O dilema dos 50 anos da Independência de Angola – Carlos Kandanda
O dilema dos 50 anos da Independência de Angola - Carlos Kandanda
carlos kandanda

A reconciliação nacional tornou-se o tema central das celebrações dos 50 anos da Independência de Angola. O Congresso Nacional da Reconciliação (promovido pela CEAST), o Culto Ecuménico (que teve lugar no Estádio 11 de Novembro) e o acto central de 11 de Novembro de 2025, tiveram como o tema de destaque a reconciliação nacional.

No ponto de vista político isso revelou que o povo angolano almeja a reconciliação nacional, em termos reais, com actos concretos, capazes de alterar significativamente o «status quo» que permaneceu no país desde 1975.

A unidade e a reconciliação nacional sempre foram os temas centrais durante a luta anticolonial até aos dias de hoje. Isso passou por várias fases e por diversas etapas mais ferozes e sangrentas. A vontade de alcançar a reconciliação nacional, no seu verdadeiro sentido de palavra, nunca faltou no seio do nacionalismo angolano.

A questão que se coloca é de que, desde a luta anticolonial nunca houve a clareza e o consenso sobre a angolanidade, a cidadania, o pluralismo, a legitimidade de conduzir a luta anticolonial e a legitimidade de governar Angola.

Para entender melhor este fenómeno, convínhamos buscar a origem de nome Angola, na qual Portugal anexou todos os territórios de outras nações que foram invadidas e ocupadas, transformadas numa Colónia Portuguesa.

A origem de nome “Angola” pode permitir-nos descobrir a fonte principal das nossas divergências sobre a nacionalidade angolana que continuam até neste momento. É um tema muito sensível que se tornou num tabu, que muita gente não tem coragem de abordar abertamente.

Todavia, dados históricos revelam-nos que, o nome de “Angola” derivou do nome “Ngola” que era o título dos reis do Reino do Ndongo e de Matamba. As vezes era conhecida por “Ngola Kiluanji” ou por “Ngola Inene”.

O Reino do Ndongo foi ocupado em 1618, com a queda da capital, o Pungo a Ndongo. O rei Ngola Kiluanji e a sua irmã, rainha Nzinga Mbandi, resistiram a invasão portuguesa a partir de Malange, onde em 1631, o Reino de Matamba foi fundado pela rainha Nzinga Mbandi.

No entanto, o Reino do Ndongo foi transformado numa colónia de Portugal com o nome de “Angola”, ao qual os outros territórios de outros Estados e outras nações africanas, conquistados pelo Portugal, foram anexados.

Para dizer que, Angola que temos hoje originou do Reino do Ndongo e de Matamba, do povo Ambundu, que são nativos das actuais províncias de Luanda, do Bengo, do Icolo e Bengo, de Cuanza Sul, de Cuanza Norte e de Malange.

Existe a interação e a afinidade étnico linguística entre os povos do Reino do Congo e do Reino do Ndongo e de Matamba. Pois, o termo «Ngola» ou «Ngolo», em kimbundu e em kikongo, significa: força, poder, autoridade ou soberania.

No caso de ovimbundu, “Ngola” é o designativo de um «grupo ovimbundu» cuja genealogia política, e mesmo consanguínea, é originaria de «Ngola Mbundu». (Hauenstein, A. 1983:67).

Neste caso específico, a genealogia materna (Helena Mbundu) de Dr. Jonas Malheiro Savimbi é de Pungo a Ndongo, que era a capital do Reino de Ndongo. Isso para dizer que, Jonas Savimbi era da etnia Ambundu e da etnia Ovimbundu.

Aliás, no povo Ovimbundu encontra-se muitas famílias com nome de Ngola e de Ngolo, como é o caso específico de Isaías Henriques “Ngola” Samakuva, e de Eugénio Antonino “Ngolo” Manuvakola.
No caso de povo Hanya “Ngola” é o título de chefe ou do rei. Aliás, muitas etnias angolanas têm o nome de “Ngola” e de “Ngolo” com significados específicos e semelhantes.

