Todo o erro tem condecoração – Artur Queiroz
Todo o erro tem condecoração - Artur Queiroz
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O senhor General Francisco Furtado está a precisar de acrescentar às estrelas um dicionário de pôr ao ombro depois de consultar. Se o fizer vai perceber que existe uma diferença radical entre perdoar e premiar ou condecorar.

Sagradas Escrituras não lhe fazem falta. Ele cita os textos maravilhosamente, como diria Donald Trump. Foi essa ciência que lhe permitiu dizer aos jornalistas: “O perdão é uma parte extremamente importante da nossa vida, todos nós pecamos, todos cometemos erros e não há erro que não tenha perdão. O senhor Presidente da República, ao anunciar a condecoração dos três signatários do Acordo de Alvor reflecte isso mesmo”.

Os pecados têm perdão. Mas segundo os entendidos, há uns tantos pecadores que vão parar às profundezas do Inferno, como Jonas Savimbi. Outros ficam no Purgatório a limpar o sangue das suas vítimas, como Jeremias Chitunda, António Dembo, Salupeto Pena, Alicerces Mango e outros sicários.

Dona Eva trincou a maçã. O senhor Adão também comeu o fruto proibido. Pecadores sem perdão. Nada é perfeito, nem nos reinos dos deuses. O Pai do Céu nem sempre está bem-disposto. Valha-nos deus João Lourenço, sempre atento e de olho nas condecorações. Ninguém condecora e perdoa melhor do que ele.

As mulheres e crianças queimadas vivas nas fogueiras da Jamba por Jonas Savimbi já lhe perdoaram. As mães de quase todos os seus filhos, por ele assassinadas, perdoaram-lhe mil vezes. Condecorado com a medalha Melhor Assassino de Sempre. Condecoradoras póstumas inspiraram o General Furtado, Adão de Almeida e João Lourenço. Grandes humanistas!

As populações civis assassinadas pelos sicários da UNITA nas aldeias e nas lavras já perdoaram ao criminoso de guerra Jonas Savimbi, mandante desses hediondos crimes.

Os dirigentes e militares da UNITA assassinados cruelmente por Savimbi e seus matadores às ordens, perdoaram sem pestanejar não vá o General Furtado e deus João Lourenço encomendarem ao chefe Miala a sua exumação e enjaulá-los na prisão de Viana. Com estes humanistas todo o cuidado é pouco.

O senhor General Furtado e a senhora vice-presidente do partido confessional MPLA, Mara Quiosa, precisam de saber que Jonas Savimbi assinou o Acordo de Alvor sabendo que ia rasgá-lo uns dias depois. Rasgou.

Saibam também que Jonas Savimbi lutou ao lado das tropas ocupantes portuguesas e dos Flechas da PIDE contra a Independência Nacional. Lutou ao lado dos racistas de Pretória contra a Soberania Nacional e a Integridade Territorial.

É um traidor. Um assassino cruel. Mas também um criminoso de guerra. Não sabiam? Têm de implorar a Deus que vos renove a memória e o sentido da decência, da honra e da dignidade.

Em 1993, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 864 que impõe sanções à UNITA por violar gravemente o Acordo de Bicesse.

Em 29 de Agosto 1997 a ONU impôs o encerramento das delegações da UNITA fora de Angola. Os seus dirigentes e familiares foram impedidos de viajar. Congelamento das contas bancárias. Proibição da venda dos diamantes de sangue. Nem Mário Soares os salvou.

“O Conselho de Segurança condena a UNITA por continuar as actividades militares, que estão a ter como resultado um aumento do sofrimento da população civil de Angola e prejudicam a economia angolana. Exige mais uma vez que a UNITA cesse imediatamente essas actividades;

Condena igualmente as repetidas tentativas da UNITA de conquista de território adicional e o seu fracasso em retirar as suas tropas dos locais que ocupou desde a retomada das hostilidades, e exige mais uma vez que o faça imediatamente e aceite sem demora que as suas tropas regressem às áreas fiscalizadas pelas Nações Unidas como medida transitória até a plena aplicação dos Acordos de Paz;

Reafirma que tal ocupação é uma grave violação dos Acordos de Paz e é incompatível com o objectivo de se alcançar a paz através de acordos e da reconciliação;

Condena fortemente os repetidos ataques levados a cabo pela UNITA contra funcionários das Nações Unidas que trabalham para o fornecimento de ajuda humanitária e reafirma que os referidos ataques são claras violações do direito internacional humanitário;

Exige que a UNITA proceda imediatamente à libertação de todos os cidadãos estrangeiros detidos contra a sua vontade e que se abstenha de qualquer actividade que possa prejudicar a propriedade estrangeira.”

Em 1999, a Assembleia Nacional, com João Lourenço sentado no seu lugar de deputado, aprovou três resoluções muito importantes.

Primeira: Recomenda ao Governo o fim da Missão de Observação das Nações Unidas em Angola (MONUA), em Angola.

Segunda: Manifesta solidariedade e reconhecimento pelo empenho dos oficiais, sargentos e praças das Forças Armadas Angolanas e os agentes da Polícia Nacional na defesa da Pátria.

A terceira vai à parte. Dedico esta resolução a Mara Quiosa e Francisco Furtado. Os deputados, entre os quais João Lourenço, declararam “Jonas Savimbi criminoso de guerra e terrorista internacional, bem como os seus seguidores malfeitores directamente envolvidos nos actos de guerra contra o Povo Angolano”. Perdoar um criminoso de guerra terrorista? Deus mesmo muito distraído mandou-o para o Inferno. Condecorá-lo é traição imperdoável.

O Presidente Bill Clinton declarou Savimbi e a UNITA “uma ameaça extraordinária e invulgar à política externa dos Estados Unidos”.

O Conselho de Segurança da ONU disse ao mundo: “A primeira causa da crise em Angola e do impasse no processo de paz é a liderança da UNITA”.

Os Chefes de Estado e de Governo da SADC, reunidos nas Ilhas Maurícias, declaram que “o comportamento de Jonas Savimbi é o de um criminoso de guerra, sendo por isso objectivamente incapaz de conduzir o seu partido no caminho da paz”.

Jonas Savimbi e toda a direcção da UNITA tinham de ser levados a um “Tribunal de Nuremberga” que no nosso caso podia ser em Lopitanga. O que jugou os chefes nazis do III Reich tinha juízes dos Estados Unidos da América (juiz Biddle), Reino Unido (Geoffrey Lawrence), França (H. Donnedieu) e União Soviética (Iona Nikitchenko).

Mais os agentes do Ministério Público: Robert H. Jackson (EUA), Hartley Shawcross (Reino Unido), François de Menthon (França) e o General R. A. Rudenko (URSS).

Condenados à morte: Hermann Göring (Uambu Peregrino), Rudolf Hess (Alcides Sakala), Joachim von Ribbentrop (Abílio Numa), Wilhelm Keitel (Isaías Samakuva), Ernst Kaltenbrunner (Samuel Chiwale), Alfred Rosenberg (Justino Pinto de Andrade), Hans Frank (Liberty Chiaka), Wilhelm Frick (Luís do Nascimento), Julius Streicher (Nelito Ekuikui), Fritz Sauckel (Nuno Dala), Alfred Jodl (Silvestre Samy), Arthur Seyss-Inquart (Chico Viana “Pançudo”).

Alguns criminosos de guerra suicidaram-se para não serem julgados: Adolf Hitler (Jonas Savimbi), Heinrich Himmler (Adalberto da Costa Júnior) e Joseph Goebbels (Ernesto Mulato). Os outros todos foram condenados a prisão perpétua ou penas de 20 anos. Vai acontecer também em Angola.

O general Francisco Furtado confunde perdão com premiação/condecoração. A vice-presidente do MPLA (versão partido confessional), diz que Jonas Savimbi lutou pela liberdade!

Destes enganos de alma resulta a condecoração de um criminoso de guerra e terrorista internacional. O chefe Miala tem de cortar a entrada de drogas duras na Casa Militar e na sede do MPLA!

*Jornalista

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