
De repente, C4 Pedro passou a ser apontado como culpado pela suspensão da actividade filantrópica levada a cabo pela “ONG Zuzu for África”, na província do Bengo. O seu comentário ganhou mais peso do que anos de má governação, abandono social e promessas falhadas do MPLA.
O músico reconheceu, e bem, que as acções de caridade são sempre bem-vindas em Angola e em África. Ninguém de bom senso é contra quem ajuda. O problema, segundo ele, esteve na forma como essa ajuda estava a ser feita.
Na sua leitura, parecia mais um espectáculo para redes sociais do que um acto genuíno de solidariedade. Uma prática que transforma a dor do outro em conteúdo, engajamento e monetização.
C4 Pedro elogiou a iniciativa, agradeceu o gesto, mas deixou um recado simples e directo. Não usem a vulnerabilidade social das famílias angolanas como produto para ganhar visibilidade e dinheiro. Disse isso no exercício legítimo da sua liberdade de expressão. Não insultou ninguém. Não proibiu ninguém. Apenas opinou.
Alguns compreenderam a mensagem e apoiaram. Mas a maioria preferiu fazer do artista o inimigo público número um. Nas redes sociais, pintaram-no como traidor, cúmplice do regime, defensor do MPLA, como se as suas palavras tivessem causado mais danos ao povo do que 50 anos de governação do partido no poder.
Como o povo angolano não esquece quando lhe convém, muitos foram buscar momentos do passado em que o músico deveria ter-se posicionado e não o fez. Juntaram isso ao seu discurso actual e abriram, sem cerimónias, mais uma campanha de cancelamento. É curioso como se desperdiça tanta energia e tanta raiva no alvo errado!
Fico tranquilo, porque essa tempestade vai passar. O que preocupa é esse povo que ainda não se encontrou. Um povo facilmente influenciado, que raramente pára para analisar os assuntos com cabeça fria. Vive muito do segue bala, repete o que a maioria diz, mas quase nunca sustenta o que defende.
Quantas vezes já se anunciou o cancelamento de artistas, para depois, no primeiro espectáculo, aplaudir em massa e cantar todas as músicas?
Alguns defenderam que expor crianças e famílias vulneráveis é positivo porque o mundo precisa de saber que o povo angolano sofre. Como se o mundo não soubesse. Como se o Ocidente não tivesse perfeita noção da nossa realidade. E depois de saber, vai fazer o quê?
Mandar mais comida e manifestar indignação, enquanto nos bastidores continua a proteger e a garantir a manutenção do regime?
Esqueçam o C4 Pedro. Ele não é o problema. Ninguém é obrigado a pensar como o outro. É hipocrisia defender a tolerância, enquanto na prática se é profundamente intolerante. Não sejamos rotos a rir do rasgado.
O que C4 Pedro disse é simples e claro. Não usem a condição vulnerável do meu povo para ganhar engajamento e dinheiro em troca de comida. Isso não é defender o MPLA. Isso é proteger a dignidade do povo.
Portanto, não sejamos distraídos. Sabemos muito bem quem é o verdadeiro culpado do sofrimento deste país. Evitemos apontar o dedo ao alvo inocente, só porque é mais fácil.
*Pintor de Letras