Norberto Garcia e o mistério da madrugada – Kamalata Numa
Norberto Garcia e o mistério da madrugada - Kamalata Numa
Norberto Garcia

Entre a versão do ataque durante exercícios físicos, as divergências iniciais sobre o horário e o local e a pergunta inevitável sobre a ausência da sua segurança, há dúvidas que exigem esclarecimento — sem transformar suspeitas em acusações.

A minha solidariedade para com Norberto Garcia pelo momento difícil que viveu, entre a vida e a morte, numa experiência que, pela sua gravidade, não pode ser tratada com ligeireza nem com o cinismo de quem só se preocupa quando a violência bate à porta de alguém conhecido.

O que aconteceu com ele deve também fazer-nos recordar aquilo que outros angolanos sentiram no Uíge e em Kazombo, nos dias 8 e 24 de Agosto de 2026, respectivamente, porque a segurança de um cidadão não pode ser considerada importante apenas em função do seu nome, da sua posição social ou da sua proximidade ao poder.

Como angolano que deseja uma Angola mais segura para todos, indigna-me que um cidadão possa ser atacado com armas brancas durante uma actividade física e, ao mesmo tempo, preocupa-me que as primeiras informações públicas sobre o episódio apresentem versões que não coincidem integralmente quanto ao horário e ao local.

Há relatos que situam a ocorrência por volta da uma hora da madrugada, na Avenida Pedro de Castro Van-Dúnem Loy, enquanto outras publicações apontam para o complexo do Boavida e outras ainda apresentam o episódio como tendo ocorrido durante a noite, sem confirmação inicial do local exacto.

E aqui começa precisamente o exercício que interessa ao cidadão: não o exercício físico de Norberto Garcia, mas o exercício intelectual de fazer perguntas.

Que fazia um cidadão naquela hora, naquele local e sozinho?

Era efectivamente uma rotina habitual?


Quem conhecia essa rotina?

Havia guardas e segurança pessoal?

Se havia, onde estavam?

Se não havia, porquê?

E se as circunstâncias foram exactamente aquelas que estão a ser relatadas, como foi possível que dois indivíduos armados se aproximassem, atacassem e fugissem?

Estas perguntas não constituem uma acusação contra ninguém; são perguntas elementares que uma investigação séria deve responder.

O episódio torna-se ainda mais intrigante quando se observa a estranha combinação entre hora, lugar, rotina, vulnerabilidade e oportunidade. Não se trata de dizer que a versão do assalto é falsa; trata-se de perguntar se ela, por si só, consegue explicar satisfatoriamente tudo aquilo que aconteceu.

Segundo o relato divulgado, Norberto Garcia teria sido surpreendido por dois indivíduos armados com faca e catana enquanto praticava exercício, tendo sofrido ferimentos no abdómen, mãos e pernas, e posteriormente recebido assistência médica.

Muito bem: se foi um assalto, importa saber o que os presumíveis assaltantes pretendiam roubar; se não houve roubo ou se o objectivo não foi patrimonial, a investigação terá naturalmente de procurar outras hipóteses; se houve perseguição, ameaça ou qualquer conflito anterior, isso também deverá ser apurado; e se nada disso existiu, então teremos simplesmente de aceitar, depois de devidamente demonstrado, que dois homens armados decidiram atacar aleatoriamente alguém que fazia exercício.

Mas é precisamente aqui que o cidadão comum começa a franzir a testa e perguntar:
será que a história termina realmente na palavra “assalto”?
Poderá ter sido um crime comum?
Poderá existir uma motivação pessoal?
Poderá haver um conflito anterior que ainda não é conhecido?
Poderá existir uma motivação política?
Ou poderá simplesmente tratar-se de uma ocorrência criminosa sem qualquer relação com essas hipóteses?

Não sabemos. E porque não sabemos, não devemos preencher o vazio com imaginação. O jornalismo responsável, a Polícia e a investigação criminal têm precisamente a obrigação de transformar o “não sabemos” em “sabemos”, através de factos, testemunhos, imagens, perícias, identificação dos autores e reconstrução cronológica dos acontecimentos.

O sarcasmo, neste caso, pode ajudar a formular a pergunta, mas não pode substituir a prova: seria fácil dizer que em Luanda até para fazer exercício físico já é necessário marcar hora, escolher o itinerário, contratar segurança e talvez levar consigo um treinador, um advogado, uma testemunha e, quem sabe, um pequeno comité de investigação preventiva.

Só faltará recomendar que o cidadão faça jogging acompanhado por uma comissão parlamentar! Mas por trás da ironia existe uma questão muito séria: se um cidadão conhecido e com responsabilidades públicas pode ser surpreendido desta maneira, que segurança resta ao cidadão anónimo que corre, caminha ou simplesmente regressa a casa?

Por isso, o ataque contra Norberto Garcia não deveria ser transformado nem numa oportunidade para fabricar culpados nem numa oportunidade para encerrar prematuramente a discussão com a palavra conveniente “assalto”.

Uma sociedade de Direito não funciona por versões convenientes; funciona por factos verificáveis, investigação, contraditório e responsabilização dos verdadeiros autores.

E aqui surge uma segunda dimensão política que não pode ser ignorada: Angola atravessa um período em que o discurso oficial sobre paz, estabilidade, reconciliação e segurança precisa de encontrar correspondência concreta na vida dos cidadãos.

Se o discurso de João Manuel Gonçalves Lourenço na ONU pretende projectar para o exterior uma Angola comprometida com a paz, o diálogo inclusivo e o Estado Democrático de Direito, esse compromisso não pode ficar apenas no palco internacional enquanto, dentro do país, persistem acontecimentos que alimentam nos cidadãos a sensação de insegurança, ataques a Bandeira da UNITA e ao seu Presidente Adalberto Costa Júnior, desconfiança e impunidade.

É neste sentido que o caso Norberto Garcia deve ser investigado com seriedade, transparência e sem selectividade: não porque ele seja dirigente, responsável público ou figura politicamente conhecida, mas precisamente porque a segurança deve ser um direito do cidadão e não um privilégio de quem possui protecção.

E quanto às perguntas que ficam — porquê aquela hora, porquê aquele lugar, porquê aquela forma de ataque, onde estavam os seus guardas, quem conhecia a sua rotina e qual foi realmente a motivação dos atacantes? — elas não são acusações; são o ponto de partida de uma investigação.

Quanto às hipóteses de crime passional, acerto de contas político ou simples criminalidade comum, nenhuma deve ser transformada em verdade antes da prova. A democracia também se mede pela capacidade de uma sociedade resistir à tentação de inventar respostas antes de conhecer os factos.

Afinal, quando a madrugada tem uma história para contar, não basta perguntar quem correu: é preciso descobrir quem esperava, quem sabia, quem atacou, porquê e quem estava onde deveria estar.

*Antigo deputado à Assembleia Nacional

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