma clínica de estética para realizar um procedimento estético. Infelizmente houve uma situação que correu mal e a paciente teve de ser encaminhada para uma unidade hospitalar, onde permanece em estado muito crítico”, explicou Quintino Ferreira.
Durante as diligências, os investigadores apuraram que a suspeita alegadamente preparava-se para abandonar o país.
“Encontrámos muitas dificuldades para localizá-la. Ela chegou a planificar a fuga para o exterior, tendo inclusive efectuado o check-in online. Contudo, fruto do trabalho de inteligência criminal, foi possível impedir a fuga e proceder à sua detenção”, afirmou.
Conforme o DIIP, Leonice Neto será presente ao Ministério Público, enquanto prosseguem as investigações para apurar as circunstâncias do caso, incluindo a legalidade da clínica, as qualificações profissionais da responsável e a conformidade do procedimento realizado.
Questionado sobre o licenciamento do estabelecimento, o porta-voz esclareceu que essa vertente da investigação será desenvolvida em articulação com as entidades competentes responsáveis pela fiscalização das unidades de saúde e estética.
“Todos os documentos recolhidos serão analisados para determinar se o espaço reunia ou não os requisitos legais para funcionar”, acrescentou.
A clínica de estética Nice da Luz onde ocorreu o procedimento foi entretanto encerrada pelas autoridades.
Negligência
A vítima, residente em Portugal e mãe de quatro filhos, deslocou-se recentemente a Angola após ter tomado conhecimento, através das redes sociais, da publicidade aos procedimentos estéticos realizados pela clínica.
Segundo a irmã da paciente, Cidalina da Silva, a mulher realizou alegados exames preliminares antes da intervenção, mas nunca lhe foram apresentados os respectivos resultados.
“No dia do procedimento, a minha irmã ligou-me apenas para dizer que já estava na clínica. Horas depois recebemos a informação de que tinha entrado em paragem cardíaca. Até hoje ninguém nos explicou exactamente o que aconteceu”, afirmou.
De acordo com a família, a paciente foi transportada pela própria responsável da clínica para a Clínica General Katondo já em paragem cardiorrespiratória, permanecendo internada em estado crítico.
Os familiares relatam que a mulher sofreu um edema cerebral devido ao período em que permaneceu sem oxigenação adequada, apresentando igualmente comprometimento dos rins e do fígado, além de ter desenvolvido pneumonia.
A irmã da paciente sustenta ainda que a responsável pelo procedimento não possui formação médica nem habilitação para realizar intervenções cirúrgicas.
“A esteticista não é cirurgiã, não tem competência para exercer as actividades que estava a desenvolver. Este tipo de procedimento deve ser realizado por profissionais devidamente qualificados”, afirmou.
A família diz ter entregue às autoridades o termo de consentimento, exames médicos, fotografias e outros documentos relacionados com o caso.
“Nós só queremos justiça. Se houve negligência, que os responsáveis sejam responsabilizados. A nossa irmã continua a lutar pela vida”, apelou.
De realçar que a hidrolipoaspiração, ou hidrolipo, é um procedimento minimamente invasivo destinado à remoção de gordura localizada, mas, apesar de ser menos complexo do que uma lipoaspiração convencional, deve ser realizado por médicos habilitados, em instalações licenciadas e com condições adequadas para responder a eventuais complicações clínicas.
Especialistas alertam que procedimentos estéticos executados por pessoas sem qualificação ou em estabelecimentos não autorizados podem provocar complicações graves, como hemorragias, infecções, embolias, reacções à anestesia e paragens cardiorrespiratórias.
O DIIP apelou ainda para que eventuais pessoas que aleguem ter sido lesadas pela mesma clínica apresentem formalmente as respectivas denúncias às autoridades, enquanto o Ministério Público prossegue a investigação para apurar eventuais responsabilidades criminais.