Ousada Carolina – Jorge Eurico
Ousada Carolina - Jorge Eurico
JL e carol

Kimpa Vita (também conhecida como Dona Beatriz) foi precursora do nacionalismo africano e símbolo maior da resistência feminina. Nasceu no Reino do Kongo, no início do século XVIII.

Desafiou o rei. Desafiou chefes locais. Desafiou a Igreja Católica portuguesa. Era mulher. Era africana. Era incómoda. Acusada de heresia, foi presa. Queimada viva em 1706. Grávida.

Com o apoio dos missionários portugueses. Pagou caro pela ousadia. Séculos depois, o padrão reaparece. Mudam os métodos. A lógica do poder mantém-se.

Carolina Cerqueira ousou. Pagou politicamente. Jornalista. Jurista. Diplomata. Política. Nascida a 20 de Outubro de 1956, em Caculo Cabaça, província do Cuanza Norte. Membro do MPLA, exerceu vários cargos no Executivo.

Foi, até há bem pouco tempo, a única mulher a liderar a Assembleia Nacional. Um sinal claro: O poder feminino incomoda. O poder é afrodisíaco. E raramente conhece limites. Especialmente quando se trata dos limites alheios.

João Lourenço quis um terceiro mandato. Para isso, precisava de uma Constituição moldável ao ego. Avançou a proposta. Foi aprovada: Lei n.º 18/21, de 16 de Agosto de 2021. Invocaram-se virtudes políticas: Clarificação de poderes, voto na diáspora, autarquias, Banco Nacional. Até o calendário eleitoral. Mas havia um ponto sensível: O mandato presidencial. Esse, ironicamente, parecia intocável.

Carolina Cerqueira levantou o travão. Dentro do Sistema. Sem ruído. Sem palco. Procedimento. Agenda. Calendário. O suficiente para travar o “touro” no seu próprio jogo.

A resistência veio de dentro. O cenário mais incómodo para qualquer líder habituado à obediência cega. E convenhamos: Líderes assim detestam surpresas. Depois, veio mais ousadia. Defendeu múltiplas candidaturas à liderança do MPLA, no Bureau Político, no momento certo, no sítio certo. O Sistema não perdoa quem ousa pensar. Especialmente mulheres.

Em Angola, concentração de poder é tolerada. A contenção é punida. Carolina Cerqueira foi defenestrada do cargo de presidente do Parlamento por lembrar que as regras existem para ser respeitadas.

Recusou ser tratada como os juízes do Tribunal Supremo são tratados. Manteve a dignidade. Pagou por isso. A Constituição resistiu. Porque alguém, dentro do Sistema, ainda se lembra de fazer o seu trabalho.

Kimpa Vita ardeu na fogueira. Carolina Cerqueira ardeu no silêncio. Na indiferença de camaradas e do País inteiro. Vita foi destruída pelo fogo.

Cerqueira, pelo custo de conter o poder. Séculos diferentes. O mesmo medo quando a regra enfrenta o ímpeto. A muleta cumpriu o seu papel. O touro parou. Mas não sem bufar. O poder seguiu o seu curso.

E, como sempre, fez parecer que nada foi perturbado. A História vai fazer a triagem: Entre quem concentrou e quem soube limitar. E, se tiver sentido de humor, vai lembrar que nem tudo é testosterona.

*Jornalista

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido