
A Comissão Nacional Eleitoral (CNE) declarou, há alguns meses, a empresa espanhola INDRA vencedora do concurso destinado à gestão das componentes logística e informática das eleições gerais de 2027.
O Partido Liberal interpôs recentemente uma providência cautelar para a anulação do concurso. Calma! Muita calma nessa hora. Vamos lá ver se nos entendemos.
A INDRA é uma empresa espanhola especializada em tecnologia, logística e assistência eleitoral. Transformou-se no bode expiatório da UNITA e de sectores da Sociedade Civil. Esteve associada à componente tecnológica das eleições gerais de 2022. A UNITA contestou os resultados. Denunciou irregularidades. Questionou a transparência do processo.
A INDRA passou a simbolizar as dúvidas em torno das eleições de 2022. Mas o alvo está errado. Bate-se no Chico. Poupa-se o Francisco. A crítica à INDRA parece inspirada pelo velho anexim ibérico: “De Espanha nem bons ventos nem bons casamentos”.
Não sou causídico da INDRA. Muito menos tenho procuração para falar em nome dela. A questão central continua a ser a mesma: A CNE. Nenhuma empresa substitui a instituição que organiza, conduz e valida o processo eleitoral.
A INDRA tornou-se o rosto visível de um problema mais profundo. Está a confundir-se o instrumento com o problema. O buraco fica mais acima. Na gramática eleitoral, a CNE é o sujeito.
A INDRA surge apenas como complemento. A discussão começa na instituição que contrata. É a CNE que organiza as eleições. Conduz o processo. Conta os votos. Proclama os resultados. Responde perante os cidadãos, os partidos e a lei. O problema está na confiança. Confiança na CNE. Confiança nas regras. Confiança no processo.
Uma eleição credível nasce de instituições credíveis. Sem confiança institucional, qualquer fornecedor será alvo de suspeitas. Ontem foi a INDRA. Amanhã será outra empresa. A controvérsia vai permanecer. Troca-se o fornecedor. Mantêm-se as dúvidas. O problema está no sistema.
Avant-papier – Enquanto decorre o debate sobre a composição e a credibilidade da CNE, surge um dado adicional: O jornalista e director do semanário Folha 8, William Tonet, foi indicado pela UNITA para comissário da CNE.
A Margem do Erro apurou, junto de fonte da 1.ª Comissão da Assembleia Nacional, que a proposta poderá encontrar resistência no Parlamento. O motivo é conhecido. Sobre a proposta paira uma condenação com pena suspensa de quatro anos. Esse facto poderá ser utilizado para inviabilizar a sua indicação. Nada está decidido. Mas o dossiê já circula. E pesa. O passado continua sentado à mesa das decisões.
*Jornalista