
A luta pela sobrevivência tem levado moradores do bairro Kixiquela, na cidade de Caxito, a recorrerem à pesca numa lagoa situada junto à estrada principal.
O bairro pertence ao município do Dande, na província do Bengo, onde, há cerca de três anos, várias famílias foram obrigadas a abandonar as suas residências devido às cheias provocadas pelas chuvas intensas.
O que à primeira vista parece apenas um charco de água acumulada tornou-se, na verdade, uma importante fonte de renda e sustento para muitas famílias que não têm outra forma de garantir o pão de cada dia.
Quando a necessidade fala mais alto, a vergonha e o preconceito dão lugar à dignidade do trabalho. Como refere o livro bíblico de Gênesis 3:19: “Do suor do teu rosto comerás o teu pão.”
A lagoa, formada possivelmente após as cheias de 2024 causadas pelas chuvas intensas e pelo transbordo dos rios Dande e Kwanza resultou do acúmulo de água numa depressão do terreno.
Actualmente, crianças, jovens e adultos dirigem-se ao local diariamente para pescar, improvisando técnicas e utilizando meios alternativos como bidões, cestas, baldes e tambores, adaptados de acordo com as possibilidades de cada um.
Paíto, de 11 anos, aluno da 3.ª classe, vive com os pais e dedica-se à pesca há cerca de três meses. Apesar da pouca experiência, afirma já conseguir apanhar peixe suficiente para reforçar a alimentação da família.
O menor reconhece os riscos a que está exposto, incluindo doenças e a presença de cobras na lagoa, mas isso não o impede de continuar a pescar.
Vilma Paca, de 27 anos, mãe de três filhos e vendedeira de peixe há cinco anos, conta que tem aproveitado a experiência do marido na actividade piscatória.
“Temos ido juntos à lagoa. A venda muitas vezes depende da quantidade apanhada; se não for suficiente para comercializar, fica para o consumo da casa. Quando os peixes são muito pequenos, também destinamos ao consumo doméstico”, explica.
Um homem identificado apenas como Patrick afirma que os principais clientes são mulheres que revendem peixe nos mercados da província, bem como viajantes que passam pelo Bengo, sobretudo os que circulam entre Uíge e Luanda.
Segundo ele, há maior procura pelo bagre fumado ou escalado, já que muitos consumidores não sabem preparar o peixe fresco. Por isso, essas opções acabam por ser mais rentáveis e têm um preço superior.
Quanto à aceitação do produto, os vendedores relatam que alguns clientes reclamam ao saberem da sua proveniência. Há casos em que, mesmo após o pagamento, devolvem o peixe.
Outros, no entanto, não se importam e consideram-no uma das melhores iguarias, apesar de vir da lagoa. O preço do bagre varia conforme o tamanho e a quantidade, podendo custar entre 500 e 10 mil kwanzas.
in Uyele