
Quem percorre o Leste de Angola descobre uma curiosidade arquitectónica: o edifício mais imponente de muitas povoações pertence ao MPLA. Onde faltam hospitais devidamente equipados e escolas resistentes à chuva, a sede do partido ergue-se com uma solenidade quase episcopal.
Há localidades onde a arquitectura partidária parece ter alcançado o desenvolvimento que a economia ainda aguarda.
Entrei recentemente numa dessas sedes. Recebeu-me um guarda de extraordinária cortesia, convencido de que eu era dirigente importante. Em Angola, um homem de certa idade, decentemente vestido e com ar pensativo, arrisca-se a ser confundido com membro do Comité Central.
Perguntei pelos responsáveis. Não estava ninguém. Os dirigentes influentes encontravam-se na administração. Restava o edifício, silencioso e impecável, como residência aristocrática cujos proprietários adquiriram moradias mais convenientes.
Lembrei-me dos netos dos milionários. O avô vendia peixe, remendava sapatos e caminhava quilómetros para economizar alguns tostões.
Os descendentes estudam na Europa, conduzem automóveis de luxo e manifestam extraordinária discrição quando alguém recorda que a fortuna começou numa banca de bananas.
Com o MPLA passa-se algo semelhante.
Ando a ler as memórias de Dino Matrosse, particularmente os capítulos dedicados à Frente Leste. Constituem um extraordinário tratado de sobrevivência organizacional.
Em 1964, estabelecer uma representação em Lusaka implicava enfrentar suspeitas das autoridades zambianas, escassez de recursos e rivalidades entre movimentos nacionalistas.
Os militantes procuravam alojamento, transportes e autorização para circular. A independência da Zâmbia não significava liberdade automática para quem pretendia libertar Angola.
A travessia do Zambeze exigiu embarcações improvisadas e negociações delicadas. As armas atravessavam fronteiras escondidas em camiões, entre mercadorias aparentemente inocentes. Um carregamento podia desaparecer num posto de controlo, comprometendo meses de trabalho clandestino.
Hoje, transportar meia dúzia de dirigentes exige uma frota de Land Cruisers, combustível antecipadamente pago e, naturalmente, alguém encarregado de verificar a temperatura da água mineral.
A entrada dos primeiros 41 guerrilheiros, em Abril de 1966, revelou dificuldades ainda maiores. Faltavam alimentos, medicamentos, comunicações e conhecimento do terreno.
Em Kahole, a 18 de Maio, o primeiro combate revelou deficiências de preparação e coordenação. Houve pânico, fogo descontrolado e a morte do guerrilheiro Cerqueira. Matrosse descreve a experiência sem esconder os erros.
É uma franqueza particularmente instrutiva num país onde certos dirigentes parecem considerar a admissão de um equívoco uma infracção disciplinar.
A sobrevivência exigia também diplomacia. Os sobas não eram simples figurantes de cerimónias oficiais. Era necessário compreender as suas autoridades, respeitar os costumes e conquistar a confiança das populações.
Em Lumbala Kakengue, as suspeitas podiam transformar uma reunião em perigo mortal. Matrosse relata encontros difíceis, acusações contra os guerrilheiros e intervenções destinadas a evitar confrontos.
A diversidade linguística constituía outro desafio. Cokwe, luvale, luchazi, mbunda e outras línguas exigiam intérpretes e sensibilidade cultural. O nacionalismo não podia limitar-se a discursos pronunciados numa língua que parte dos destinatários desconhecia.
A agricultura tornou-se igualmente indispensável. Organizaram-se lavras, cultivaram-se alimentos e mobilizaram-se populações para assegurar a subsistência dos combatentes. A guerrilha tinha de aprender a produzir aquilo que não conseguia transportar.
Imagino alguns dirigentes actuais perante semelhante incumbência. Antes de plantar mandioca, provavelmente solicitariam uma comissão multissectorial, três viaturas e uma deslocação de estudo ao estrangeiro.
A assistência médica merece atenção especial. Matrosse descreve a organização dos Serviços de Assistência Médica, o papel de Américo Boavida, a formação de enfermeiros e o atendimento às populações. A medicina não era apenas instrumento militar. Constituiu uma forma concreta de solidariedade, capaz de aproximar guerrilheiros e comunidades.
Convém, naturalmente, confrontar estas memórias com testemunhos da FNLA, da UNITA, das populações e dos arquivos portugueses. A Frente Leste conheceu rivalidades, tensões étnicas e erros estratégicos. A história merece investigação, não canonização.
Regresso mentalmente à sede silenciosa. Gostaria de encontrar nas suas paredes fotografias dos motoristas, intérpretes, enfermeiros, agricultores e combatentes. Gostaria que os jovens dirigentes compreendessem quanto custou construir aquilo que hoje herdaram.
Nas grandes fortunas familiares, a primeira geração trabalha, a segunda administra e a terceira contrata advogados para discutir a herança.
O verdadeiro património de um movimento não reside nos edifícios, mas na capacidade de formar homens e mulheres à altura dos seus fundadores. Os primeiros guerrilheiros lutavam para conquistar território. Alguns sucessores parecem sobretudo interessados em conquistar lugares de estacionamento.
*Jornalista & escritor