O declínio da experiência militar em Angola – Lando Simão Miguel
O declínio da experiência militar em Angola - Lando Simão Miguel
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Os Estados Unidos voltaram a colocar o sistema político e militar internacional sob pressão, testando a eficácia das atuais políticas de segurança e defesa, sobretudo após os recentes acontecimentos na Venezuela e as fortes ameaças dirigidas inclusive a alguns dos seus aliados, como a Dinamarca.

Este cenário tem provocado apreensão global, levando diversos países a reavaliar, ainda que tardiamente, as suas estratégias de segurança nacional. Como se costuma dizer, “antes tarde do que nunca”.

Regiões como a Gronelândia, o Irão e Cuba, entre outras, enfrentam um clima de elevada tensão perante a imprevisibilidade da atuação norte-americana. Tal contexto suscita a questão sobre quem poderá conter esta postura militar assertiva e a tendência de assumir um papel de polícia global.

No caso africano, o desafio é ainda maior. A reduzida prioridade atribuída ao investimento na indústria de defesa coloca muitos países do continente numa posição de vulnerabilidade estratégica, frequentemente obrigados a aceitar imposições externas.

Apesar de o Egipto figurar entre os 20 exércitos mais bem classificados do mundo, a Argélia ocupar a 26.ª posição e a Nigéria a 31.ª, estes Estados continuam a enfrentar dificuldades significativas na modernização das suas forças armadas.

A África do Sul, situada na 39.ª posição do ranking global, enfrenta desafios semelhantes. Angola, por sua vez, encontra-se entre os 75 exércitos mais bem posicionados, ocupando especificamente o 56.º lugar entre as maiores potências militares, segundo a Global Firepower.

A posição ocupada por Angola nos rankings internacionais de capacidade militar pode, à primeira vista, parecer surpreendente. No entanto, tal classificação é influenciada pelo historial das Forças Armadas Angolanas, marcado por décadas de conflitos internos que contribuíram para o desenvolvimento de competências operacionais relevantes no contexto nacional.

O país dispõe de um contingente militar que se enquadra nos padrões regionais, estimado em cerca de 107 mil efetivos. Contudo, a experiência acumulada ao longo dos períodos de guerra tem vindo a diminuir progressivamente, resultado natural dos processos de reforma que afastaram das fileiras muitos dos principais protagonistas dos conflitos passados. Esta renovação geracional, embora necessária, tem provocado uma redução da experiência prática em larga escala.

Outro desafio significativo reside no parque de equipamentos militares ainda em utilização. A manutenção destes meios tem-se revelado complexa, sobretudo porque grande parte do material é de origem soviética, o que dificulta a adaptação às exigências tecnológicas contemporâneas.

Assim, as capacidades operacionais permanecem limitadas, adequando-se sobretudo à defesa interna, mas revelando lacunas importantes quando comparadas com os padrões modernos de defesa e segurança.

Face à natureza complexa e dinâmica dos conflitos contemporâneos, torna-se de extrema relevância proceder a uma reavaliação aprofundada das políticas nacionais de segurança e defesa.

Entre as medidas estratégicas que podem fortalecer a capacidade militar do país, destaca-se a criação de um centro de investigação científico-militar, capaz de produzir conhecimento especializado e apoiar a modernização das Forças Armadas.

Paralelamente, seria pertinente promover mecanismos de colaboração com oficiais-generais, oficiais superiores, capitães, oficiais subalternos e sargentos já na reforma, permitindo que estes transmitam a sua experiência acumulada às novas gerações de militares.

A integração deste capital humano qualificado pode contribuir significativamente para a consolidação e o desenvolvimento contínuo do Exército angolano.

*Investigador em Segurança e Defesa

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