
A aproximação pública do líder da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo (Igreja Tocoísta), bispo Dom Afonso Nunes, ao MPLA volta a colocar em debate a neutralidade das instituições religiosas, numa altura em que Angola se prepara para as eleições gerais de 2027.
A posição do líder religioso, depois de uma audiência com a vice-presidente do MPLA, Mara Quiosa, suscita interrogações sobre a fronteira entre o exercício da cidadania e o alinhamento político de uma confissão religiosa, sobretudo quando as mensagens são transmitidas por uma figura com influência espiritual sobre milhares de fiéis.
A questão ganha maior relevância num contexto pré-eleitoral, em que a mobilização para o registo eleitoral constitui também uma dimensão sensível da disputa política e da relação entre os partidos e o eleitorado.
O episódio não é isolado. Em Maio de 2025, depois de uma audiência com Mara Quiosa, Dom Afonso Nunes afirmou que a Igreja Tocoísta continuaria a apoiar o MPLA, justificando a posição com a relação histórica entre as duas instituições, que, segundo declarou, caminharam juntas desde a luta pela Independência Nacional e pela paz.
A declaração ultrapassa o âmbito de uma simples aproximação institucional e coloca a questão do posicionamento político de uma igreja cuja missão, pela sua natureza, exige abertura à diversidade de convicções dos seus membros. Embora as confissões religiosas possam manter diálogo com partidos e instituições públicas, a manifestação de apoio a uma força política levanta dúvidas sobre a imparcialidade da sua liderança no espaço público.
A relação entre Dom Afonso Nunes e o MPLA tem sido marcada por contactos públicos e manifestações de cooperação. Em Julho de 2025, o secretário-geral do partido, Paulo Pombolo, participou, em representação de Mara Quiosa, numa celebração da Igreja Tocoísta, ocasião em que foram destacados os laços entre as duas instituições.
Em Setembro de 2026, o MPLA voltou a apresentar o reforço da cooperação com as confissões religiosas como parte da sua estratégia de diálogo institucional, incluindo a mobilização dos fiéis para a actualização do registo eleitoral.
Neste quadro, a aproximação entre dirigentes partidários e religiosos não constitui, por si só, uma irregularidade. O problema coloca-se quando o diálogo institucional é acompanhado por declarações de apoio partidário, criando uma percepção de proximidade política que pode fragilizar a confiança dos fiéis que não se identificam com o partido no poder.
A própria possibilidade de os membros da Igreja seguirem diferentes opções políticas torna mais sensível o posicionamento público da sua liderança. Em 2023, Dom Afonso Nunes anunciou reformas que passaram a permitir aos crentes filiarem-se em partidos políticos, reconhecendo a liberdade de escolha individual dos fiéis.
A contradição que merece escrutínio não reside, necessariamente, no direito de Dom Afonso Nunes a expressar convicções políticas, mas na eventual confusão entre a sua posição pessoal, a orientação institucional da Igreja e a liberdade política dos crentes.
Num país em que as igrejas desempenham um papel relevante na formação de consciências e na mobilização comunitária, a neutralidade partidária das lideranças religiosas é também uma questão de credibilidade pública.
Com as eleições de 2027 no horizonte, a aproximação ao MPLA coloca, assim, Dom Afonso Nunes perante um desafio de transparência: esclarecer se o apoio declarado ao partido representa uma posição institucional da Igreja ou uma opção de liderança, e de que forma são salvaguardadas as convicções políticas dos fiéis.