
As redes sociais estão a remodelar a forma como a política é comunicada e debatida em Angola, segundo o estudo “Angola e a Política Digital: Uma Análise da Democracia nas Redes Sociais”, que analisou 80 anúncios políticos veiculados no Instagram durante o mês de outubro de 2025.
A investigação, conduzida pelo especialista em tecnologia e inteligência artificial Diego Seguro, CEO da Onks Growth e professor de IA na Universidade Anhembi Morumbi, revela que o Instagram se consolidou como uma das principais plataformas de debate público no país, com um investimento total estimado de 12,4 milhões de kwanzas (cerca de 13,5 mil dólares) e alcance superior a 4,2 milhões de impressões.
De acordo com o estudo, o MPLA foi o partido mais ativo na comunicação digital, responsável por 75% dos anúncios analisados.
As publicações destacaram ações governamentais, inaugurações de infraestruturas e campanhas de sensibilização social, refletindo, segundo o autor, um uso estruturado e transparente das ferramentas digitais, em conformidade com o princípio constitucional da publicidade e do dever de informar os cidadãos.
“O partido demonstra compromisso com a prestação de contas pública e com a comunicação direta com os cidadãos”, aponta o documento, sublinhando que a divulgação de realizações, como a inauguração do Hospital Militar ‘Pedalé’, contribui para o fortalecimento da transparência governamental.
O estudo também destaca a diversidade de vozes que compõem o debate político no ambiente digital angolano. Cerca de 18 anúncios analisados partiram de páginas independentes e de oposição, o que, segundo o autor, confirma a existência de um ecossistema plural e dinâmico, onde a liberdade de expressão é exercida ativamente.
Entretanto, a investigação alerta para uma tendência crescente de discursos pejorativos e alarmistas em alguns conteúdos críticos, que substituem análises técnicas por ataques pessoais e adjetivações genéricas.
“Esse tipo de comunicação empobrece o debate público e prejudica a própria oposição, que ganharia mais credibilidade ao apresentar críticas fundamentadas e propostas concretas”, observa o relatório.
Entre os temas mais debatidos, destacou-se a proposta de Lei contra a disseminação de informações falsas, vista por alguns grupos como uma tentativa de censura.
O estudo, contudo, ressalta a importância de um debate equilibrado e técnico sobre a regulação da desinformação, evitando tanto o risco da censura quanto a proliferação de conteúdos falsos.
Nesse contexto, o autor defende o fortalecimento de agências independentes de checagem de fatos (fact-checking) em Angola, à semelhança de modelos internacionais como Africa Check (África do Sul) e Aos Fatos (Brasil).
Tais iniciativas, argumenta o estudo, são essenciais para combater a desinformação, elevar o nível do debate público e proteger a liberdade de expressão, desde que atuem com independência, transparência metodológica e pluralidade política.
O estudo conclui que Angola vive uma fase de maturação democrática no espaço digital, com avanços significativos em termos de transparência e engajamento cidadão, mas também com desafios evidentes.
Entre os aspectos positivos, destacam-se a ampla pluralidade de vozes, o uso transparente das redes pelo governo e a participação ativa dos cidadãos.
Por outro lado, persistem desafios como a desinformação, a polarização ideológica e a necessidade de alfabetização digital da população.
“A democracia não é o silêncio da crítica, mas a capacidade de transformar o desacordo em diálogo construtivo”, resume o estudo, sublinhando que o futuro da democracia digital em Angola dependerá da capacidade coletiva de elevar o nível do debate e fortalecer as instituições.