Enfim, se fazermos um estudo mais amplo e profundo chegaremos a conclusão de que, o povo Ambundu expandiu-se em várias direcções: ao litoral sul, ao Planalto Central, e às Lundas, onde se convergiram com o povo Imbangala de Kasanje – os Jagas.

Nesta referência, o povo Imbangala desempenhou o papel determinante na fundação, na defesa e na manutenção dos Estados de Matamba, de Kissama e de Kasanje. Este povo guerreiro se encontra no corredor entre o rio Cuanza e o rio Cuango, isto é, no espaço geográfico entre os reinos de Matamba, de Lunda-Tchokwe e do Planalto Central – o Reino do Bailundo.

Além disso, o povo Imbangala estabeleceu as alianças estratégicas com a rainha Nzinga Mbandi contra a expansão portuguesa, bem como na libertação do Reino da Matamba da vassalagem do Reino do Congo. Neste contexto, é sabido que o Reino de Matamba pagava tributos ao Reino do Congo e ao império Lunda-Chokué.

Este facto sociológico indica-nos três aspectos importantes que caracterizaram as relações bilaterais entre os três Reinos: a afinidade etnocultural, a hierarquia institucional e a supremacia política.

A própria Nzinga Mbandi refutava aos portugueses dizendo que, cito: «fala-se de tributo àqueles a quem se conquistou». Esta frase filosófica da Nzinga Mbandi faz-nos deduzir que, os Reinos de Ndongo e de Matamba, de alguma forma, sujeitava-se ao Reino do Congo e ao Império Lunda-Chokué aos quais pagava tributos.

Importa-me dizer que, no processo das guerras de conquistas, da ocupação de territórios, do tráfico negreiro e da colonização, Portugal aplicou a estratégia de dividir, reinar e utilizar os africanos como instrumentos de poder, de repressão, de exploração e de opressão.

Os colonos portugueses fizeram tudo para induzir nas mentes dos africanos «conceitos» de complexos de superioridade e de inferioridade. Os regimes autoritários africanos herdaram esta cultura de supremacia e de superioridade político-partidária.

Sobretudo, a colonização cultural, o obscurantismo e a lavagem cerebral foram instrumentos poderosos de colonização e da exploração dos africanos. No caso concreto de Angola, a doutrina colonial portuguesa baseou-se na discriminação e no racismo através da “Política da Assimilação” e do “Indigenato”, que teve o impacto sociocultural devastador.

E, no processo da descolonização serviu de modelo político. Em Angola, este modelo político foi herdado, baseando-se nas ruínas etnoculturais dos antigos reinos.

Em termos concretos, o nacionalismo angolano teve como pilares etnoculturais os reinos do Congo (FNLA), de Ndongo e de Matamba (MPLA) e de Bailundo (UNITA). De entre os três movimentos de libertação nacional existia o preconceito de superioridade etnocultural, que dividiu os três movimentos.

O «epicentro da divergência» foi o Reino do Ndongo e de Matamba, do qual derivou o nome de Angola, e ao qual, os outros reinos pré-coloniais foram anexados sucessivamente na medida em que foram invadidos e ocupados.

Na resistência titânica e prolongada de Ngola Kiluanji e da sua irmã Nzinga Mbandi contra a ocupação portuguesa, os reinos de Ndongo e de Matamba se aproveitou da sua condição geográfica (de estar no meio dos grandes reinos) forjar as alianças estratégicas contra a expansão portuguesa ao interior do País.

E, mais tarde, quando o Reino de Matamba (1631-1744) ficou derrotado definitivamente pelo Portugal, houve uma aproximação (em termos de Acordos de Amizade e de Cooperação Bilateral) entre os dois reinos.

Assim que Luanda cresceu como a capital do poder colonial em Angola em detrimento de Mbanza Congo, que foi o primeiro reino africano (nesta região) a acolher os emissários do Reino de Portugal e estabelecer as relações diplomáticas com Lisboa e com Vaticano.

Os acordos, acima referidos, foram tidos em devida consideração pelo Portugal na altura da descolonização. Por isso, além dos Acordos de Alvor, houve acordos secretos entre Portugal e MPLA, na qualidade de «suposto representante legítimo» do Reino do Ndongo e de Matamba.

