Fundação Eduardo dos Santos desaparece após a morte do patrono
Fundação Eduardo dos Santos desaparece após a morte do patrono
FESA

Desde que o cidadão que responde pelo nome de João Manuel Gonçalves Lourenço assumiu a Presidência da República, a Fundação Eduardo dos Santos (FESA) desapareceu dos holofotes, perdendo todo o destaque que outrora ostentava nos órgãos de comunicação social alinhados com o governo angolano e o partido no poder (MPLA).

O desaparecimento da FESA tornou-se ainda mais evidente após o falecimento do antigo Presidente José Eduardo dos Santos em Julho de 2022, em Barcelona, Espanha.

O Imparcial Press faz um balanço daquela que foi a instituição que mais se lambuzou nos tempos de abundância, comendo à tripa forra do Orçamento Geral do Estado.

Criada em 1996 por José Eduardo dos Santos, a FESA era uma instituição filantrópica supostamente apartidária, com um verniz científico, cultural e social, proclamando-se sem fins lucrativos.

Surgiu durante os dias negros de Angola, quando a fome e a guerra civil provocaram milhares de deslocados, uns para a cova e outros nem por isso, em consequência do conflito pós-eleitoral de 1992. No entanto, após a transição de poder para João Lourenço, a FESA simplesmente evaporou-se do cenário público.

Últimas actividades da FESA

Pode-se contar nos dedos as últimas poucas actividades promovidas pela FESA. Uma delas foi um seminário sobre “Turismo Sustentável”, realizado em Agosto de 2015, em colaboração com o então Ministério da Hotelaria e Turismo, agora dois ministérios distintos, no Hotel Diamante, próximo ao Largo do Porto Comercial, em Luanda.

O evento marcou as comemorações do 73.º aniversário do patrono da fundação, José Eduardo dos Santos, destacando-se pelo compromisso da FESA em influenciar políticas e práticas que impulsionem o desenvolvimento socioeconómico do país.

O workshop sobre “Turismo Sustentável” foi conduzido por Bayard do Coutto Boiteux, doutorado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Brasil) e à época vice-presidente executivo da Associação de Embaixadores de Turismo do Rio de Janeiro, Gerente de Turismo do Preservale e presidente da Site Consultoria em Turismo.

O evento contou ainda com a presença de responsáveis e técnicos dos ministérios do Ambiente e da Hotelaria e Turismo.

Já em Agosto de 2016, em honra ao 74º aniversário do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, a FESA organizou, com o apoio técnico da Federação Angolana de Futebol (FAF), um torneio com a participação exclusiva de quatro equipas do Girabola: 1º de Agosto, Petro de Luanda, Kabuscorp do Palanca e Progresso do Sambizanga.

No mesmo ano, em Outubro, a FESA realizou no Palácio dos Congressos, em Luanda, as jornadas técnico-científicas com o tema “A experiência de Angola nos processos de reconciliação nacional, integração social e reconstrução nacional“, inseridas no programa comemorativo dos 20 anos de institucionalização da instituição e dos 74 anos de vida do seu patrono e instituidor, o engenheiro José Eduardo dos Santos.

O diretor-geral da FESA, João de Deus, justificou a escolha do tema pela vasta experiência de Angola na resolução de desafios, desde a conquista da paz até aos programas de reconciliação, integração social e reconstrução nacional.

Além de conferencistas nacionais, foram também convidados especialistas de países como Brasil, Portugal, Espanha, Moçambique, China, África do Sul, Argélia, Equador e Chile, com o intuito de enriquecer o debate com diversas perspectivas e experiências internacionais.

No inesquecível ano de 2017, a Fundação Eduardo dos Santos ficou nos bastidores assistindo à transição de poder e organizando os seus bens, presumindo que tudo continuaria como nos tempos de governação do seu patrono. Puro engano.

O início da perseguição

Em Novembro de 2017, o jornal espanhol El Mundo noticiou que a Procuradoria Anti-Corrupção espanhola estava a investigar um suposto pagamento de até 11 milhões de dólares pela empresa Mercasa à FESA, relacionado com a construção de um mercado de abastecimento em Luanda. A FESA, claro, negou veementemente qualquer envolvimento no caso.

Outro escândalo que voltou a abalar as suas estruturas ocorreu em Setembro de 2018, quando o presidente do Conselho de Administração da FESA, Ismael Diogo da Silva, foi detido para um interrogatório e levado directamente para a Comarca de Viana, pela justiça angolana, no âmbito do combate à corrupção que abalou as estruturas do partido/governo.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) justificou que a detenção foi necessária devido à recusa reiterada de Ismael Diogo em comparecer na Direcção Nacional de Investigação e Acção Penal (DNIAP) para prestar declarações.

As acusações contra ele envolvem o recebimento indevido de milhares de dólares no caso Conselho Nacional de Carregadores (CNC), onde o ex-ministro dos Transportes, Augusto da Silva Tomás, figurava como o principal vilão.

