
O responsável do Centro de Imprensa da Presidência da República (CIPRA), Alberto Colino Cafussa, inscreveu no Plano Anual de Contratação (PAC) para 2026 uma verba de 19 milhões de kwanzas para aquisição de um pacote do programa Adobe Acrobat, cujo preço de mercado ronda os 283.000 kwanzas, ou seja, 266 euros por licença anual, segundo a tabela oficial da fabricante Adobe.
Ao câmbio oficial actual do Banco Nacional de Angola, o montante reservado pelo órgão presidencial equivale a cerca de 17,6 mil euros, valor suficiente para adquirir mais de 66 licenças oficiais do mesmo programa, o que está a levantar fortes suspeitas de eventual sobrefacturação na operação.
A discrepância entre o valor orçamentado e o preço praticado no mercado internacional tem gerado interrogações sobre os critérios utilizados pelo CIPRA na elaboração da despesa, sobretudo por se tratar de um software comercial comum, disponível globalmente e sem complexidade técnica que, à partida, justifique um encargo desta dimensão.
Especialistas do sector tecnológico ouvidos pelo Imparcial Press consideram que, mesmo admitindo custos adicionais de suporte técnico, instalação ou formação, “seria extremamente difícil” justificar financeiramente uma despesa desta magnitude apenas para a aquisição de licenças Adobe, salvo em caso de contratação de um pacote empresarial de larga escala, cenário que não foi detalhado no documento remetido ao Ministério das Finanças.
O caso está a alimentar críticas sobre alegadas práticas de inflação de preços em procedimentos de contratação pública, numa altura em que diversos organismos estatais têm sido alvo de escrutínio por inscreverem nos respectivos planos de contratação despesas consideradas desproporcionais face aos valores reais de mercado.
A ausência de explicações reforça as suspeitas em torno de mais um potencial caso de uso excessivo de fundos públicos numa instituição directamente afecta à Presidência da República.