Luanda: Doença estranha mata mais de 50 pessoas/mês no bairro Caop – Ministério da Saúde ignora à situação
Luanda: Doença estranha mata mais de 50 pessoas/mês no bairro Caop – Ministério da Saúde ignora à situação
Silvia Lutucuta

Uma doença até agora não identificada que se instalou há quase dois meses nos bairros pertencentes a um dos territórios da cidade capital, mata mais de 50 pessoas por mês na Caop-A e B, no município de Viana, província de Luanda. Será a cólera?

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De acordo com alguns moradores ouvidos pela reportagem do Imparcial Press, na manhã de quarta-feira, 29, a situação, que ainda pertence aos segredos dos deuses, está a deixar preocupados não só os residentes, mas também aqueles que fazem desse ponto de Viana o seu passatempo.

Ainda segundo aqueles moradores indignados, a suposta doença estranha tem provocado a morte de mais de três pessoas por dia – adultos, crianças e idosos -, totalizando, deste modo, um número igual ou superior a 50 pessoas por mês.

António Bento e Florbela Mateus, por exemplo, residentes no bairro da Caop-A há mais de oito anos, dizem ter perdido, há menos de duas semanas, cerca de quatro membros das suas famílias – duas pessoas adultas em cada família -, deixando a comunidade “caopense” perplexa e em pânico.

“A situação aqui na Caop-A não está fácil para ninguém. Há pessoas que estão a pensar em abandonar as suas residências por causa dessa estranha doença que, por dia, mata mais de três pessoas – desde crianças, adultos e até idosos. Não sabemos, realmente, qual é a verdadeira origem das mortes, mas ainda assim presumimos ser resultado de uma estranha doença. Nós, que falámos, infelizmente já perdemos há menos de duas semanas quatro pessoas – duas em cada família”, contaram.

Gaspar João, de 36 anos, morador da comunidade e que disse ter perdido há um mês quatro membros da família, desconfia que as sucessivas mortes que continuam a tirar o sossego dos moradores do bairro Caop, em Viana, resultam única e exclusivamente da péssima qualidade da água que consomem diariamente.

“No mês de Abril, a minha família perdeu quatro membros – duas crianças e dois adolescentes. Não há outra razão senão a água amarela que a EPAL nos fornece diariamente. Não é normal morrerem mais de 3 pessoas por dia numa única comunidade e depois ninguém consegue determinar a causa das mortes”, explicou, chorando.

O mesmo fenómeno foi constatado no bairro da Caop-B, ambos do município satélite, quando um grupo de cidadãos residentes na referida zona decidiu levar a equipa do Imparcial Press para confirmar os factos e ouvir o clamor das famílias que testemunharam a partida prematura de seus membros pela suposta doença estranha.

Quiosa Bernardo e Vicente Jamba, que afirmaram ser moradores da zona há mais de oito anos, mais do que confirmarem a existência da suposta doença estranha que mata três pessoas por dia, fizeram fortes acusações ao Ministério da Saúde que, segundo afirmaram, nada faz para ver a situação alterada.

“Neste bairro, desde o mês de Abril, já morreram cerca de 12 pessoas por conta deste estranho surto que nem sabemos a sua origem, embora desconfiemos que esteja relacionado com o tipo de água que consumimos. Já era altura do Ministério da Saúde pôr fim a esta situação, pois trata-se de vidas humanas. Não é possível o Ministério, mesmo sabendo da realidade, continuar a fingir ignorância total a uma situação tão complexa como esta. Precisamos urgentemente de uma solução, por favor, senhor jornalista, é muita gente a morrer”, pediram.

Carolina Conceição, que se apresentou como responsável da Comissão de Moradores do bairro Caop-A, confirmou ao Imparcial Press, embora sem gravar entrevista, a existência da estranha doença que já causou tantas mortes. Pelo que apelou à pronta intervenção das autoridades a fim de pôr fim à situação.

Chamado a comentar o assunto, Marieth da Costa, cientista social e analista residente do Imparcial Press, mostrou-se solidária com as famílias que supostamente viram o falecimento de seus membros e, seguidamente, condenou a postura silenciosa das autoridades angolanas, com destaque para o Ministério da Saúde, que fingem ignorância e cegueira diante de um facto tão claro como o brilho dos diamantes do leste de Angola.

“[…] Precisamos endereçar, em primeira instância, a nossa solidariedade às famílias afetadas pela estranha doença e, seguidamente, condenar a postura das nossas autoridades, com destaque para o Ministério da Saúde, que, diante de um facto claro, fingem ignorância e cegueira. Governar um povo não significa apenas dar ordens a partir dos gabinetes, significa, acima de tudo, andar nas e pelas comunidades. É isso que a sociologia política recomenda aos políticos. Às vezes, sinceramente, questionamo-nos que tipo de políticos Angola tem!! Portanto, exigimos celeridade na resolução do problema que a todos preocupa”, apelou.

Cólera

Em Março do ano em curso, o Imparcial Press noticiou que desde o início do mês de Janeiro que, em quase todas instituições sanitárias públicas no país, com a maior relevância das províncias do Zaire, Uíge, Cunene, Cuando Cubango, Malanje, Moxico, Huíla, Lunda Norte e Luanda, registam centenas de mortes provocadas pela cólera.

O surto da cólera já levou para à cova milhares de angolanos de várias idades, sobretudo crianças, que correram nos centros de saúde e hospitais numa fase em que a doença se encontra no último estágio. E o mais agravante é que nenhuma instituição de saúde pública tem os reagentes para realizar os testes que se impõe.

Curiosamente, diante do surto que assola o país, o Ministério da Saúde orientou os directores dos gabinetes provinciais e municipais a baixarem as ordens aos responsáveis das instituições de saúde públicas e alguns privados, de todo país, para não informarem aos familiares dos pacientes e das vítimas sobre as verdadeiras causas das mortes.

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