Segundo a PGR, na altura, recaem sobre Ismael Diogo fortes suspeitas de burla por defraudação e corrupção ativa, crimes puníveis pelo Código Penal e pela Lei Sobre a Criminalização das Infrações Subjacentes ao Branqueamento de Capitais.

Segundo a PGR, Ismael Diogo estava enrolado até o pescoço em suspeitas de burla por defraudação e corrupção activa, crimes puníveis pelo Código Penal e pela Lei Sobre a Criminalização das Infrações Subjacentes ao Branqueamento de Capitais.

Após uma breve temporada no confortável Hospital-prisão de São Paulo, em Luanda, onde foi transferido dias depois, Ismael Diogo foi gentilmente presenteado (medida de coação) com o “Termo de Identidade e Residência” pela PGR.

Última presença de JES na FESA

A última vez que José Eduardo dos Santos esteve na FESA foi em Novembro de 2018, durante a inauguração da actual sede. Na ocasião, o patrono da FESA fez considerações enfatizando que a instituição filantrópica, sem fins lucrativos, está dedicada ao bem-estar social.

José Eduardo dos Santos destacou que a FESA está comprometida em alcançar novos objectivos, focando especialmente na inclusão social, na formação técnica e científica da juventude, contribuindo modestamente para o desenvolvimento económico e social do país.

Ele assegurou o contínuo apoio às crianças e à juventude, considerando não apenas a vulnerabilidade delas, mas também o impacto que sua formação tem no futuro do país, especialmente as crianças deficientes de famílias menos favorecidas.

Além disso, enfatizou o aumento das colaborações com os Ministérios da Educação para erradicar o analfabetismo, e da Agricultura para combater a fome e a pobreza. Também planejava intensificar iniciativas na formação técnico-profissional e no ensino superior, apoiando a pesquisa científica e inventores angolanos premiados internacionalmente.

A FESA, como todas as fundações, é uma instituição do terceiro setor, que visa resolver problemas cotidianos dos cidadãos, essenciais para o bem-estar social, buscando ajudar o próximo e contribuir para uma sociedade mais justa e equilibrada.

“O desenvolvimento que pretendemos promover na FESA deve enfatizar acções filantrópicas que respondam às crescentes demandas sociais, alinhando-se às iniciativas do setor público”, concluiu.

Durante o evento, o patrono da FESA descobriu o busto seguido de uma visita guiada às novas instalações, onde foi exibido um documentário sobre a cultura nacional e as actividades realizadas em 22 anos de serviço às comunidades.

Ismael Diogo foragido da justiça

Após esta actividade, José Eduardo dos Santos regressou a Barcelona para tratamento médico, e Ismael Diogo deixou de ser visto em público e nunca mais se ouviu falar dele.

Em Agosto de 2021, surgiram relatos de que Ismael Diogo estaria residindo no Brasil desde o início do ano, onde possui vários imóveis. Segundo informações, Ismael Diogo chegou ao Brasil em Janeiro de 2021 e desde então tem vivido recluso numa luxuosa residência na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Acompanhado por sua filha Letícia, Ismael Diogo continua a gerir e vender seus bens, supostamente acumulados por meio de empresas fantasmas e práticas de branqueamento de capitais.

Entre as propriedades de Ismael Diogo no Brasil, destaca-se a empresa Atlantic Serviços e Consultoria Empresarial Eireli, que supostamente serviu para transferir sua fortuna de Angola para o Brasil. Anteriormente localizada na Avenida das Américas, a empresa agora é administrada por Letícia, que gerencia outros negócios familiares.

Desde então, nem Ismael Diogo nem a FESA foram mencionados publicamente de forma significativa. Este silêncio contrasta fortemente com o papel que a FESA desempenhou durante o regime de José Eduardo dos Santos, levantando questões sobre o futuro da fundação e o legado de seu patrono.

O desaparecimento da FESA do cenário público após a morte de José Eduardo dos Santos marca o fim de uma era e suscita preocupações sobre a sustentabilidade das iniciativas filantrópicas em Angola.

Em Março de 2019, Fernando Vumby, um dos sobreviventes do massacre de 27 de Maio (1977-1979), escreveu um texto nas redes sociais sugerindo que a FESA deveria ser considerada uma organização criminosa.

Foi notável a sua ausência durante as exéquias de José Eduardo dos Santos, e a responsabilidade de representar a Fundação Eduardo dos Santos recaiu sobre o director-geral, João de Deus, que desmaiou enquanto fazia a leitura do elogio fúnebre após trocar o nome da atual primeira-dama da República, Ana Dias de Lourenço, pelo nome da anterior, Ana Paula dos Santos.

João de Deus estava no final do discurso de homenagem a José Eduardo dos Santos quando supostamente perdeu os sentidos. Foi imediatamente assistido e levado de ambulância para a Clínica Girassol, onde recuperou num instante.

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