Reeducação ou exploração? Mais de seis mil reclusos trabalham sem remuneração em Angola
Reeducação ou exploração? Mais de seis mil reclusos trabalham sem remuneração em Angola
presos agri

Milhares de reclusos angolanos estão a trabalhar nas cadeias sem qualquer tipo de remuneração, prática confirmada pelo próprio director-geral do Serviço Penitenciário, o que levanta, pela primeira vez, o debate sobre possíveis situações de exploração laboral no sistema prisional do país.

O comissário prisional principal Bernardo Pereira do Amaral Gourgel revelou, durante uma entrevista cedida à Angop, que cerca de seis mil reclusos exercem actividades laborais, sobretudo nas áreas da agricultura e pecuária, contribuindo directamente para a alimentação nas unidades prisionais sem, contudo, receberem qualquer pagamento.

“Eles beneficiam de diferentes formas, sendo que a produção contribui, essencialmente, para a melhoria da alimentação”, afirmou o responsável.

Os dados oficiais indicam que Angola conta actualmente com cerca de 29.040 reclusos em Angola, dos quais 13.428 já foram condenados. Ainda assim, apenas uma parte destes – cerca de seis mil – participa em actividades produtivas.

O sistema prisional angolano enfrenta, paralelamente, problemas estruturais graves. Segundo o responsável, o país dispõe de apenas 43 estabelecimentos prisionais, número considerado insuficiente para responder à procura, resultando em níveis elevados de sobrelotação.

Entre a população prisional, 15.594 encontram-se em prisão preventiva, o que agrava ainda mais a pressão sobre as infra-estruturas e levanta preocupações adiccionais sobre direitos fundamentais.

As autoridades penitenciárias defendem que o trabalho desempenha um papel essencial na reintegração social dos reclusos. Para o efeito, o Serviço Penitenciário mantém parcerias com instituições como o INEFOP, além de empresas privadas, promovendo formação em áreas como carpintaria, mecânica, agricultura, pintura e corte e costura.

De acordo com Bernardo Pereira do Amaral Gourgel, o objectivo é dotar os reclusos de competências práticas que facilitem a sua inserção no mercado de trabalho após o cumprimento da pena.

Apesar disso, o facto de estas actividades não serem remuneradas levanta críticas, sobretudo num contexto em que o trabalho prisional gera valor económico, ainda que indirecto, para o próprio sistema.

Fora das portas

A nível internacional, não existe uma obrigação legal explícita que imponha aos Estados o pagamento de salários a reclusos. No entanto, organismos como a Organização das Nações Unidas, através das chamadas Regras de Mandela, recomendam que o trabalho prisional seja justamente remunerado e nunca exploratório.

Da mesma forma, a Organização Internacional do Trabalho estabelece que o trabalho de reclusos não deve assumir carácter forçado ou abusivo, devendo respeitar princípios de dignidade humana.

Na Europa, por exemplo, países como Portugal, Espanha, França, Alemanha, Noruega e Reino Unido remuneram reclusos, ainda que com valores inferiores do salário mínimo, enquanto que no continente africano apenas quatro países, nomeadamente: Uganda, África do Sul, Quénia e Tanzânia pagam um valor meramente simbólico.

Entre reintegração e exploração

O jurista angolano Nsolé Pedro considera que o modelo angolano levanta uma questão central: até que ponto o trabalho prisional, sem qualquer remuneração, pode ser considerado um instrumento de reintegração e não uma forma de exploração?

Apesar dos benefícios formativos e sociais, o analista defende que a ausência de compensação financeira retira dignidade ao trabalho e limita a capacidade dos reclusos de apoiar as suas famílias ou preparar a sua reinserção económica.

Por outro lado, Nsolé Pedro salienta que o facto de a produção agrícola e pecuária contribuir directamente para o funcionamento das cadeias – reduzindo custos operacionais do Estado – reforça a percepção de que o sistema pode estar a beneficiar economicamente de mão-de-obra não remunerada.

O caso angolano reflecte uma realidade comum em vários países africanos e não só, onde o trabalho prisional continua pouco regulamentado e distante das melhores práticas internacionais.

Num contexto de crescimento da população carcerária e de desafios estruturais no sistema penitenciário, a questão da remuneração dos reclusos surge como um tema sensível, com implicações legais, sociais e éticas. Para já, o Estado angolano mantém o modelo actual, defendendo-o como uma ferramenta de reintegração.

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