Mentira, em Angola não há turismo – Manuel Rui
Mentira, em Angola não há turismo - Manuel Rui
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Nota: O SISTUR é uma metodologia de estudo de fenómenos turísticos elaborada pelo professor Mário Carlos Beni, em 1998. Ainda hoje se aplica a sua teoria que divide o sistema de turismo em três grandes conjuntos: Relações Ambientais, Organização Estrutural e Acções Operacionais.

Compreende os subsistemas ecológico, económico, social e cultural. Engloba os subsistemas de super-estrutura e da infra-estrutura.

A super-estrutura é o conjunto de normas, regras e leis que regulam o funcionamento da actividade turística. Já a infra-estrutura é composta pela do acesso, a infra-estrutura urbana e outros serviços básicos, como o abastecimento de água.

Em outra página destas aulas que estou a seguir, vem algo mais tangível ao leitor, assim:

  • Plano Nacional de Turismo.
  • Estruturação de vias de acesso aos atrativos.
  • Criação de empregos na localidade turística.
  • Consumo de souvenirs.
  • Preservação dos recursos turísticos naturais.
  • Criação de empreendimentos turísticos.

Compreende a oferta e a demanda, o consumo e distribuição de produtos turísticos.

Agora a triste realidade e a mentira. Não há turismo em Angola. A mentira é que quem vai à Quiçama é visita, não é turista. Os pais que em Lisboa levam os filhos a ver o jardim zoológico não são turistas, mas visitas.

Turismo é o conjunto que engloba viagens de pessoas para outras cidades e países, as actividades que elas realizam nos locais de destino bem como suas despesas.

O turismo enquanto actividade económica integra o sector terciário, e vinha apresentando um crescimento expressivo em todo o mundo até 2019 (cito). A origem etimológica é do vocábulo francês tour (volta).

O turismo destaca-se por ser um dos sectores socioeconómicos mais significativos do mundo, pois movimenta diversos sectores da economia e além de se tratar de um deslocamento geográfico, ele promove trocas que abrangem arte, música, culinária, património cultural material, etc.

Ainda pouco antes da independência, passávamos a ponte e logo do lado esquerdo viam-se imensos antílopes, principalmente pacaças. Meus parentes camionistas tiveram de parar muitas vezes porque os elefantes estavam, pacificamente na estrada.

Pessoas iam para Cabo Ledo, ficavam à pesca e, de madrugada, metiam-se dentro dos carros para observarem os elefantes beberem um bocado de sal. Muito mais tarde, passei uma semana na Quiçama. Só vi hipopótamos, ali perto do acampamento. O caminho já era difícil porque os arbustos não eram cortados. Depois fizeram um aeroporto e pessoas foram viver para a reserva. Era uma das reservas mais singulares do mundo. Com dois rios e o mar.

As guerras de nos matarmos uns aos outros fez com que matássemos a nossa fauna. Já em paz, os caçadores profissionais ilegais continuaram a caçar mesmo aqui bem perto de Luanda. De manhã cedo mandavam dois garotos de moto, o de trás com o saco de sarapilheira e dentro um pequeno antílope já esfolado, com os chifres e a pele.

O turismo é um sistema e tem as suas estruturas. Eu pergunto para a Namíbia e eles têm vários pacotes.

Eu escolho hotel fora da cidade e com casino. Minibus de meia em meia hora para a cidade, pequeno almoço de luxo e depois ir a uma reserva, vejo tudo até rinocerontes e, ao anoitecer, as mães elefantas a dar banho aos bebés. O guia levou-me às girafas. Parou o jipe e elas começaram a comer folhas de árvore que estavam por cima da minha cabeça.

Aqui não há polícia de giro que ajuda as pessoas, ele tem o mapa da cidade, sabe onde procurar um hospital, ele pode pedir uma ambulância. Aqui, se parar um cruzeiro quem vier a terra depara-se com a inexistência de estruturas sanitárias subterrâneas incluindo balneários.

Há guias turísticos, é quase um bacharelato. Eu estava num hotel para onde me mandavam sempre e sempre cheio de japoneses com máscara que tiravam para matabichar self.

Depois enchiam as mochilas de comida. Um dia perguntei ao gerente porquê que ele autorizava. Porque funcionava em rede. O guia vai levá-los a comprar tudo que pertence à nossa rede.

Era bom. Pacote para Malange.

O guia fala inglês, francês e espanhol. Se forem japoneses ele tem uma gravação. Fala na culinária de Malange e no ecrã as imagens. Quem quiser tem dieta ou vegetariana. Também das palancas negras que aparecem nas imagens. Avisa que do sítio onde vão almoçar podem olhar para a cascata. Depois do almoço, quem quiser tem uma hora de aula de Kizomba.

Era bom… Mesmo os “falsos” turistas não chegaram sequer aos 100.000!

Paradoxo, Angola é classificada como um dos países mais acolhedores do mundo. Mas como não há bela sem senão, Luanda, a cidade mais cara do mundo!

Sobre turismo, entre 140 países avaliados, Angola está na 134ª posição… e a comer girafas, por isso é que eu mandei a minha girafa para o Rio e dançar quizomba no Carnaval.

*Escritor e jurista

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