Joseph Kabila tenta unir uma oposição fragmentada na RDC após condenação à morte
Joseph Kabila tenta unir uma oposição fragmentada na RDC após condenação à morte
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O ex-Presidente da República Democrática do Congo (RDC), Joseph Kabila, voltou ao centro do debate político africano ao ser escolhido para liderar uma nova plataforma de oposição, apenas duas semanas depois de ter sido condenado à morte pela justiça militar congolesa.

O movimento, baptizado “Salve a RDC”, surge como a mais recente tentativa de reconfigurar o xadrez político de Kinshasa e desafiar a liderança de Félix Tshisekedi.

A decisão foi tomada no final de um conclave de dois dias em Nairóbi, que reuniu exilados políticos, antigos aliados e várias figuras da sociedade civil.

Entre os presentes estiveram o ex-primeiro-ministro Matata Ponyo Mapon, condenado por peculato em Maio, e opositores conhecidos como Franck Diongo, Seth Kikuni e Jean-Claude Vuemba, além do activista Bienvenue Matumo, da organização Lucha.

O encontro, que oficialmente pretendia “avaliar a situação política e de segurança da RDC”, terminou com um manifesto que denuncia a “tirania do regime de Tshisekedi” e exige um diálogo nacional inclusivo, ecoando reivindicações antigas, mas agora sob a liderança de uma figura que há muito domina os bastidores do poder congolês.

Um condenado que regressa como unificador

A trajectória recente de Joseph Kabila é, no mínimo, paradoxal. Condenado à morte a 30 de Setembro, o antigo chefe de Estado – que governou o país entre 2001 e 2019 – reaparece em público menos de duas semanas depois, não como réu, mas como líder de uma nova frente política.

Fontes próximas de Kabila afirmam que as conversações que resultaram neste movimento decorriam há quatro meses, com o objectivo de “restaurar a autoridade do Estado, pôr fim à tirania e reconciliar a nação”.

Para analistas, Kabila tenta reconstruir a sua imagem internacional e regional, explorando o desgaste político de Tshisekedi e a crescente insatisfação popular face à crise económica, à insegurança e à incapacidade do governo em estabilizar o Leste do país, onde o grupo rebelde M23, associado a Kigali, continua a desafiar Kinshasa.

Ainda que o conclave tenha sido descrito por apoiantes como um esforço de união, o consenso em torno de Kabila está longe de ser absoluto. Muitos opositores continuam a vê-lo como símbolo de corrupção, nepotismo e autoritarismo, os mesmos males que hoje criticam em Tshisekedi.

Um dos participantes do encontro, citado pela imprensa congolesa, afirmou que “a ideia não é dar carta branca a Kabila, mas unir forças em torno de um documento comum e pressionar o governo a aceitar um diálogo nacional.”

Mesmo assim, o gesto é interpretado como uma tentativa calculada de Kabila de regressar ao centro da política regional, numa altura em que a SADC e a União Africana reforçam a vigilância sobre os conflitos internos da RDC e a instabilidade crescente no Leste do continente.

O governo de Félix Tshisekedi reagiu com dureza. O porta-voz Patrick Muyaya classificou o encontro de Nairóbi como “uma reunião de foragidos e condenados sob o pretexto de paz”, rejeitando qualquer possibilidade de diálogo com figuras associadas a crimes económicos ou ligações a grupos armados.

Em Bruxelas, durante um encontro com a diáspora congolesa, o próprio presidente Tshisekedi foi categórico em afirmar que não negociará com quem serve de emissário aos agressores da República.

A resposta demonstra que o fosso político entre Kinshasa e os kabilistas permanece profundo, e qualquer tentativa de reconciliação parece, por agora, improvável.

Um movimento com ambições regionais

Mais do que um gesto simbólico, “Salve a RDC” representa um reposicionamento estratégico. Kabila, que manteve durante anos uma rede de aliados militares e empresariais na África Austral, parece apostar num regresso paulatino à influência regional, aproveitando as fragilidades de Tshisekedi e a ausência de uma oposição coesa.

Diplomatas ouvidos pelo Imparcial Press sublinham que o movimento poderá atrair o interesse de sectores políticos da SADC insatisfeitos com a crescente aproximação de Kinshasa ao Ocidente e à NATO.

Contudo, dentro da própria RDC, a iniciativa é vista com cepticismo. Para muitos, trata-se apenas de “um regresso à velha política das elites”, onde os mesmos rostos e interesses tentam reconfigurar o poder sob novas bandeiras.

Apesar das dúvidas, Joseph Kabila conseguiu recolocar o seu nome no centro do debate nacional. A sua capacidade de unir uma oposição dispersa e de recuperar credibilidade política permanece incerta, mas o conclave de Nairóbi marca, sem dúvida, o início de um novo capítulo na longa e conturbada história política da RDC, onde cada gesto, cada aliança e cada silêncio parecem parte de um xadrez em constante mutação.

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