
Durante a pausa pedagógica, visitei a província do Zaire, propriamente a sua capital, a mítica cidade de Mbanza-Kongo. Tendo em conta a minha curiosidade, sobretudo o que se relata acerca do legado histórico do antigo Reino do Kongo, e o que até mereceu o título de Património Mundial da Humanidade atribuído pela UNESCO, a 8 de Julho de 2017 ao centro histórico da cidade de Mbanza-Kongo, indaguei aos citadinos sobre o que sabiam deste facto e da possibilidade de haver alguma coisa para pesquisar sobre a música do Zaire.
Entretanto, o que me surpreendeu, foi a unanimidade da resposta seca, nua e crua, quer dos mais novos, como dos mais velhos: “Aqui não há nada, meu!”, respondiam-me com um ar de cepticismo.
Portanto, apesar da nega dos “Munsasalas”, nome atribuído aos naturais de Mbanza Kongo, a minha curiosidade e apetência pela pesquisa não ficou abalada, antes pelo contrário.
Foi assim que arregacei as mangas, tracei um plano científico e fui ao campo onde, entre a água turva, lama e pedras, no final das contas, encontrei na peneira um diamante, ou, no linguajar próprio dos cientistas sociais, uma enciclopédia viva.
Bem no início da pacata vila de Mbanza Kongo, defronte ao túmulo do soldado desconhecido, deparei-me com o kota Nascimento, cujo nome artístico é Tremura. O mesmo, já em fase de aposentadoria, é o mais antigo funcionário dos correios da cidade.
Nasceu há 86 anos, nunca viveu fora de Mbanza Kongo e conhece como ninguém a história da sua cidade, do antes e depois da independência.
Para além da história social, política e da cultura congolesa, onde mergulha sem se afogar, o kota Tremura segredou-me que é o único integrante ainda em vida do agrupamento musical mais antigo de São Salvador do Congo, hoje Mbanza-Kongo, e quiçá, da província do Zaire: o Ndombe Jazz.
O também conhecido como “Os Negros do Jazz”, foi um agrupamento fundado na década de 1960 por jovens e antigos funcionários da administração colonial de São Salvador do Congo.
Segundo o kota Tremura, a primeira aparelhagem do agrupamento foi-lhes oferecida por um tenente português, cuja função, de acordo com o mesmo, corresponde hoje ao cargo de vice-governador. E ainda segundo o mesmo, a oferta tinha sido feita, com o objectivo de quebrar a monotonia que havia na cidade e criar um ambiente festivo e divertido entre a juventude local.
Foi assim que os jovens do Ndombe Jazz começaram a abrilhantar as festas do governador nos finais de ano, interpretando músicas que ouviam na rádio local e as que requisitavam a partir da Rádio Reparadora do Bié e que chegavam a São Salvador do Congo através dos correios.
Eram músicas de artistas como Roberto Carlos, José Roberto e Lindomar Castilho. Mas é do Ambrizete, actual N’zeto, que Tremura falou-me com bastante saudosismo.
Lá, segundo o mesmo, nos centros recreativos Benfica, Belenenses, Wada Clube e nos salões de festas, frequentados principalmente por tropas portuguesas e alguma juventude local, fizeram bastante furor.
No entanto, depois de tanto sucesso, o Zaire ficou pequeno para o agrupamento. Foi assim que vieram conquistar a cidade grande, numa altura em que os músicos e os conjuntos de Luanda “sentiam-se ameaçados” pela presença de agrupamentos provenientes do Noroeste de Angola, tal como o Cabinda Ritmos.
Actuaram no salão Kudisanga Kwa Makamba, foram vistos por Luís Montez, o grande promotor de espectáculos da Luanda Colonial, que os levou ao Ngola Cine, o maior e mais exigente palco de apresentações para os músicos nativos.
Gravaram dois discos de 45 rotações pela Valentim de Carvalho, cuja captação de som foi feita na EOA (Emissora Oficial de Angola), no qual constaram músicas como “Jujú Mamã”, “Belita” e “Merengue Ndombe Jazz”, que ainda hoje podem ser encontradas no arquivo discográfico da Rádio Nacional de Angola.
O agrupamento Ndombe Jazz teve uma duração efémera devido à conjuntura política que se vivia na altura. Até à sua extinção na década de 1970 -, Tremura fez um exercício de memória -, era constituído pelos seguintes integrantes: o Silva, que era o baterista, Adriano o viola baixo, Manuel Baptista, voz e tumbas, Estêvão, Óscar e Ndeko, este que era uma espécie de “show man” ao animar o público com toques de dança imitando James Brown, por quem nutria muita admiração.
Tremura lamenta não ser reconhecido e disse-me que, até à altura que o encontrei, nunca tinha dado nenhuma entrevista a um órgão de comunicação social, e jamais foi homenageado localmente. E disse temer que todo o legado histórico e cultural do seu agrupamento seja esquecido por não haver interesse em resgatar a memória, para que sirva de testemunho, de guia e orgulho para as novas gerações, principalmente na província do Zaire.