
O jornalista e director do portal “A Denúncia”, Carlos Alberto, afirmou esta terça-feira que vários reclusos têm perdido a vida no Hospital Prisão São Paulo (HPSP), em Luanda, devido a alegadas falhas graves no acesso a cuidados médicos adequados.
As denúncias surgem em contradição com declarações recentes do ministro do Interior, Manuel Homem, que garantiu que “as condições de saúde dos reclusos são estáveis” e que o HPSP “tem capacidade para tratar os detidos com segurança”.
Segundo o jornalista, que diz ter reunido testemunhos de reclusos, funcionários e familiares, a situação no hospital prisional é “muito mais crítica” do que o Governo admite.
De acordo com relatos recolhidos, a gestão do HPSP, sob direcção de Fernando Martins de Sousa, estaria a impor restrições severas à admissão de novos doentes, mesmo em casos considerados clínicos graves.
Fontes internas citadas afirmam que qualquer internamento exige autorização directa do director, incluindo o envio de fotografias e relatórios por via digital, o que estaria a atrasar o atendimento e a resultar na morte de reclusos dentro das próprias cadeias.
As mesmas fontes sugerem que a orientação visa reduzir o número de internamentos para evitar “estatísticas comprometedores para a imagem institucional”.
As denúncias incluem ainda críticas à actuação da médica Laura Kibela, cuja intervenção é descrita como “tecnicamente insuficiente”. Segundo testemunhos, seriam frequentes altas médicas consideradas prematuras, enquadradas numa alegada política de limitar a permanência de pacientes no hospital.
Outro ponto sensível prende-se com o tratamento da tuberculose, uma das principais causas de morte no sistema prisional.
Casos de tuberculose multirresistente (TB-MDR) deixaram, alegadamente, de receber acompanhamento prolongado no HPSP, sendo os doentes enviados para a cadeia de Calomboloca, onde, segundo as mesmas fontes, faltam condições sanitárias, meios de diagnóstico e controlo adequado da doença.
Enquanto o Estabelecimento Penitenciário de Viana mantém tendas superlotadas com doentes e registo frequente de óbitos, o Hospital-Prisão São Paulo estaria, paradoxalmente, subutilizado.
De acordo com as informações recolhidas, o HPSP tem 115 camas livres e apenas 62 internados, apesar de ser a principal unidade com possibilidade de transferência para hospitais civis.
O jornalista afirma que o director rejeita regularmente novos internamentos para evitar relatórios clínicos que possam revelar o agravamento da situação.
As denúncias referem ainda o aumento de mortes por edema decorrente de desnutrição severa e anemia, problemas associados à baixa qualidade da alimentação nas cadeias.
Em vários casos relatados por familiares, a autorização de transferência médica chegaria tarde, levando a que “o recluso entre no hospital já sem vida”.
Carlos Alberto refere que, durante os quatro meses em que esteve detido no HPSP, testemunhou “diversas mortes por falta de medicamentos, negligência médica e ausência de cuidados básicos”. Afirma ainda que está a organizar dados e documentos que serão divulgados em breve.