O congresso das facas longas – Jorge Eurico
O congresso das facas longas – Jorge Eurico
sede Mpla

O Presidente (cessante) da República concedeu uma entrevista à CNN. Confirmou o óbvio: Não vai tentar um terceiro mandato. A vontade de permanecer no poder existe. Mas a Constituição impede-o.

Para os seus protegidos, seria a garantia de privilégios e impunidades. O poder seduz. Concede o gosto amargo de perseguir adversários. Humilhar carismáticos. Beneficiar amigos. Tudo aquilo que prometeu combater.

A governação de João Lourenço deixou famílias vulneráveis. Aumentou a carestia. Estrangulou a Comunicação Social. A Segurança Pública tornou-se insegura. A magistratura termina sem honra nem glória.

O IX Congresso do MPLA promete surpresas. Sucessão em chamas. Adão de Almeida, Manuel Homem, Pereira Alfredo e Isaac dos Anjos são nomes que circulam como possíveis herdeiros. Todos carregam a sombra e o ónus do padrinho: João Lourenço. Azar. Peçonha. Karma. Estigma de continuidade.

O MPLA e o País dificilmente vão aceitar candidatos “abençoados” por João Lourenço. A menos que, a meio do mandato, se virem contra o seu patrono. Tal como o Presidente cessante fez com o seu antecessor. Pagar com traição quem lhe abriu a porta. Morder a mão que estendia o pão.

Mas a disputa não se limita ao MPLA. Paralisa o País. A economia hesita. Investidores recuam. Negócios aguardam ordens que ninguém quer assinar. A Administração Pública trava. A Sociedade Civil perde voz. As próximas eleições podem nascer viciadas por um clima de incerteza.

O MPLA enfrenta um dilema: Submeter-se ao futuro ex-Presidente ou assumir autonomia. Qualquer caminho comporta riscos. Rancores ou retaliações de quem ainda controla recursos. Contam-se espingardas. Afiam-se facas. Prepara-se um congresso de lâminas longas.

João Lourenço vai tentar manter-se no comando do partido. Uma espécie de terceiro mandato. Procura a bicefalia, fórmula que negou ao seu predecessor. Vai ensaiar repetir o poder absoluto de José Eduardo dos Santos. Mas não tem a mesma rede, nem o mesmo controlo.

O partido tende a devorá-lo. Como Cronos devorava os filhos: Metáfora antiga de um poder que consome os seus próprios protegidos. O futuro do MPLA pertence aos militantes. O do País, a todos. Angola observa. À espera. Num jogo em que poucos aceitam perder. E muitos já preparam a cobrança da conta.

O País já conheceu este enredo. Mobutu também acreditou que poderia controlar a sucessão. Manter a influência a partir das sombras e dirigir o Estado depois de abandonar o palácio presidencial no Zaire. Descobriu tarde que o poder sem legitimidade não dura. Que os protegidos de ontem são os primeiros a desaparecer quando a maré vira.

João Lourenço arrisca o mesmo destino: Pretender governar sem mandato. Dirigir sem presença. Influenciar sem autoridade. A História africana é clara com quem insiste em ficar depois de ter chegado a hora de sair. Angola conhece o desfecho. E ele nunca é pacífico.

*Jornalista

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