Mucubais não praticam sexo de dia — Armando Chicoca
Mucubais não praticam sexo de dia — Armando Chicoca
Mucubais

Quem quiser investigar os factos pode fazê-lo. Aliás, para desafios desta natureza, as autoridades da província do Namibe estão sempre abertas a dossiês de investigação. Na província, os profissionais da comunicação social têm sido desafiados a mergulhar no mundo da cultura mucubal.

A educação nas comunidades locais sobre a valorização da mulher mucubal começa desde tenra idade. Haja sol ou vento, em momento algum a mulher mucubal desprotege as partes íntimas do seu corpo, inclusive as crianças.

É comum uma criança do sexo masculino exibir a nudez, mas, para uma rapariga, isso é impensável. Entre os mucubais, não se pratica sexo à força. Aliás, essa é uma conduta inexistente.

Como se casam?

À medida que as crianças crescem, os progenitores já iniciam o processo de escolha dos futuros cônjuges. No entanto, a primazia cabe aos tios, que escolhem raparigas (filhas das irmãs) para os seus filhos, ou vice-versa.

O direito matrilinear tem grande relevância: os tios — irmãos da mãe — detêm autoridade sobre os sobrinhos, com base na crença de que “é o sangue do meu sangue”; ou seja, tudo o que vem do ventre da minha irmã é meu. Cabe, portanto, aos tios a responsabilidade sobre o casamento dos sobrinhos.

Para valorizar a mulher, nenhum casamento se realiza sem a entrega mínima de três bois, exigidos pela tradição:

  1. Namatuca
  2. Yokowina
  3. Thuinha

Cada um desses bois tem um significado específico. O Thuinha é destinado à festa; o Yokowina, para “comprar” todos os filhos que a mulher vier a gerar. Se o pagamento não for feito, os filhos não pertencem ao marido, mas sim ao avô materno.

Adultério

Após o pagamento dos três bois, o homem assume oficialmente a responsabilidade sobre a esposa. Nas comunidades mucubais, não há espaço para o ciúme, mas também não há mulher que despreze ou desrespeite o marido.

Caso uma mulher cometa adultério e seja apanhada, não há vingança ou violência. O marido apenas pronuncia a palavra “umbapo”, que significa “deixa alguma coisa no chão”, como símbolo de que viu o acto.

Conforme os costumes, a outra parte — sem conflitos ou mentiras — deixa no chão um pano, uma faca ou uma catana (objectos que todo homem mucubal carrega).

O marido recolhe o item e leva-o ao soba. A corte tradicional pune o prevaricador com o pagamento de três bois, que são responsabilidade dos tios do infractor.

O mais curioso é que, durante a transumância — período em que os homens acompanham o gado por localidades distantes —, o homem pode ausentar-se por dois ou três anos. Ao regressar, pode encontrar a esposa com um ou dois filhos gerados com outros parceiros.

Nessas circunstâncias, o marido não pode, nem deve, questionar a mulher sobre a paternidade dos filhos. A lógica é simples: “A mulher é minha. Quem fizer filhos nela, perde-os”.

A mulher, mesmo em estado de embriaguez, não pode afirmar que o filho não é do marido. “Como podem ver, não há espaço para crimes de violência doméstica nas comunidades mucubais”, relata a fonte.

Conduta social

As comunidades mucubais avançam sustentadas na harmonia interna. As meninas só podem iniciar a vida sexual após a puberdade. Já a mulher adúltera não sofre castigo, pelo contrário, traz riqueza para a família através dos bois.

Fazendo filho na mulher de outro, o filho não é teu. E o homem que agredir uma mulher será socialmente excluído, deixando uma marca de vergonha nas gerações seguintes.

É importante salientar que, antes da chegada da civilização europeia — em particular a portuguesa, no caso angolano —, as comunidades locais como os mucubais já possuíam normas de conduta que orientavam o seu quotidiano.

Os ovakuvale ou mucubais habitam exclusivamente a província do Namibe, preservando ainda cerca de 90% da sua cultura ancestral.

Nos dias de hoje, muitas questões são levantadas sobre o modo de vida tradicional dessas comunidades. Uma das mais intrigantes: por que não há violência doméstica entre os mucubais?

A resposta parece simples: quem for apanhado, paga três bois — Yokowina, Namatuca e Thuinha.

Assim, reforça a fonte: “Não há violência doméstica. Não há mulheres e raparigas violadas. Não há brigas por ciúmes, nem mortes por razões passionais. Os homens não se matam por causa de uma mulher”.

E, sobretudo, “não se veem nos rostos das mulheres sinais de agressão”.

Além disso, nessas comunidades, “não se pratica sexo durante o dia, para não matar os animais”.

*Jornalista

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