
Felizmina sorriu com escárnio quando ouviu os comentários e viu as expressões de espanto no rosto das pessoas que estavam no táxi, depois do repórter de uma rádio anunciar o início de uma reportagem sobre a venda ambulante de feitiço na Centralidade do Kilamba.
Segundo o repórter, um número considerável de vendedeiros de feitiço saíram dos mercados Kwanzas, Kikolo e Km 30 para zungar na Centralidade.
“É incrível como as pessoas são falsas quando ouvem falar de feitiço”, pensou com os seus botões Felizmina. “Fingem sempre que não acreditam.”
A mulher observou com desdém e friamente os passageiros do mini autocarro, companheiros ocasionais de viagem, que seguia em direcção à primeira paragem do Kilamba.
Ainda atenta à emissão da rádio, murmurou:
Felizmina era entendida no assunto desde criança.
Felizmina, uma mulher de 27 anos de idade, a quem os vizinhos tratavam por Miss devido à sua beleza física e o rosto angelical, desceu do táxi e dirigiu-se ao edifício onde trabalhava como empregada doméstica há três anos. Quando entrou em casa encontrou a patroa, Luísa, sentada no canto do cadeirão a olhar para o vazio.
Deitou-se no cadeirão em posição fetal.
A empregada esboçou um sorriso carregado de maldade. Ela rejubilava. O seu plano, em execução há mais de cinco anos, estava bem encaminhado.
Felizmina nunca pensou em ser doméstica. Começou a interessar-se pelo marido da patroa quando o casal, recém-casado, ainda residia no bairro Zona Verde, no Benfica. Com a ajuda da mãe, Feliz mina teve o consentimento para sair do Cazenga, onde vivia, para ficar definitivamente com uma tia, que morava uma rua depois da casa do casal.
Felizmina fez bem o trabalho de casa: sabia tudo sobre eles, onde trabalhavam, o nome dos pais, cor preferida, dia de compras… Para a sua tristeza também, descobriu sobre o excelente relacionamento e cumplicidade do casal.
Sempre que via Luísa, Felizmina, invejosa, comparava-se à outra: “Eu até sou mais bonita e não sei como é que ela conseguiu pescar esse broto!”
A rapariga tinha cultivado uma paixão obsessiva, um amor doentio por Paulinho. Estava decidida a usar todos os meios para conquistar o homem. Para o seu desespero, o casal mudou-se para o Kilamba.
Mas a sorte esteve do seu lado. O vento soprou a seu favor, pois soube que o casal estava à procura de uma funcionária. Felizmina conseguiu convencer a antiga doméstica de Luísa, que tinha desistido do trabalho, para que lhe recomendasse o lugar de empregada.
A pedido da antiga trabalhadora, que inocentemente sempre foi cúmplice, Felizmina conseguiu o lugar. Decidiu colocar o seu plano em acção: separar o casal. Para atingir os seus objectivos, a mulher contava com o apoio da mãe, que era conhecedora experiente de todo o tipo de tratamento tradicional. “A mãe não é trapaceira como as outras”, gabava-se Feliz mina cheia de orgulho. Todo o tratamento tradicional que a mãe dela fazia, tinha um resultado positivo garantido.
Antes de visitar a tia no Benfica e se apaixonar por Paulinho, Felizmina era ajudante da mãe no Kikolo e sabia tudo sobre tratamento com paus, troncos, pulseiras, mbulungo, tala, fios, cintos, etc.
Mas a empregada preferia o pó, muito procurado pelos gatunos para fazer adormecer profundamente os donos da casa alvo, inclusive os animais. Ela também já o tinha usado na casa dos patrões.
Várias vezes e por muito tempo assistiu à mãe dar banho a homens e mulheres que pretendiam ascensão na vida profissional, empresarial, para encontrar marido rico, acabar com a pouca sorte, tornar-se invisível durante os assaltos, ser irresistível, ser conquistador, entre outros pedidos absurdos.
Com a experiência que tinha na matéria, não lhe foi difícil realizar uma série de manobras mágicas na casa do casal, sem que estes se apercebessem.
Quando Felizmina, preparada pela mãe, entrou na vida do casal, começou por ganhar a confiança destes, tendo uma atitude submissa e dedicada. Dia após dia, foi trazendo relatos sobre o poder da magia negra, bruxaria, esoterismo e o cuidado a ter com estas práticas que podem ser perigosas.