Na base disso, Portugal influenciou as potências ocidentais para ignorar os Acordos de Alvor e deixar a Rússia e a Cuba intervirem ao lado do MPLA no sentido de respeitar os acordos celebrados entre o poder colonial português e o Reino do Ndongo e de Matamba. A Emenda Clarke, do Congresso americano, foi o fruto da diplomacia do Movimento das Forças Armadas (MFA) de Portugal.

Dali reside o «preconceito de superioridade» enraizado no MPLA de se considerar como sendo o «único» representante legítimo do povo angolano, quer na luta anticolonial quer no processo da descolonização. A questão da «legitimidade política» iniciou muito cedo durante a luta anticolonial entre os três movimentos de libertação nacional.

Mesmo no Alvor, a questão da nacionalidade estava na mesa negocial. Infelizmente, esta questão não foi devidamente esclarecida por falta da vontade política, por falta da boa-fé e por falta da transparência de Portugal em todo processo da descolonização.

Portugal, como poder colonizador, não assumiu integralmente a sua responsabilidade perante o povo angolano na descolonização do País. Pelo contrário, Portugal apoiou-se na política da conspiração, da desestabilização e da criação do sistema neocolonial em Angola.

Em síntese, se olhar ao contexto sociocultural de Angola veremos que, logo após a declaração unilateral da independência nacional, em 1975, o Reino do Ndongo e de Matamba foi o primeiro alvo do regime do MPLA que ficou reprimido; as suas instituições foram desfeitas; a língua kimbundu foi banida; e a cultura portuguesa foi imposta com vigor do que no tempo colonial.
Em Luanda não se podia atrever falar em línguas africanas, muito menos em Kimbundu.

Basta visitar os túmulos do Rei Ngola Kiluanji e da Rainha Nzinga Mbandi para ver em que condições se encontram. O Rei Diba Ngola Njungo, o 45º Rei do Reino do Ndongo e de Matamba, vive em condições precárias e humilhantes, num dos bairros pobres da cidade de Malange.

Tudo isso para despertar as nossas mentes, e sobretudo da juventude, e entender melhor como os reinos do Ndongo e de Matamba foi utilizado falsamente como instrumento político do MPLA.

O discurso do Presidente João Lourenço, do dia da Independência Nacional, revela tudo o que acabei de escrever detalhadamente neste artigo de reflexão. Não se falou nem sequer uma palavra sobre os Acordos de Alvor e sobre a democracia.

Para o MPLA, “Angola” significa MPLA. Na lógica do MPLA, a guerra fria e a guerra civil foram travadas entre os estrangeiros da FNLA e da UNITA contra “Angola,” que é o MPLA.

Nesta lógica, como pode fazer a reconciliação nacional se a nacionalidade angolana é discriminatória e restringida a um partido que se considera o único representante legitimo de Angola?

Este é o fundo da questão que as elites políticas, cívicas e religiosas do nosso país evitam abordar abertamente. Logo, enquanto não houver a clareza e transparência na definição de “Angola” e de “Angolanidade” não será possível afirmar a cidadania e alcançar a unidade e a reconciliação nacional entre todos os angolanos de diversas origens étnicas e de opções políticas distintas.

Logo, como povo, continuaremos a ser manipulados, explorados e oprimidos por um Partido que se considera o «único» representante legítimo do povo angolano, com o «direito absoluto» de manter o poder político. Com efeito, vamos fingindo de que estamos no caminho certo de reconciliação, enquanto na prática estaremos na mesma condição discriminatória e divergente.

Pois, a narrativa do regime e dos seus órgãos de comunicação social tem sido consistente e implícito na «definição» de Angola como sendo MPLA. O discurso do Presidente João Lourenço, do dia 11 de Novembro de 2025, está cheio de omissões e de distorções dos factos históricos, ocultando a verdade.

Isso é gravíssimo para um Chefe de Estado, num País que clama ser plural e democrático, e que esteja a buscar a unidade e a reconciliação nacional.

*Antigo deputado à Assembleia Nacional

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido