
Um homem que durante anos a fio foi pintado da pior maneira pela propaganda hostil de um Governo que se gabava de ser forte e poderoso; um homem que resistiu às sanções da Organização das Nações Unidas, sem nunca se desviar dos seus princípios e das suas convicções.
Um homem que dizia que acima de Angola não havia mais nada, e se manteve de cabeça erguida na trincheira ao lado dos seus intimoratos soldados, empunhando a sua arma, até ao último suspiro – esse grande homem possuí um legado que transcende as tentativas de se reescrever a sua história.
Savimbi não necessita de uma reabilitação oficial da sua imagem. Os seus feitos falam por si.
Por isso, não é adequado insinuar que o Presidente da República de Angola, João Manuel Gonçalves Lourenço, errou ao entregar as ossadas do Presidente fundador da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi, aos seus familiares.
Também não foi por ter sido sobrinho de Savimbi que o então chefe-adjunto do Estado Maior General das FAA, Arlindo Chenda Pena “Ben-Ben”, teve direito a honras militares. O general Ben Ben morreu em funções. Por Lei, todo General tem direito a “salvas de canhões”.
Outrossim, a criação da Fundação em nome de Jonas Savimbi é um direito que qualquer angolano pode exercer, desde que cumpra os requisitos legais.
Essas acções não devem ser vistas como más ou como uma tentativa de reabilitação da imagem de Jonas Savimbi. Usar esses elementos como forma de crítica política é uma tremenda desonestidade.
É certo que o julgamento histórico que cada um de nós faz em relação aos líderes dos movimentos de libertação não reúne unanimidades. Ou melhor, nenhuma figura humana foi consensual até aos dias de hoje.
Mao Tse Tung, o pai da revolução chinesa, Charles de Gaulle, de França, Nelson Mandela, da África do Sul, Fidel de Castro, de Cuba e tantos outros líderes, nenhum deles, nos seus próprios países, reúne consenso. Mas nem por isso deixaram de ser reconhecidos como heróis nacionais. Os seus feitos são amplamente divulgados e enaltecidos.
Infelizmente, entre nós, angolanos, a intolerância quase faz parte do nosso DNA, não aceitamos que aquele que foi nosso inimigo seja visto com outros olhos.
O tempo, como grande mestre da verdade, tem a capacidade de desmascarar a propaganda e mostrar o que realmente motivou homens como Savimbi a pegar em armas.
Passados 22 anos da sua morte em combate, permite-nos observar a sua luta com os olhos da justiça histórica, livres das paixões e dos preconceitos que ofuscaram o seu verdadeiro propósito.