Paulinho era um tipo desligado destas crenças, muito centrado na realidade e nem lhe prestava atenção. A patroa era do tipo “não acredito em bruxas, mas que existem…existem”.
Ouvia as histórias e afirmava, segura, que a sua casa estava sob protecção divina e nada nem ninguém podia derrubar o seu casamento.
Aquelas palavras irritavam Felizmina que começou por colocar substâncias estranhas na comida do patrão. Como a serpente que encantou Eva no jardim, a empregada começou a insinuar para Paulinho que a esposa tinha um amante. Disponibilizou-se a gravar as conversas que Luísa mantinha com o “amante”.
Deliberadamente, depositou algumas peças de roupa masculina no quarto do casal, entre os pertences do patrão, para que este as visse.
Felizmina estava à espreita há muito tempo para dar o bote. Sabia ser paciente.
Luísa não era bonita à primeira vista, mas o conjunto de atributos que possuía, como a meiguice, simpática, o andar cadenciado e sensual, encantavam tanto mulheres como homens, tornando-a uma mulher excepcional. Antes de casar, teve uma vida bastante “movimentada” e dizia: “enquanto não casar, vou aproveitar a vida, vou namorar de todo o dinheiro!”.
No entanto, depois de conhecer e se apaixonar por Paulinho, Luísa “pendurou as chuteiras” e tornou-se totalmente dedicada, física e mentalmente ao marido.
A mente de Luísa fazia uma “varredura” nas gavetas do seu cérebro para tentar se lembrar de algum possível deslize grave que tivesse cometido a ponto do marido juntar os seus pertences e abandonar a casa, acusando-a de traição e pior: o marido dizia ter provas palpáveis desta traição, incluindo áudios.
Fazia uma semana desde que o marido havia abandonado a casa, deixando Luisa ansiosa, depressiva, cansada, impedindo-a de trabalhar. Nem o telemóvel atendia.
Na semana seguinte, viu o pai a materializar-se diante de si. Levou um susto, pois não se recordava de ter ouvido a campainha. Aos soluços explicou tudo ao pai, um investigador da Polícia reformado. O senhor ouviu-a com atenção, bastante intrigado. Conhecia bem a filha assim como o genro. “Ainda que estejam em crise não seria de modo tão repentino e com afastamento tão drástico”, reflectiu o senhor quando saiu da casa da filha.
Dois dias depois, o pai de Luísa regressou acompanhado por Paulinho, que trombudo nem olhava para a mulher, cheia de olheiras profundas.
O esposo, sempre carrancudo, expôs os áudios onde ela pedia com carinho para alguém: “Amor pega a botija e leva pra casa”; “cuidado com o vaso de plantas, Amor, sabes que neste lado da sala não fica bem por não ter sol”, “está à vontade, podes servir”. Terminados os áudios, Paulinho atirou um saco de plástico, que continha as peças de roupa masculina no colo dela. Os olhos de Luísa arregalaram-se de espanto.
A voz no áudio era dela, mas não se recordava daquelas conversas. Ela tratava por “Amor” ao jovem dos serviços gerais do edifício e o marido sabia disso, quanto àquelas roupas… nunca as tinha visto! Luísa jurou pela sua vida que havia um mal entendido.
Investigações feitas descobriu-se o envolvimento de Felizmina na trama. A edição dos áudios passava a impressão que havia um amante na vida de Luísa. Comprovou-se que sistematicamente a empregada colocava mixórdia em casa para criar mal estar sempre que Paulinho entrasse no apartamento.
Depois de “um aperto”, Felizmina confessou que sempre foi apaixonada por Paulinho. A intenção desde o princípio era separar o casal. Pensou em assassinar Luísa, usando um feitiço ou um veneno. Desistiu, pois usar veneno era muito arriscado e seria descoberta.
Admitiu ainda que também “trabalhou a mente” do casal, minando a confiança que sentiam um pelo outro ao inventar histórias sobre traição.
Paulinho e Luísa estavam em choque. Nem nos seus piores pesadelos imaginaram que estivessem a ser vigiados por Felizmina desde o Benfica e que ela fosse tão ousada.