
Os trabalhadores do Centro de Acolhimento de Crianças Arnaldo Janssen (CACAJ), em Luanda, denunciam graves abusos laborais, humilhações e uma gestão financeira opaca, soube o Imparcial Press.
A instituição, liderada por João Facatino e pela madre Regina Lulus (directora adjunta), é acusada de não respeitar os direitos dos trabalhadores, adotando práticas consideradas autoritárias e humilhantes.
Segundo os relatos internos, a madre Regina Lulus mantém um ambiente de trabalho descrito como “regime castrense”, tratando os trabalhadores com desrespeito e chamando-os de “fomeados”.
Os mesmos afirmam ao Imparcial Press que apenas aqueles que “se curvam e veneram” a directora adjunta são tratados com respeito, enquanto os que ousam apresentar reclamações ou ideias diferentes são ameaçados de expulsão. Perante este cenário, muitos preferem manter-se em silêncio, sem saber a quem recorrer.
Além serem destratados, os trabalhadores do CACAJ recebem salários miseráveis, variando entre 15.000 a 30.000 kwanzas, valores que não condizem com a realidade financeira da instituição.
O mais caricato é que o pagamento é efectuado em dinheiro vivo, sem qualquer contribuição para a Segurança Social ou emissão de recibos.
A situação agrava-se com descontos arbitrários aplicados quando um funcionário falta, mesmo apresentando justificativos.
Fontes de receita não reflectem nas condições dos trabalhadores
Apesar das constantes alegações da direcção de que o centro – ligado à Igreja Católica – não dispõe de recursos financeiros, uma vez que não recebe financiamento directo da mesma, os funcionários apontam diversas fontes de receita que garantem uma entrada significativa de fundos todos os meses.
Entre elas estão:
A Escola Arnaldo Janssen, que arrecada em média 3 milhões de kwanzas mensais através das propinas, além de ganhos extras com a venda de uniformes e cartões de estudante. A cantina escolar fatura mais de 10 mil kwanzas diários.
O Centro Médico Arnaldo Janssen, que paga mensalmente uma quota que varia entre 150.000 a 200.000 kwanzas.
Doações mensais de benfeitores e padrinhos, destacando-se as contribuições em dinheiro feitas por cidadãos nigerianos, que actualmente são os principais doadores.
Os trabalhadores denunciam ainda a falta de transparência na gestão destes valores. Segundo os relatos, a direcção utiliza os fundos de forma discricionária, sem prestar contas sobre a aplicação dos recursos arrecadados.
Humilhação e permanência prolongada no cargo
A madre Regina Lulus, de nacionalidade estrangeira, é acusada ainda de gerir o centro como se fosse propriedade pessoal, ignorando as orientações da Lei Geral do Trabalho de Angola.
Os trabalhadores criticam o facto de a directora adjunta permanecer há vários anos no cargo, o que, segundo eles, aumenta o seu sentimento de impunidade.
De realçar que, a instituição foi fundada em 1993 pelos Missionários do Verbo Divino e pelas Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo.
A estrutura actual, construída em 1997 com apoio da British Petroleum, chegou a contar com o apoio financeiro da multinacional, que custeava os salários dos trabalhadores e a alimentação das crianças.
Actualmente, o CACAJ abriga mais de uma centena de crianças e adolescentes, com idades entre os 6 e os 18 anos. Além de frequentarem a escola, os meninos têm acesso a aulas de reforço académico, actividades desportivas e oficinas de arte.
A instituição possui ainda um centro médico para cuidados básicos e, no ano passado, foi beneficiada por recursos do Programa Fome Zero, do Brasil.