O medo de morrer por defender uma ideia para o país – Marcolino Moco
O medo de morrer por defender uma ideia para o país - Marcolino Moco
Moco

Para quem não vê razões para se falar de reconciliação nacional e de um pacto de transição para uma Angola verdadeiramente reconciliada e progressiva, por esses dias estamos a reviver dias de uma dessas razões: o medo de se ser morto, por simples razão de se defender uma ideia para o país; embora tudo previsto na nossa ordem jurídica, na ética e moral social e políticas, assentes na nossa história como país moderno africano.

Não estou a afirmar, por exemplo, que Nandó, por ter sido, aparentemente, cogitado como o candidato mais consensual em sectores significativos do MPLA, para suceder a João Lourenço, ou que o intrépido deputado Eliseu da UNITA, pela acutilância e mestria com que ampliava a influência do maior partido da oposição, a UNITA, foram assassinados pelo regime.

Como foi acontecendo ao longo dos anos, nos mais variados casos – e quando me refiro a isso não estou a falar do que aconteceu antes dos acordos de paz, assinados faz justo hoje, 24 anos – não houve estatuições institucionais ou de familiares que nos permitam fazer tal tipo de afirmação taxativa.

Mas, uma coisa é certa. Mentiríamos se disséssemos que não vivemos um atroz e desnecessário medo no ar. Medo no seio da população em geral pela degradação de muita coisa, enquanto os recursos do Estado estão essencialmente alocados para a prosperidade de poucas empresas, como o dizia com toda a propriedade, o deputado Eliseu; e alocados para a disseminação do medo, para que não haja muitos “eliseus”.

Medo entre nós, a elite política e social do país, com o natural medo de perder privilégios e até a própria vida. Viram o meu medo com as perguntas de uma jornalista estrangeira que desligou os contactos depois da entrevista que jamais saiu.

Medo nas palavras da deputada Michaela: “estão a dar cabo de nós um por um”, fazendo aqueles gestos faciais de quem pede o possível socorro; medo na incursão contra a história de assassinatos nas hostes do MPLA, dentro e fora de uma organização a que se atribui uma luta gloriosa contra o regime colonial, por um dos seus antigos militantes, Raul Diniz (aqui estamos a tocar um tempo que devia ter acabado, porque anterior à julgada paz definitiva de 2002).

E medo das insinuações cínicas de quem atribui algumas das mortes, na oposição, à própria liderança da UNITA, beneficiária primária da acutilância dos seus membros mais activos que vão morrendo de forma estranha e nunca esclarecida por quem o devia.

Os nomes das entidades, supostamente, no comando da máquina dessa fábrica do medo foram sempre balbuciados com medo, entre quatro paredes, mas, com muita assertividade.

Hoje, com João Lourenço, é o nome do general Miala que sobressai, este que chegou a ser preso e julgado, sem grandes esclarecimentos sobre as suas culpas e não culpas, no tempo de José Eduardo dos Santos.

Ontem, justamente quando o terror nos vinha da entidade general Kopelipa, que hoje por hoje, parece a caminho da sua reabilitação, quando ainda não estão explicadas as razões da sua vitimização, no âmbito do falhado (se calhar nunca projetado conscientemente) “combate contra a corrupção”, como aliás previmos, como não sendo aquela a melhor via, a de destruir o pouco que funcionava razoavelmente, em vez de se priorizar a abolição de um regime que era e é, em si, o perverso.

Só por isso, a reconciliação nacional verdadeira que não acontece desde os alvores da Independência, faz-se necessária. Mas, há muito mais razões, algumas já várias vezes enunciadas, que não caberiam num espaço como este.

O Congresso da Reconciliação Nacional da CEAST, do ano passado, equacionou, razoavelmente, as questões. Tenhamos sorte, que não se tenha parado por lá. Para o bem de todos. Até daqueles que nos amedrontam com o espectro da morte.

Para si e seus descendentes. Porque não haveria só o reconhecimento, o perdão e um recomeço a favor de todos os angolanos. Seria proibida a caça às bruxas. Já aprendemos o suficiente, para sabermos que ninguém ganha com ela (a caça-às-bruxas).

Viva a verdadeira Reconciliação Nacional.

Viva a Paz

*Ex-Primeiro-Ministro e ex-secretário-geral do MPLA

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