Felito salta do “Conversas Essenciais”! – Salas Neto
Felito salta do “Conversas Essenciais”! - Salas Neto
graça campos

O antigo amigo meu Graça Campos, o Felito, surpreendendo a quase todos, anunciou ontem a sua saída pura e simples do «Conversas Essenciais», programa sabatino da Rádio do Filomeno, que dominou o debate político na media nos últimos dois anos, do qual era o editor.

A princípio, eu nada quis falar a propósito, até para o indivíduo não pensar que é muito importante, batendo um coro que isso não me aquecia nem arrefecia, mas não consegui resistir à tentação e cá estou. O Graça Campos é um daqueles gajos que, mal ou bem, nos obrigam a falar deles.

Ele fazia equipa com os jornalistas Evaristo Mulaza e Teixeira Cândido, os sociólogos David Boio e Paulo Inglês, a jurista Helena Prata e o consultor Hélder Preza, tendo nos últimos tempos contado com a colaboração do frei Angalo, ao que parece, muito próximo de atingir a titularidade.

«Gostava de anunciar aos ouvintes que este é o último programa em que participei. Portanto, no próximo ano, quando o programa retornar, eu cá já não estarei», anunciou secamente, mais ou menos palavra, ao fim da edição especial deste sábado do «conversas essenciais», por conta da «entrevista colectiva» concedida por Adalberto Costa Júnior, o presidente reeleito da UNITA, que falou de tudo e mais qualquer coisa sobre a vida política do país e parte do que pensa fazer para conseguir afastar o MPLA do poder em 2027, com a ajuda de todos os patriotas angolanos. Falou-se também sobre as estrondosas declarações do presidente João Lourenço, no comício do seu partido naquele sábado, a propósito da sua sucessão.

Desconsiderando em absoluto o grande público, Graça Campos não se designou em dar alguma explicação aos cidadãos das razões que o levam a abandonar o barco em que esteve a navegar nos últimos dois anos e tais, quando nada apontava para tal.

Podia ao menos evocar razões de saúde, como está na moda, mas não o fez, deixando assim espaço para a especulação. Centrada em duas possibilidades principais, que se excluem, ao estilo «das duas, uma»: se não foi comprado, foi ameaçado.

Contudo, como duvido muito que ele se predisponha já a passar para a reforma, mesmo que o camarada não revelar, daqui a mais uns tempos já deveremos ter algum sinal do que aconteceu para dar lugar a este inesperado divórcio.

Apesar daquela sua voz esganiçada atrapalhar muito em rádio, o Graça Campos tem um carisma ímpar que emprestava ao «conversas essenciais» como que aquele «toio» que apenas poucas das nossas cozinheiras conseguem dar ao feijão de óleo de palma, o incontornável «kitute» da terra das mufetadas de sábado, além da grande competência editorial que lhe é reconhecida.

Substituí-lo não é nada fácil. Falo por experiência própria, pois, já fiz isso em duas ocasiões, ainda que na segunda com uma espécie de «intromissão» efémera do Severino Carlos, quando, em Setembro de 2010, acabei como director do Semanário Angolense poucos meses depois dele ter vendido o jornal à «malta do sandokan», com os trabalhadores lá dentro.

A primeira foi a meio da segunda metade dos anos 90, como editor-chefe do Folha 8, quando ele bateu com a porta ao William Tonet, por este, malvado, não lhe ter acompanhado num infortúnio.

Embora a sabedoria popular postule que «a morte duma andorinha não faz terminar a primavera», estou cá com um pressentimento de que a saída do Graça Campos do «conversas essenciais» será uma perda irreparável para o programa, nomeadamente em relação ao interesse a despertar, sem desprimor para os que ficaram e os que vierem a entrar.

Certo mesmo é que já não será a mesma coisa. É só imaginarmos o que será, por exemplo, o «viagem ao passado» da Rádio Luanda sem o Afonso Quintas ou o Man Garras. A cuiação não é a mesma.

*Jornalista

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