
Assumiu a liderança após a morte do fundador da República Islâmica, o ayatollah Ruhollah Khomeini, e permaneceu no centro do poder durante mais de três décadas.
Discreto na exposição pública, ausente de entrevistas e de viagens oficiais ao estrangeiro, consolidou-se como a figura decisiva do regime iraniano, exercendo influência determinante sobre a política interna e externa do país.
Ali Khamenei esteve no núcleo do poder desde os primeiros momentos da Revolução Islâmica de 1979. Após a morte de Khomeini, em 1989, assumiu o cargo de Líder Supremo, função que ocupou durante 37 anos, tornando-se um dos governantes mais duradouros do mundo contemporâneo.
Durante o seu mandato, teve sempre a palavra final em matérias estratégicas, especialmente na política externa. A sua postura firmemente hostil em relação aos Estados Unidos inviabilizou qualquer tentativa consistente de reaproximação diplomática entre Teerão e Washington.
Da formação religiosa à militância política
Sayyed Ali Khamenei nasceu a 19 de Abril de 1939, em Mashhad, no nordeste do Irão. Proveniente de uma família religiosa, iniciou cedo os estudos teológicos. Frequentou seminários em Mashhad, Najaf e Qom, onde aprofundou a formação em jurisprudência islâmica.
Foi nesse período que se envolveu progressivamente na oposição ao regime do xá Mohammad Reza Pahlavi. Após a controvérsia em torno das reformas conhecidas como “Revolução Branca”, aproximou-se de Ruhollah Khomeini, tornando-se um dos seus colaboradores e interlocutores.
Antes da revolução de 1979, foi detido várias vezes pelas autoridades do regime monárquico. Um mês antes da queda do xá, foi nomeado por Khomeini para integrar o Conselho Revolucionário, órgão que preparou a transição para o novo sistema político.
Consolidação no novo regime
Com a vitória da Revolução Islâmica, Khamenei passou a ocupar posições de crescente relevância. Foi adjunto do Ministério da Defesa e desempenhou funções de liderança junto dos Guardas da Revolução.
Em 1980, foi nomeado imã das orações de sexta-feira em Teerão, uma das posições religiosas e políticas mais influentes do país.
Sobreviveu a dois atentados. Em Junho de 1981, ficou gravemente ferido na sequência da explosão de uma bomba escondida num gravador durante um discurso.
O ataque deixou-lhe sequelas permanentes no braço direito. Em 1985, escapou a um segundo atentado enquanto dirigia as orações na Universidade de Teerão.
A presidência em tempos de guerra
Após o assassinato do presidente Mohammad-Ali Rajai, em Agosto de 1981, Khamenei candidatou-se à presidência com o apoio do Partido da República Islâmica. Foi eleito com mais de 95% dos votos.
O seu mandato coincidiu com um dos períodos mais turbulentos da história recente do país, marcado pela guerra Irão-Iraque (1980-1988), disputas internas entre facções revolucionárias e instabilidade política.
As relações com o Parlamento foram frequentemente tensas, sobretudo na escolha do primeiro-ministro. Apesar das divergências, cumpriu dois mandatos consecutivos, totalizando oito anos na presidência.
Da presidência à liderança suprema
Em 1989, após o afastamento do sucessor designado Hossein-Ali Montazeri e perante a doença de Khomeini, foi criada uma comissão para rever a Constituição.
Khamenei integrou esse grupo, que propôs alterações significativas, incluindo a flexibilização dos requisitos religiosos exigidos para o cargo de Líder Supremo.
A 4 de Junho de 1989, no dia da morte de Khomeini, a Assembleia de Especialistas elegeu Khamenei como líder interino. Após a aprovação das revisões constitucionais em referendo, foi confirmado como segundo Líder Supremo do Irão.
Centralização do poder e tensão com o Ocidente
Ao longo de mais de três décadas, Khamenei consolidou gradualmente a autoridade do cargo, reforçando o papel das instituições de segurança, em particular os Guardas da Revolução, na política e na economia.
Críticos apontam que, sob a sua liderança, os órgãos eleitos perderam influência efetiva, enquanto o sistema se tornava mais fechado e securitário.
A repressão ao Movimento Verde, em 2009, o endurecimento das regras eleitorais e a marginalização de figuras reformistas acentuaram o afastamento entre o Estado e parte significativa da sociedade.
No plano externo, manteve uma linha de confronto com os Estados Unidos e os seus aliados, o que resultou em sucessivas rondas de sanções internacionais, com forte impacto na economia iraniana.
A morte e o impacto regional
Segundo relatos divulgados por meios de comunicação estatais iranianos e declarações de responsáveis norte-americanos e israelitas, Ali Khamenei terá sido morto em ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra Teerão.
O anúncio foi inicialmente feito pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, tendo posteriormente sido confirmado por órgãos oficiais iranianos. As autoridades decretaram 40 dias de luto nacional.
Os ataques terão também provocado a morte de vários altos responsáveis iranianos, incluindo figuras ligadas aos Guardas da Revolução. O episódio desencadeou uma escalada militar na região, com lançamento de mísseis e drones contra alvos no Médio Oriente.
A morte de Khamenei marca o fim de uma era na política iraniana e abre um período de incerteza quanto à sucessão e ao futuro equilíbrio de poder em Teerão.
com/Euronews