Três mulheres lésbicas morrem queimadas na Argentina
Três mulheres lésbicas morrem queimadas na Argentina
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É um ataque que está a chocar a Argentina, um dos países da América Latina onde a comunidade LGBTQ+ se sentia mais protegida. Três mulheres lésbicas morreram queimadas depois de um homem ter atirado panos em fogo para dentro do quarto que partilhavam, numa pensão para pessoas com problemas económicos e sociais, em Buenos Aires. Uma quarta está internada.

Os activistas pelos direitos LGBTQ+ dizem que o novo Governo de Javier Milei está a contribuir para um clima de ódio contra as minorias.

Três mulheres morreram e uma quarta encontra-se em estado crítico depois de um homem ter pegado fogo, com trapos ensopados em combustível, ao quarto situado numa pensão onde as quatro estavam a dormir. O fogo espalhou-se imediatamente e uma das mulheres, Pamela Fabiana Cobas, de 52 anos, morreu em poucas horas.

A sua companheira, Mercedes Roxana Figueroa, também de 52 anos, morreu no hospital, dois dias depois, devido a falência geral dos órgãos, e uma outra ocupante da pensão, Andrea Amarante, 42, morreu dia 13 de maio, também devido a ferimentos graves provocados pelo ataque, segundo avança o jornal “Buenos Aires Herald”. Uma quarta mulher, Sofía Castro Riglos, está internada.

A polícia está a investigar o crime como homicídio e crime de ódio, por se tratar de um ataque contra quatro mulheres lésbicas.

Um homem de 62 anos foi preso, porém a polícia ainda não avançou qualquer motivo para o ataque. A Federação LGBT da Argentina já classificou este atentado contra os dois casais como “um dos crimes de ódio mais abomináveis dos últimos anos”.

Identificado como Justo Fernando Barrientos, o suspeito vivia no mesmo alojamento, no quarto ao lado do das quatro mulheres, na rua Olavarría, no bairro de Barracas. O fogo acabou por se alastrar a todo o edifício e outras sete pessoas ficaram feridas. A pensão funciona como albergue para pessoas com dificuldades económicas acentuadas.

Os residentes em outros andares contaram à imprensa local que o suspeito empurrou as mulheres para dentro do quarto em chamas quando estas estavam a tentar escapar.

“Quando elas saíram do quarto estavam em chamas e ele bateu-lhes e voltou a empurrá-las para o fogo”, disse Sergio Araújo um dos residentes, ao site de defesa das minorias “Presentes”.

Um outro inquilino, Diego Brítez, foi dos que tentaram afastar o homem das vítimas. “Éramos cinco a tentar afastá-lo, para que ele não continuasse a bater-lhes”, disse, citado pelo mesmo site.

Os bombeiros encontraram vários panos queimados que tinham sido embebidos em líquido inflamável. Fontes policiais confirmaram ao “Buenos Aires Herald” que os bombeiros não encontraram quaisquer resíduos de vidro na casa de banho das mulheres, o que indica que o agressor não utilizou um cocktail Molotov no ataque, como tinha sido primeiramente noticiado.

Activistas acusam novo Governo de desproteger comunidade LGBTQ+

A Human Rights Watch escreve, na página dedicada a assuntos da América Latina, que “os defensores dos direitos humanos locais manifestaram a sua preocupação com o facto de os comentários depreciativos sobre as pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgénero (LGBT) e os seus direitos, feitos por políticos proeminentes, alguns dos quais ocupam agora altos cargos, estarem a contribuir para os já elevados níveis de violência contra as comunidades queer”.

O relatório de 2023 do Provedor de Justiça LGBT de Buenos Aires concluiu que “o discurso ofensivo de membros do partido político do Presidente Javier Milei, bem como nas redes sociais e nas ruas, no contexto da campanha presidencial de 2023 construiu um clima de segregação, rejeição e discriminação; o terreno mais fértil para a violência contra grupos historicamente vulneráveis”.

A Federação LGBT da Argentina disse também que “os crimes de ódio são o resultado de uma cultura de violência e discriminação, sustentada por discursos de ódio atualmente apoiados por vários funcionários do Governo” e criticou o desinvestimento do Executivo no apoio às vítimas deste tipo de crimes.

“Os únicos espaços a que nós, vítimas destes ataques, podemos recorrer estão a ser esvaziados ou eliminados pelo atual Governo, como o Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (INADI).”

Em Maio de 2023, o então candidato e agora Presidente Milei afirmou na televisão que a educação sobre género e sexualidade procura “exterminar a população” e provoca “a destruição do núcleo social mais importante da sociedade (…), a família”.

Vários outros membros do seu partido têm sido acusados de propagar o preconceito, como o deputado Ricardo Bussi, que é contra uma lei que introduziu quotas para a contratação de pessoas trans marginalizadas porque as pessoas LBGTQI+ “escolheram a sua trajetória sexual e se pode responsabilizar a comunidade toda por isso”.

Na mesma intervenção, na Universidade Santo Tomás de Aquino (UNSTA), em San Miguel de Tucumán, o agora deputado disse que as pessoas que se consideram LGBTQ+ “são seres humanos que merecem todo o respeito, tal como os coxos, como os cegos, como os surdos”.

Em Davos, Milei criticou “os ministérios das mulheres e as organizações feministas internacionais” por empregarem “burocratas que não contribuem em nada para a sociedade”.

Depois de tomar posse em dezembro, o seu Governo fechou o Ministério da Mulher, do Género e da Diversidade, proibiu a utilização pelo Governo de uma linguagem inclusiva do género e encerrou o Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo.

Milei também anulou um decreto que exigia a igualdade de género nas empresas e nos grupos da sociedade civil e pôs fim aos programas de formação centrados no género.

No seu entender, o aborto é “homicídio agravado pelo vínculo familiar” e vários deputados do seu partido têm tentado apresentar propostas para revogar a lei que, em 2020, o permitiu. No entanto, Milei não tem maioria no Congresso e muitas das suas ideias mais extremistas esbarram com a falta de apoio político.

O que tem poder para fazer vai fazendo, mesmo que sejam apenas atos simbólicos como remover os retratos de mulheres importantes na História da Argentina do Palácio Presidencial e trocá-los por outros, todos de homens.

Uma investigação de 2023 da Human Rights Watch revelou que, em 26 países, incluindo a Argentina, as mulheres membros da comunidade LGBTQ+ citam repetidamente “o perigo extremo de aparecer em público com um parceiro” como impedimento à sua vida romântica e sexual.

Na Argentina, onde dados do Governo, de 2023, mostraram que 41,7% da população vive na pobreza, os casais LGBTQ+ enfrentam barreiras maiores para arrendar casa, limitando sua capacidade de usar a privacidade de uma casa para se proteger.

in Expresso

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