
Os meios de comunicação social digitais em Angola enfrentam sérias limitações e estão distantes de cumprir os seus objectivos de educar e informar a sociedade, segundo análise do jornalista sénior, docente universitário e PhD em Jornalismo brasileiro, Wagner Sales.
Em declarações incisivas, o especialista criticou o que considera um afastamento da realidade social angolana, elitismo e falhas na utilização da língua portuguesa pelos profissionais do sector.
“Os meios de comunicação social digitais em Angola subestimam a inteligência das pessoas, são muito elitistas e tentam popularizar-se explorando crimes. Fogem absolutamente dos seus objectivos”, afirmou Wagner Sales.
Para o especialista, os órgãos digitais angolanos não conseguem aproximar-se do público jovem, principal força consumidora, devido à linguagem pouco acessível e à falta de conexão com as demandas das comunidades.
“Quase obrigam os leitores a andar com um dicionário sob os braços para decifrar o que publicam”, acrescentou o jornalista.
Na sua visão, a falta de domínio da língua portuguesa por parte da maioria dos jornalistas angolanos compromete a qualidade das notícias e dificulta a compreensão do público.
Wagner Sales argumenta que os meios de comunicação social digitais em Angola aprofundam as desigualdades sociais ao priorizar conteúdos sensacionalistas, especialmente ligados a crimes, e ao adoptar uma linguagem ultrapassada e rebuscada.
“Os próprios jornalistas, pelo que vejo daqui, abusam dos erros de concordância e dificultam o entendimento das notícias em vez de facilitá-lo”, criticou.
Para o jornalista brasileiro, o jornalismo em Angola precisa urgentemente de ser reformulado com base nos princípios universais da profissão, priorizando a busca pelos factos nas comunidades e a linguagem clara.
Ele também destacou a importância de os jornalistas se tornarem agentes de transformação social, promovendo debates e questionamentos sobre as necessidades locais junto às elites política, económica e social.
Reacções
A crítica de Wagner Sales provocou reacções mistas entre os profissionais da comunicação social em Angola. Muitos reconhecem a necessidade de melhorias no domínio da língua portuguesa e defendem um estilo de escrita mais acessível.
No entanto, alguns jornalistas discordam da visão de que os meios de comunicação social digitais em Angola são elitistas e fomentam desigualdades.
Domingos Figueiredo, jornalista e proprietário do portal de notícias “O Flagrante”, argumenta que muitos órgãos digitais têm trabalhado para dar voz às comunidades.
“Produzimos conteúdos ouvindo mais as comunidades do que as fontes oficiais, que muitas vezes se fecham aos jornalistas”, afirmou.
Vários profissionais da área também sublinham a urgência de regulamentação específica para os meios digitais em Angola. Apesar disso, reconhecem que os meios de comunicação social digitais já superaram os tradicionais em termos de velocidade e alcance, especialmente entre os jovens, que representam a maior fatia de consumidores de notícias online.
Diante das críticas, há um consenso entre os jornalistas angolanos sobre a necessidade de tornar os meios de comunicação social digitais mais acessíveis e próximos das comunidades. O estilo de escrita precisa ser claro, objectivo e menos rebuscado, para atender às expectativas de um público diversificado.
Por Geraldo José Letras