Tuberculose é a terceira causa de morte em Angola
Tuberculose é a terceira causa de morte em Angola
hospital

Em 2025, o país registou 85.793 novos casos de tuberculose, uma baixa comparativamente ao ano anterior, em que se notificaram 90.058 ocorrências. Apesar disso, a doença continua a ser um sério problema de saúde pública e a terceira causa de morte, superada apenas pela malária e acidentes de viação, revelou em entrevista ao Jornal de Angola o coordenador do Programa Nacional de Controlo da doença.

Damião Victoriano, que é médico pneumologista, prestou estas declarações por ocasião do Dia Mundial de Combate à Tuberculose, assinalado hoje, tendo dito que esta doença infecciosa representa uma carga significativa no sistema de saúde, com alta incidência entre 15 e 39 anos.

O especialista em Pneumologia disse que, do total de 85.793 casos registados em 2025, um total de 4.897 estiveram relacionados com VIH-SIDA e 657 terminaram em óbitos.

Sob o lema “Sim, Podemos acabar com a Tuberculose”, o médico salientou que a patologia constitui um desafio para o país, numa altura em que, segundo o mesmo, Angola faz parte dos 30 países com maior incidência da enfermidade.

De acordo com o responsável do Programa Nacional de Combate à Tuberculose, do total dos casos registados em 2025, no primeiro semestre, 6.815 pacientes abandonaram o tratamento por diferentes razões, sendo que a falta de alimentação, distância dos hospitais, consumo de droga, tabaco, estigma e preconceito constituíram os motivos do insucesso no seguimento de tratamento da doença.

Em relação ao sucesso da terapêutica, referiu, no primeiro semestre do ano passado, 58 por cento dos casos foram devidamente tratados e estão sob controlo 40 por cento de doentes com tuberculose. “O resto vai cair no fracasso, abandono e óbitos”, afirmou.

Quanto aos casos pediátricos, o médico revelou que, no ano passado, um total de 7.497 crianças menores de 15 anos foi diagnosticado com a tuberculose pulmonar, sendo, também, o principal causador de óbitos entre os adultos.

Sobre o género predominante, realçou que os homens da faixa etária dos 25 aos 45 anos são os mais acometidos pela doença, motivados por maior exposição ao álcool, cigarro, drogas, negligência em assistência médica e por desistência ao tratamento médico.

Taxa de incidência e prevalência

Segundo o coordenador do Programa Nacional do Controlo da Tuberculose, a taxa de incidência a favor de novos casos foi de 224 por 100 mil e a de prevalência de 237.2 por 100 mil habitantes. E quanto ao insucesso no tratamento, houve registo de 640 e um aumento em casos de tuberculose multirresistente com 1.669 casos.

O especialista afirmou que o aumento que se verificou em casos da tuberculose resistente foi possível em virtude de maior acesso ao diagnóstico e rastreio da patologia nas comunidades.

“E por causa dessa situação, tivemos uma taxa elevada da tuberculose resistente que, em termos gerais, é a panorâmica epidemiológica da tuberculose em Angola”, revelou.

Os maiores desafios para o tratamento e o diagnóstico inicial da doença, na óptica do especialista, passa por intervenções de apoio, rastreio constantes dos casos suspeitos nas comunidades e dos conviventes de casa.

“Hoje, o diagnóstico inicial para a tuberculose é feito por biologia molecular, genexpert, e a baciloscopia, que fica para o seguimento e passando também para o rastreio dos contactos diagnosticados”.

O médico ressaltou que a solução da tuberculose não é só do Ministério da Saúde, é um problema que deve ser resolvido a nível multissectorial, constituindo um dos grandes desafios que deve contar com o apoio das comunidades, igrejas, escolas, sociedade civil por o tratamento e o diagnóstico ainda ser considerado de custo alto e por o orçamento geral do Estado não ser suficiente para cobrir essa despesa.

Por outro lado, afirmou que é necessário um trabalho de sensibilização, informação e educação para que um cidadão seja informado, ajudando assim na diminuição do abandono, tratamento, das complicações e consequências do não cumprimento da terapêutica.

Tempo de tratamento

Quanto ao tempo de tratamento, o especialista referiu que são necessários seis meses para o tratamento da tuberculose, sensível na fase inicial, enquanto que para a multirresistente, muitas vezes, os casos podem acarretar onze meses para a certeza da cura da patologia.

Dentre todas as formas da tuberculose, avançou que a pulmonar é a predominante por a sua transmissão ser por via aérea, constituindo-se como um problema de saúde pública.

Em relação às unidades sanitárias aptas para o tratamento da doença, em 2018, o Ministério da Saúde, por meio de um despacho ministerial, orientou que todas as unidades sanitárias do país deviam prestar assistência médica e medicamentosa a todos os casos de tuberculose.

Neste momento, explicou, um total de 407 unidades hospitalares atendem os pacientes com a tuberculose. “É uma expansão que tem que ser paulatina e sustentável. Mas a maior parte das unidades tem o tratamento e o diagnóstico da tuberculose”, sublinhou.

Em Luanda, por exemplo, existem o Dispensário Anti-tuberculose e Lepra e o Centro Especializado de Tratamento de Endemias e Pandemias (CETEP), situado no município de Calumbo, na província de Icolo e Bengo, que prestam assistência especializada aos doentes com tuberculose.

Inovações para o tratamento e combate

O médico destacou que uma das primeiras inovações é o diagnóstico rápido da tuberculose e o uso do aparelho de GeneXpert, um sistema automatizado de testes moleculares (PCR) que detecta doenças infecciosas em tempo real, fornecendo resultados rápidos em menos de duas horas, que serve, também, para diferenciar a tuberculose sensível da resistente.

“E a nível mundial, já se está a pensar em outras vacinas, além da BCG, que se encontram em fase avançada, nomeadamente dois ou três tipos de vacinas que estão no estado três de investigação”, disse, acrescentando que a nível nacional, principalmente para o tratamento da tuberculose multirresistente, está em estudo a troca do tempo de tratamento que vai passar de 11 para seis meses.

“As equipas técnicas estão a trabalhar para ver se ainda no segundo semestre deste ano se consegue passar esse esquema de tratamento de 11 para seis meses, todos por via oral”, referiu.

Metas para a eliminação da doença

De acordo com o coordenador do Programa Nacional do Controlo da Tuberculose, segundo a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), o marco para a erradicação e eliminação da tuberculose é até o ano de 2035.

Para o responsável, é uma meta ambiciosa, mas tem de se trabalhar com todas as forças vivas da sociedade para que se consiga cumprir com todos os propósitos envolvidos no combate e na eliminação deste desafio, considerado um problema de saúde pública no país.

Damião Victoriano explicou que uma das principais relações com VIH é pelo facto de a patologia constituir um factor de risco a um paciente com o referido vírus de imunodeficiência humana que, como se sabe, acaba por destruir a imunidade do organismo do paciente, favorecendo o surgimento da doença.

“O despiste de rastreio permite determinar a relação das duas patologias”, referindo-se à tuberculose associada ao VIH-SIDA e a não-associada.

O foco da preocupação das equipas médicas é particularmente o estigma e o preconceito para com os profissionais que trabalham com a tuberculose e os pacientes com a doença que muitas vezes são separados e afastados até pela sociedade.

O especialista enfatizou que existe em todas as unidades sanitárias e de forma integrada programas e actividades para os pacientes, como palestras, seminário, busca activa, projectos de iniciativas privadas com envolvimento de algumas igrejas, da sociedade civil e um esforço conjunto por uma causa justa em volta da panorâmica da tuberculose.

As acções para a redução se traduzem no rastreio de todos os pacientes e familiares com suspeita de tosse há mais de 15 dias de evolução, perda de peso e febre, o diagnóstico para o tratamento.

Tuberculose e a sua classificação

O especialista em Pneumologia explicou que a tuberculose é uma doença infectocontagiosa, crónica, prevenível e tratável, cujo agente etiológico é a microbactéria tuberculose que acomete o pulmão e outros órgãos.

Classificando em tuberculose em pulmonar ou extrapulmonar, sensível ou multirresistente e, relativamente à resistente, podendo ser adquirida ou secundária, com o foco de transmissão por um indivíduo, adquirida pela tomada irregular de medicamento ou por tratamento prévio.

Damião Victoriano afirmou que por conta da classificação e formas de contágio da doença, um dos desafios do programa é o tratamento da tuberculose resistente primária, adquirida por paciente com uma tuberculose resistente, manifestando-se pela tosse, espirro, expelindo bacilo já resistente.

Medicamentos e grupo de maior risco

O coordenador do Programa Nacional de Controlo da Tuberculose assegurou que a distribuição de medicamentos é feita em todo o país sem ruptura no stock.

“Nesse momento, estamos a fazer distribuição de medicamentos em todos os pontos do país, sendo o Estado o responsável pela compra para a aquisição dos pacientes nas unidades sanitárias indicadas”, assegurou.

Quanto aos grupos de riscos, destacou os pacientes vivendo com VIH, doentes diabéticos, com insuficiência renal, vítimas de tumores, crianças menores de cincos anos, mulheres grávidas, idosos, pacientes, pacientes considerados alcoólatras e consumidores de substâncias nocivas e drogas.

“Mas isso não exclui um indivíduo normal sem aqueles factores de não apanhar a tuberculose”, sublinhou.

Apelou a uma abordagem multidisciplinar e o envolvimento da comunidade, sociedade e a família no diagnóstico, acompanhamento e tratamento da tuberculose.

Transmissão da doença

A tuberculose é transmitida de pessoa para pessoa por via aérea, através da inalação de aerossóis contendo o bacilo mycobacterium tuberculosis. A contaminação ocorre quando alguém com tuberculose activa (pulmonar ou laríngea) tosse, espirra ou fala, lançando gotículas no ar, especialmente em ambientes fechados e pouco ventilados.

Sinais e sintomas

Os sinais e sintomas, disse, têm que ver com o órgão do corpo acometido, tendo acrescentado que, se for o pulmão, o paciente apresenta tosse, hemoptise, tosse com sangue, proveniente das vias áreas inferiores, perda de peso, suor noturno e febres no final do dia.

Se a tuberculose, acrescentou, acometer um outro órgão fora do pulmão, o sintoma é específico a depender do órgão comprometido pela doença.

No entender do especialista, a tosse por si só não é doença, é um mecanismo de defesa do organismo, como sintoma que envolve factores na presença de uma região considerada endémica, por algum membro familiar que teve a doença, avaliação clínica e a evolução de duas semanas associada à epidemiologia do país, que pode se relacionar com a tuberculose.

Segundo o médico, a tuberculose pode ser assintomática na fase inicial, frisando a importância e a necessidade do rastreio precoce dos contactos para a descoberta da doença.

Para o médico, existem diferentes formas da descoberta da patologia, feita por diagnóstico epidemiológico, clínico, pelos sintomas, imagiológico e o de certeza laboratorial.

Centro Especializado de Tratamento de Endemias e Pandemias

O Centro Especializado de Tratamento de Endemias e Pandemias (CETEP) é uma unidade de terceiro nível, referenciada no tratamento de pacientes com diferentes patologias, desde adultos a crianças, com particular atenção para os casos de tuberculose pulmonar em todas as suas formas, leve, moderada e grave, para uma atenção especializada.

De acordo com o seu director clínico, João Bernardo, no ano passado, o CETEP atendeu, no banco de urgência, 86 casos de tuberculose por dia, e destes, 55 acabavam por internar.

O médico especialista em medicina intensiva explicou que foram diagnosticados 10.650 casos de tuberculose pulmonar, com uma taxa de mortalidade bruta de 10 por cento, e tiveram alta médica 20.027.

O centro integra o Sistema de Saúde angolano para melhor resposta a emergências sanitárias, com 850 profissionais, sendo 652 enfermeiros de diferentes especialidades, 147 técnicos de diagnósticos e terapeutas, bem como 51 médicos que lidam com a demanda de pacientes provenientes de diferentes pontos do país à procura de assistência médica especializada e de qualidade.

Desafios

Em relação aos desafios do CETEP, o director clínico disse que há falta de mais especialistas, desde médicos e enfermeiros para responder à procura por atendimento aos pacientes, técnicos de laboratórios, de apoio hospitalar e serviços terceirizados.

“Por meio do projecto de financiamento do Banco Mundial em parceria com o Ministério da Saúde para a especialização dos profissionais, tem havido o esforço do Executivo com políticas de formação contínua e especialização de profissionais na área do saber com competências para melhor servir os pacientes”, afirmou.

Falta de laboratório de Anatomia Patológica e um micro laboratório para o exame de esculturas e o diagnóstico preciso das tuberculoses multirresistente, pulmonar e sobretudo para a tuberculose extrapulmonar para a definição exacta do exame, a locomoção dos pacientes para diferentes serviços e a taxa de internamento.

Capacidade do CETEP

O Centro de Tratamento Especializado de Endemias e Pandemias tem a capacidade de 1500 camas das quais, 1.002 usadas de forma efectiva, 498 especiais reservadas para acudir as patologias potencialmente epidémicas de interesses de saúde pública, nomeadamente casos de ameaças e suspeitas de doenças de cadeia de transmissão comunitária para isolar esses doentes e eventualmente seus contactos.

O centro dispõe dos serviços de Infecciologia, em que internam a maior parte dos doentes, área de Pediatria Geral, Cuidados Intermédios e Intensivos, Pneumologia, Cardiologia, Imagiologia e de Laboratório, de grande utilidade na investigação de apoio às patologias.

Dados mundiais

O Relatório Global sobre Tuberculose 2025 da Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que a patologia continua sendo uma das doenças infecciosas mais letais, com 10,7 milhões de novos casos e 1,23 milhão de mortes em 2024, afectando o progresso global.

Apesar de diagnósticos melhores, cortes de financiamento ameaçam reverter os ganhos já alcançados no combate à doença. Além disso, cerca de um quarto da população mundial tem a infecção latente da tuberculose. Sendo que a maioria dos casos ocorre em países de baixa e média renda, com destaque para regiões no Sudeste Asiático, África e Pacífico Ocidental.

in JA

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido