O desporto e a cultura democrática – Adebayo Vunge
O desporto e a cultura democrática - Adebayo Vunge
adebayo

A democracia é uma ferramenta importante para a gestão e organização da sociedade. Como dizem alguns, ainda é dos males o menor. Portanto, também ao nível do desporto se aplica essa premissa, sob vários pontos de vista.

Democracia em termos de acesso mediante programas de massificação da actividade desportiva, anulando-se factores de exclusão como o rendimento das pessoas, o seu local de habitação e outros.

Mas, o que me chama aqui atenção sobre a questão da democracia no desporto é o tema das eleições visando fechar e iniciar um novo ciclo olímpico.

Por estes dias, temos visto, portanto, eleições um pouco por todas as federações e associações provinciais, nas mais diversas modalidades desportivas. Chama, por isso, atenção também os resultados dessas mesmas eleições porque denotam uma, ainda, muito fraca cultural eleitoral dos mais diversos players, principalmente entre os concorrentes e o eleitorado.

De um lado, acompanhamos candidatos de toda a sorte, vendendo sonhos e ilusões de toda a sorte, só nos faltando alguém que nos fizesse acreditar que as nossas selecções poderiam disputar com alienígenas em qualquer das modalidades. Mas, não vimos apenas isso.

Tivemos candidatos que mal conseguiam balbuciar as suas ideias e projectos, mas o que mais me assustou foram os candidatos ou listas de candidatos que não conseguiram defender as suas ideias e principalmente o seu trabalho, nalguns casos com resultados interessantes em termos da melhoria da prestação das nossas selecções e mesmo da organização desportiva.

Tomo o exemplo dos casos do futebol e da natação. No futebol, nunca a selecção teve prestações continentais tão assinaláveis, embora tenhamos conseguido uma participação no Mundial de Futebol da Alemanha em 2006.

Na natação, para além da organização de provas, é interessante perceber o crescimento de atletas, ultrapassando-se aquela ideia preconcebida de uma modalidade de elite, com castas dominantes.

Estranhamente, o eleitorado seguiu novas ideias e abordagens, dando a vitória aos oponentes dos mandantes de então. É claro que em nome da democracia, devem ser respeitados os resultados eleitorais.

Mas, isso não nos podemos deixar de ignorar a análise sobre o que explica determinados comportamentos, num tempo em que esperamos mais do desporto nacional.

Tenho para mim que a falta de cultura democrática, a falta de treinamento da maioria das pessoas, mesmo aquelas mais letradas para exercícios de retórica levam a que, muitas vezes, as pessoas tenham imensas dificuldades para expor as suas ideias em público.

Mais grave, leva a que a maioria das pessoas facilmente seja seduzida pelo discurso fácil, geralmente carregado com doses cavalares de populismo. No nosso seio, portanto, no desporto como na política, o populismo é um caminho fácil e com ele se consegue, rapidamente, manipular as ideias e a acção de quem tem o voto na matéria.

É claro que em nome do fair-play, as pessoas devem saber perder, mesmo quando têm a convicção de que as coisas poderão se danificar e algum trabalho ficar pelo caminho com os chamados retrocessos. São essas coisas, entre outras, as críticas que se fazem hoje à democracia.

Não tenho dúvidas de que os nossos níveis de maturidade e de cultura democrática são baixos. Mas, a democracia é um processo, faz-se com erros e avanços das aprendizagens sobre os erros.

A democracia faz-se com democratas, aqueles que aceitam as regras do jogo à partida, independentemente dos resultados. A democracia faz-se com uma predisposição para respeitar a vontade popular e não descer ou ceder à tentação de perpetuar o poder longe dos cânones e das balizas.

Do mesmo modo, a democracia obriga a que os perdedores também respeitem a vontade popular ou do eleitorado e não criem bloqueios e situações que inviabilizem a gestão ou a governação, duma federação, dum clube, duma organização partidária e até mesmo dum país.

Nesse novo ciclo das associações ou federações desportivas, lá se vai o tempo em que tínhamos uma confusão de caciques políticos no desporto, com mandatos longevos e sem qualquer transparência em termos de gestão. Diante da nova era, felizmente não se fala tanto em judicialização o que denota maior rigor e justeza dos processos eleitorais.

Por fim, vale esperar que não se perca o legado do passado. Nunca como hoje vivemos tão apaixonados com a nossa selecção. Nunca os jogadores estiveram tão orgulhosos de representar a nossa selecção. As makas internas ficam tratadas na sala ou no quarto, não precisando de transpirar tudo cá para fora, o que abala sempre a credibilidade do desporto.

Boa sorte para todos os eleitos nas federações nacionais.

*Jornalista

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido